CANOA FURADA?

“Eu não tenho bola de cristal” para saber o que aconteceria com Aécio Neves

Por Jozailto Lima
24 maio 2017, 22h42

O senador Eduardo Amorim entrou numa canoa furada ao se filiar ao PSDB. Com tudo o que aconteceu com o presidente nacional do partido, senador Aécio Neves, Eduardo colocou em perigo seu projeto de disputar o Governo de Sergipe em 2018.

Este tipo de observação política pontua a cada nove de dez comentários de opositores do senador Eduardo Amorim em Sergipe. Pelos autores dessas observações, ele nunca deveria ter trocado, em janeiro deste ano, o PSC pelo PSDB.

Mas Eduardo Amorim não morde nenhuma destas iscas. Não abala a passarinha. Primeiro, por achar que não tem o dom de prever o futuro, ele fez a troca. “Eu não tenho bola de cristal para saber que esta crise ia se instalar dentro de um dos maiores partidos nacionais. Um partido grande e com uma história gigante, como o PSDB”, desvia Eduardo.

E aponta outro atenuante. “Mas o fato de ter acontecido com a Aécio Neves de nada ter a ver comigo. Cada um é cada um. Quem continua na Presidência Nacional do partido, e com o nosso apoio, é Tarso Jereissati, com o qual me relaciono muito bem”, diz o senador.

Apesar de alegar a inexistência da bola de cristal, Eduardo deixa indícios de que o tombo de Aécio poderia acontecer. “Sinais existiam, por algumas coisas. A gente não sabe das atitudes internas de cada pessoa. Quando estas atitudes não são éticas e morais, essas pessoas se perdem, acabando nisso que está acontecendo. Eu, como muitos brasileiros, só estou sabendo agora”, diz.

E aí Eduardo Amorim joga para o inevitável coletivo. “Se a canoa está furada agora, algum tempo atrás muita gente me dizia o contrário. Dizia que eu fiz o certo”, reforça. O senador informa que a mudança de partido se deu por uma também inevitável necessidade orgânica.

“Eu não poderia ficar no PSC. Tinha o meu nome e o de André Moura, e no grupo tinha ainda o senador Valadares. Dois de um mesmo partido. Não caberia. Ninguém iria saber que iria acontecer esta crise toda. Agora é lidar com isso, e ter força e equilíbrio para reagir e ajudar ao país”, diz.

Com a tragédia do PT no pré e pós-Dilma, nutriu-se a premissa de que Aécio acabaria presidente da República em 2018 por uma espécie de W x O. Eduardo Amorim nunca diz isso, mas sua ida para o PDSB certamente atendeu a esta lógica.

Com Aécio “morto”, agora o PSDB transita na corda bamba dos nomes de Geraldo Alckmin e de João Dória Júnior, o governador do Estado de São Paulo e o prefeito da cidade de São Paulo, respectivamente. “São os nomes mais conhecidos”, consente Eduardo.

“O Dória é um nome que está em crescimento, com empolgação. Mas a gente não pode esquecer que ele está chegando agora. O Geraldo Alckmin já é um nome mais consolidado, mas na época da eleição o Dória já terá mais de um ano de vivência. É tudo muito cedo”, diz Eduardo.

Para o senador sergipano, o momento tenso do Brasil acena para uma exigência de qualidade de projetos e gestores. “O que o brasileiro tem manifestado e tem desejado é a necessidade de gerentes e de gestores. De gente que cuide do dinheiro do povo com responsabilidade e compromisso. E que devolva ao povo, se possível de forma multiplicada, aquilo que ele entregou na forma de tributo. Ou seja: qualidade nos serviços públicos”, diz.

“Queremos gerentes responsáveis e não gerentes que fabriquem ralos, sejam ralos de corrupção ou de desonestidade. Ninguém aguenta mais isso. Ninguém quer mais isso. E quando se fala de ralos e de corrupção, estamos falando não apenas do dinheiro, mas do mal da moral e do mal ético”, afirma Eduardo Amorim.

ONTEM E A SITUAÇÃO TÃO TENSA
O senador Eduardo Amorim disse ontem a esta coluna que nunca viu, em 11 anos de mandatos – ele foi deputado federal antes -, uma situação tão tensa quanto a vivida por Brasília nestes dias, sobretudo com as manifestações de fogo em Ministérios e discursos duros no Congresso ontem. Para Eduardo Amorim, os limites da governabilidade sob Michel Temer vão até o dia 6 de junho, quando o TSE julgará se cassa ou não a chapa Dilma-Temer de 2014. “Estamos vivendo dias tensos, com ruas e Ministérios pegando fogo. Estamos vivenciando as consequências da crise moral e da crise ética. A crise institucional vai desencadeando várias outras, como a do dólar. Estamos vivenciando a crise da falta de cuidado com a coisa pública, que nos coloca ladeira abaixo”, diz. “O que me chama a atenção é ver o próprio partido do presidente, o PMDB, extremante dividido. Que confusão. Nunca vi nada parecido. Nunca vi um parlamentar subir na tribuna e falar contra um aliado. É uma Torre de Babel. Cada um fala uma língua diferente. Eles ajudaram a chegar lá. Renan Calheiros foi quem conduziu o processo de impeachment. Foi quem ajudou a comandar aqui no Senado o julgamento”, diz o senador.

“AVALIOU MAL AO RECEBER JOESLEY”
Para Eduardo Amorim, Michel Temer “avaliou mal ao receber uma pessoa como o Joesley Batista. Os nossos gabinetes recebem muita gente. Mas teve gente que esse cara procurou e que não o atendeu. Eu ouvi aqui na rádio corredor. Receber um cara como esse, investigado, é complicado. É se expor demais”, diz. Eduardo acha que a governabilidade para Temer “está cada vez mais difícil”. “A instabilidade está cada vez mais aumentando. Eu acho que o dia 6 vai ser estratégico. Meu partido está vendo assim e assim já se manifestou. Muita gente aguarda o dia 6”, diz. Seis de junho é o dia em que o TSE julga se cassa ou não a chapa Dilma-Temer de 2014. “Ele não vai renunciar. Acho difícil ele renunciar”, reforça o senador. “Que o Congresso faça a sua parte. É preciso que cada instituição cumpra dignamente a sua missão para que o país saia deste caos, desta desordem, desta bagunça. Só as instituições organizadas, com certeza, vão nos tirar deste caos. Espero que o Ministério Público cumpra a sua missão e que o Supremo também, com o devido cuidado cada um. Quem é responsável por julgar que julgue. Para isso foram bem preparados e escolhidos”, diz.

DIA DE FOGO EM BRASÍLIA, SEGUNDO FÁBIO MITIEIRI
A coluna Aparte pediu que o deputado federal Fábio Mitidieri, PSD, resumisse num depoimento o dia de ontem em Brasília. De pronto, ele descarregou o que você lê a seguir: “Foi um dia de indignação. O povo todo foi para rua, demonstrou o que todo mundo já sabe: que Temer não tem condições de ficar. Se já não tinha apoio popular, perdeu o apoio político depois das denúncias. O sentimento é de que o seu governo está chegando ao fim. Mas as manifestações da semana do impeachment foram maiores. Tinha mais gente na rua. Hoje foi um dia muito ruim para o Executivo. O impeachment foi muito ruim para Legislativo. Se, por um acaso da vida, o Governo conseguir se manter em pé, ele vai sangrar como sangrou a Dilma: perde a governabilidade. E já se conversa aqui nos bastidores sobre nomes que poderiam substituí-lo. Tem vários: Tarso Jereissati, Fernando Henrique Cardoso, Nelson Jobim. Estes três estão mais à frente. Acho que as coisas contra ele se definem mais cedo. Dia 6 (de junho) começa a ficar mais longe. A sociedade está cobrando uma resposta mais rápida. Como não existe ainda consenso sobre nome, precisa um prazo para os partidos se articularem também. E o próprio Rodrigo Maia também está aparecendo. A instabilidade política está novamente afetando a economia. O governo tenta passar uma falsa imagem de normalidade. Não convence ninguém, e a gente precisa de uma solução rápida para o problema, para que as coisas possam se acalmar de novo. E, outra: hoje o clima na Câmara também foi muito tenso. Os deputados quase indo às vias de fato. Foi um dia com os ânimos muito exaltados. Com tudo isso, o clima das votações ficou complicado. Aí todos os deputados da oposição saíram do plenário em protesto e deixaram o governo livre, que votou tudo o que tinha que votar, mesmo sem a oposição. A oposição fez um protesto se retirando fisicamente do plenário. Eu acho que foi um equívoco. Durante o dia foi muito bate-boca, muita briga de deputado. A oposição ocupando a mesa, o clima lá de fora também afetou aqui dentro”.

Fábio Mitidieri: um dia de cão no Planalto Central

“CONSEGUI PROVAR A MINHA INOCÊNCIA”
De volta a Assembleia Legislativa depois de um ano e meio desterro, o deputado Augusto Bezerra manifestou ontem confiança nos trâmites que faltam para que seja definitivamente encerrado o processo e ele fique definitivamente com o mandato. “Ainda tem o julgamento e tem recurso para Brasília. Mas eu entrego tudo nas mãos de Aurélio Belém. Estou muito satisfeito com ele. E a decisão foi do Supremo. Eu tenho uma grade expectativa do julgamento, porque durante a instrução eu consegui provar a minha inocência. Não tenho dúvida disso”, disse o parlamentar. Aurélio Belém do Espírito Santo é o advogado que cuida da causa dele e de Paulinho da Varzinhas. Os dois são acusados de malversação de recursos do Legislativo através das antigas verbas de subvenções.

Augusto Bezerra: adoeceu, mas manteve a esperança

“EU TENHO MUITA ESPERANÇA”
Augusto sai do processo fatigado. “Não adianta esconder isso: eu fiquei até doente. Estou fragilizado. Mas eu tenho muita esperança”, diz. “Delação premiada sem provas não existe. Eu nunca ameacei o gerente do banco, e o afastamento foi por isso e por dizerem que tinha dinheiro demais em minhas contas. Foi feito uma auditoria no Banese e não tem um centavo em minhas contas que não seja provado”, diz Augusto. Na fase mais dura do processo, circulou até o comentário de que Augusto Bezerra pensara em tirar a própria vida. “Nunca pensei em suicidar”, nega ele. Aos 64 anos, ele é pai de três filhas formadas – duas na área do Direito, uma promotora e a outra defensora pública. “Meu espelho são minhas filhas. Depois de 64 anos, no sexto mandato, ser considerado desonesto. Isso eu não aceito. Eu vou provar dentro da justiça e da lei”, diz Augusto.

OPOSIÇÃO LIDERA PREFERÊNCIA PRO GOVERNO
Os senadores Antônio Carlos Valadares, PSB, e Eduardo Amorim, PSDB, mantém os melhores índices de intenção de voto para o Governo de Sergipe na eleição de 2018, segundo pesquisa do Instituto Paraná Pesquisa feita entre os dias 18 a 22 de maio e com 1.502 eleitores, a pedido do Departamento de Jornalismo da TV Atalaia. Se a eleição ocorresse nos dias da realização da pesquisa, Valadares teria 47,2% e Eduardo Amorim, 40,2%. Convém ressaltar que esses índices não são somatórios.

Antônio Carlos Valadares: boa posição para Governo e Senado

ANDRÉ MOURA E BELIVALDO SEM EMBOLAM
O Paraná Pesquisa aplicou dois questionários estimulados nos quais usou os nomes de Valadares e de Eduardo separadamente. Na sondagem com o nome de Valadares, 5,4% dos entrevistados disseram que não sabem em quem votariam. Outros 20,6% disseram que não votariam em nenhum, André Moura seria a opção de 15,1% e Belivaldo Chagas, 11,7%. No questionário com Eduardo Amorim, os “não sabem” ficaram com 6,2%, outros 25,4% disseram que não votariam em nenhum, e André Moura fica 14,5% e Belivaldo Chagas, 13,6%.

SENADO: PERFORMANCES VIGOROSAS
Para o Senado, a pesquisa usou um número maior de políticos sergipanos – sete, e eles mostram performances vigorosas. As lideranças ficam com Valadares, com 34,8% das intenções de votos, seguido de Eduardo Amorim, com 30,4%. Jackson Barreto vem com 21,5%, André Moura, com 15,7%; Rogério Carvalho, 13,8%; Fábio Mitidieri, 11,8% e Pastor Heleno, 11,8%. Não sabem, 4,2% e em nenhum dele, 12,6%. Como em 2018 há duas vagas de senador, cada entrevistado terá a prerrogativa de escolher até duas opções.

Jackson Barreto: segunda melhor opção, se Eduardo for ao Governo

VALMIR MONTEIRO E A PREVIDÊNCIA
O prefeito de Lagarto, Valmir Monteiro, deu ontem um dado curioso a esta coluna: nestes cinco meses de sua gestão, o município nunca conseguiu ficar com R$ 200 mil do FPM num mês. “Tem mês que sobram R$ 100 mil. Nunca consegui receber ainda 10% do FPM de Lagarto”, diz ele. O mais grave é saber que a média do FPM lagartense é de R$ 1,9 milhão. “O resto fica todo confiscado para o pagamento das dívidas com a Previdência. Porque a Previdência não é mais paga como antigamente, diretamente pelas Prefeituras. Agora é descontada das parcelas do FPM”, diz o prefeito. Para Valmir, este é o momento, mesmo sob tensão, de Michel Temer fazer votar no Congresso a Nacional a Medida Provisória que regulamenta o parcelamento de 120 meses pactuado com os prefeitos há duas semanas. Valmir viajou a Brasília ontem à tarde e disse que vai tentar tratar disso com o deputado André Moura, líder do Governo no Congresso. Ele entende que os deputados federais seriam solidários à medida e votariam, se chegasse à pauta.

Valmir Monteiro: MP pede urgência

ALESE PLANEJA REALIZAR CONCURSO
Eis um dado positivo: a Assembleia de Sergipe pretende realizar o primeiro concurso público do Poder Legislativo. Isso é positivo por dois aspectos: primeiro, pela intenção de prover servidores pelos caminhos legais que devem nortear a chegada ao serviço público. Segundo, porque concurso público é sinônimo de empregabilidade. Se for para atender a reais demandas, ótimo. Na última terça, o presidente da Assembleia, deputado Luciano Bispo, PMDB, montou uma comissão para estudar o atual quadro de servidores efetivos da Casa e dar os subsídios necessários ao chamamento do concurso. “Não temos ainda nenhuma condição de anunciar quantos cargos e para quais áreas nós faremos o concurso, mas já determinei que os assessores me tragam esse estudo para que eu possa, então, anunciar para os sergipanos as quantidades dos cargos que serão preenchidos e os seus respectivos valores dos salários”, informou Luciano Bispo.

Luciano Bispo: comissão para fazer levantamento

ETC@TAL
@ O ex-deputado federal João Fontes disse na terça-feira, em conversa com o titular desta coluna e não publicada, que o STF acolherá as denúncias da PGR contra Temer.

@ A que ponto chegamos: a caçada à quadrilha do Fernandinho Beira-Mar, pela Polícia Federal, ontem, deu uma trégua à caçada aos políticos corruptos.

@ Com um mandado de prisão contra a irmã de Fernandinho ainda em aberto e com a irmã de Aécio Neves presa, podemos dizer que os bandidos-bandidos estão vencendo os bandidos-políticos?

@ Legal esta condição da web, de fazer da informação um produto sem fronteiras. De Jundiaí, na Grande Campinas, SP, o meu conterrâneo de Várzea do Poço, Emiliano Alves, é um assíduo leitor de Aparte.

@ Leitor e chinfreiro. Anárquico desde a primeira infância, uma espécie de Zé Simão ambulante, esta semana, depois de analisar conteúdos de Aparte, Emiliano me saiu com esta:

@ “Eu só não gosto quando você fala coisas ruins do Lula, quando deveria agradecer, principalmente por hoje o São Francisco passar em Sergipe”.