Mandato de Edvaldo pode despencar do alto da Torre

Por Jozailto Lima
20 abr 2017, 23h27

Péssima, sob todos os ângulos, é a situação do prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira, PCdoB, nesse momento inicial do seu Governo.

Comprometedores são os indicativos de negócios estranhos envolvendo a Torre e a gestão de Aracaju em contratação de serviço sob dispensa de licitação e, posteriormente, os esforços do prefeito para atropelar uma CPI do Lixo na Câmara Municipal.

Reprovável é o descortinamento, vindo dos resultados da Operação Babel, de que a eleição municipal de Aracaju do ano passado foi mascarada pela força da grana da Torre.

Horrível, enfim, é a maneira como Edvaldo aparece na conclusão do inquérito do Deotap – Departamento de Repressão aos Crimes contra a Ordem Tributária e Administração Pública: um quase indiciado. Só não o fora, literalmente, por ter foro privilegiado.

Na próxima segunda-feira, o Deotap apresenta, com mais precisão de detalhes, o resultado do inquérito da Operação Babel, mas pelo que vazou ontem, já dá para perceber que Edvaldo e a sua gestão falam “nessa torre” uma linguagem marcada pelo comprometimento com coisas estranhas.

O relatório final do inquérito não faz rodeio e amarra o projeto eleitoral de Edvaldo Nogueira diretamente à cintura de José Antônio Torres Neto, dono da Torre, deixando subentendido que houve custeio via caixa 2 da candidatura dele num segundo turno.

Ao que diz o texto: “em razão de terem sido detectados pelo Coaf saques suspeitos de elevadas quantias, efetuados na boca do caixa, pelo senhor José Antônio Torres Neto, nas vésperas do segundo turno das eleições municipais 2016, aliado a contatos telefônicos mantidos com o então candidato a prefeito, Edvaldo Nogueira, atualmente detentor de foro por prerrogativa de função, igualmente contrário a CPI do Lixo na Câmara de Vereadores, apresenta-se a sugestão de remessa de cópia dos autos para aprofundamento da investigação pelos órgãos competentes”.

Esse apresenta-se a sugestão é um apelo direto ao Poder Judiciário para que a Procuradoria Regional Eleitoral, órgão do Tribunal Regional Eleitoral, jogue luz sobre os indícios de que o candidato Edvaldo e o empresário Zé Antônio, hoje preso, fizeram uma parceria escusa durante o pleito eleitoral.

Caixa 2 é crime tipificado na Lei Eleitoral, sobretudo nessa mais moderna, que afasta as empresas de quaisquer perspectivas de financiamento eleitoral. Mas os rastros deixados por Edvaldo e Zé Antônio apontam indícios de que eles atuaram para fazer da Torre, com esse nomezinho curto e $en$ual, uma espécie de Odebrecht local.

A linha da polícia, por fim esboçada no inquérito, e a de quem faz oposição a Edvaldo Nogueira na política, antevista na CPI do Lixo, é a de que as barganhas supostamente escusas entre o candidato a prefeito e Zé Antônio lá na eleição vieram estourar na boca do estômago do Governo.

De que modo? Com um contratozinho do lixo de R$ 43 milhões à queima roupa, sob dispensa de licitação, no dia 6 de março – mesmo que a Prefeitura de Aracaju tivesse um contrato em vigência com a Cavo para a mesma finalidade de varrer e coletar o lixo da Capital.

As duas empresas chegaram a atuar conjuntamente de 6 a 9 de março, até que a Justiça fez coercitivamente com que a gestão de Edvaldo suspendesse a parte da Torre. Nessa relação, há dados, inclusive com muitas gravações telefônicas, indicando que Edvaldo agiu com muita imprudência, pouco zelo republicano e que, por consequência, pode ver seu mandato despencar do alto da torre.

“DEMOCRACIA FRONTALMENTE ATINGIDA”
O vazamento do inquérito da Operação Babel causou um abalo na política da Capital. A partir dele, houve quem questionasse a legitimidade da eleição de Edvaldo Nogueira. O deputado federal Valadares Filho, PSB, que ficou em segundo lugar na disputa, manifestou-se com uma nota pública e com um vídeo. Em ambos, ele alertou que há indício de mácula do pleito. “O inquérito divulgado hoje pela Polícia Civil demonstra que a nossa democracia foi frontalmente atingida nas eleições municipais de 2016 em nossa capital. Já determinei aos nossos advogados que acompanhem esse caso de perto, por entendermos que a nossa democracia não pode ser atingida desta forma. A prática exercida pelo prefeito Edvaldo Nogueira para mudar o resultado da eleição tem que ser repudiada por todos nós. É lamentável que o governador Jackson Barreto, ao fazer as mudanças na SSP, tente inibir investigações como essas. Estaremos atentos e confiando na Justiça”, disse ele em vídeo.

Valadares Filho: democracia aviltada

PEDIDO DE NULIDADE DAS ELEIÇÕES
Num texto divulgado por sua assessoria, Valadares manteve o mesmo tom. “Em face da gravidade das denúncias, estamos analisando com os nossos advogados a possibilidade jurídica de ingressarmos com um pedido de nulidade das eleições junto ao Tribunal Regional Eleitora. Inclusive, o derrame de dinheiro para mudar o resultado das eleições nos bairros da periferia foi objeto de denúncia à Polícia Federal pelo presidente municipal do partido, Elber Batalha, com o apoio do senador Valadares e de membros da coordenação de minha campanha. Essa é a prática atrasada do PCdoB para financiar campanhas eleitorais”, disse ele.

LIMPAR A MÁCULA DA ELEIÇÃO
Os advogados Rogério Carvalho, Wesley Cardoso e Ana Maria Menezes, que dão assessoria jurídica ao PSB, consideraram a indicação pontuada no inquérito muito grave, e já estão em ação. Eles passaram o dia ontem discutindo o dado novo e esperam somente ter acesso nesta segunda-feira ao todo do documento para traçar uma linha de ação definitiva. Segundo Rogério Carvalho, o que o PSB pensa, em primeira instância, é em trabalhar para limpar a mácula que a eleição do ano passado supostamente possa ter sofrido.

ANULAÇÃO DA ELEIÇÃO DE EDVALDO
“Há um sentimento de que a população não quer ser passada para trás. O que se espera é que o inquérito, naquilo que ele sugere, seja acolhido pela Procuradoria Regional Eleitoral, e se possa passar a limpo a eleição”, diz Rogério Carvalho. Segundo ele, se a justiça acolher o inquérito e apurar que houve o que está sendo apontado pela polícia, pode haver a anulação da eleição de Edvaldo, suspensão dos direitos políticos dele por oito anos e a convocação de uma nova eleição em 90 dias. Enquanto isso, assumiria o vereador Nitinho, que também aparece com imagem ruim no inquérito.

EDVALDO TENTA POLITIZAR TUDO
O prefeito Edvaldo Nogueira passou o dia calado diante dos fatos contra ele e somente no final da tarde a Secom divulgou uma nota de quatro parágrafos na qual o gestor aparece deixando de lado o centro das denúncias e politizando mais do que os seus oponentes. “O prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira, consciente da lisura dos seus atos, vem expressar sua tranquilidade diante da referência ao seu nome, divulgada hoje no inquérito que apura o contrato da coleta do lixo na capital”, dizia o primeiro parágrafo.

EDVALDO TENTA POLITIZAR TUDO II
E dizia mais a nota, em nome do prefeito: “Lamenta profundamente a conotação que parte da mídia está dando ao episódio, tentando associá-lo a supostas irregularidades, quando o próprio texto do inquérito apenas especula sobre seu nome, sem qualquer base material que o ligue a condutas ilegais. O prefeito também lamenta que o episódio esteja sendo objeto de exploração política por aqueles que até hoje estão inconformados com o resultado das eleições de 2016 e contrariados com as soluções que a atual gestão vem implementado para reconstruir a qualidade de vida na cidade. O prefeito reafirma o caráter ético e transparente que presidiu sua conduta durante toda sua vida pública, ao tempo em que apoia o papel das instituições encarregadas de fiscalizar o exercício dos poderes públicos”.

A FARRA DOS GRAMPEADOS
Já começaram a vazar as transcrições das conversas telefônicas entre José Antônio Torres Neto, dono da Torre Empreendimentos, e o staf do prefeito Edvaldo Nogueira, PCdoB, sobre os negócios financeiros envolvendo o grupo político e o econômico. Há quem já tenha ouvido alguns trechos e aparecem coisas de abalar até aos menos pudicos. Muito disso vem da fala de Mendonça Prado e de um jornalista do entorno de Edvaldo. Esse se esmera em orientar Zé Antônio em discursos, no que dizer e não dizer, em mirabolantes combinações. A suspeita é de que vazaram para o interior da campanha de Edvaldo Nogueira, às vésperas do segundo turno, algo em torno de 20 milhões da Torre, devidamente no Caixa 2.

DANIELE GARCIA AVISA QUE FICA
Os boatos circulados ontem informando a queda da Danielle Garcia, do Deotap – Departamento de Repressão aos Crimes contra a Ordem Tributária e Administração Pública -, não passaram mesmo de boatos. “A princípio, continuo na Deotap. Inclusive estarei na coletiva da segunda”, disse Danielle ontem a esta coluna. A coletiva da segunda vai acontecer às 8horas do dia 24, Sala de Imprensa Radialista Júlio César, na sede da SSP. Ao lado dos delegados Gabriel Nogueira, que inclusive preside o inquérito, e Nádia Flausino, Danielle apresentará mais detalhadamente os resultados da Operação Babel, que investigou os indícios de crimes envolvendo a coleta de lixo em Aracaju, a Torre e a Prefeitura da Cidade.

Danielle Garcia: bom trabalho e resistência

FORAM DENUNCIADAS  14 PESSOAS
A conclusão do inquérito, aliás, já vazou ontem ao sair do domínio do SSP para o Judiciário. Nele, foram denunciadas 14 pessoas, incluindo Mendonça Prado, presidente da Emsurb, que está afastado judicialmente; Alexsandro dos Santos, dirigente do Sindilimp; José Antônio Torres Neto, o proprietário da Torre; José Carlos Dias da Silva, um conhecido gerente de contratos da Torre; José da Silva Araújo Silva, gerente geral da Torre; José Reinaldo de Souza, diretor de Limpeza da Emsurb; José Roberto Gomes do Carmo, gerente Operacional da Emsurb, mas licenciado; Júlio César Flores, ex-presidente da Emsurb; Lucimara Dantas Passos, ex-vereadora e ex-presidente da Emsurb; Márcia Zylberman, assessora de planejamento da Emsurb, também afastada; Rayvanderson Fernandes dos Santos – Montanha -, presidente do Sindilimp; Rosenice Figueiredo Machado, procuradora chefe da Emsurb, também afastada; Soraya Machado Torre, sócia proprietária da Torre, e Sylvia Emília Cardoso Barreto, presidente da Comissão de Licitação da Emsurb.

Mendonça Prado: dias tensos

GILTON E OS DESCAMINHOS DE GERANA
O advogado Gilton Freire, de Riachão do Dantas, aponta que a prefeita Gerana Costa está fazendo uma gestão confusa. “Há muitas cobranças da população por saúde de qualidade prometida. Ela não mudou absolutamente nada em alguns aspectos. O atendimento até piorou. Mas o absurdo mesmo foi que, após decretar Estado de Emergência, a prefeita enviou projeto para Câmara de Vereadores que aprovou a contratação de mais de 400 funcionários e criou mais de 60 cargos em comissão, inclusive o cargo de secretário adjunto, jamais existente na estrutura administrativa do município e desnecessário. Sem contar que a lei aprovada prevê remuneração de mais de R$ 6 mil para secretários que poderão receber, ainda a critério da vontade da prefeita, mais de 100% de gratificação”, diz Gilton.

ETC @ TAL
@ Através da Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Eventos, a Prefeitura de Japaratuba abriu, ontem, dia 20, inscrições para o XXI Festival de Poesia Falada Poeta Garcia Rosa – Prêmio Éricles da Silva Santos.

@ Além de troféus, há quase R$ 7 mil em premiação para os primeiros colocados, cabendo ao poeta cujo poema ficar em primeiro lugar o prêmio de R$ 2 mil. Lara Moura fazia sérias restrições ao fato deste festival ter sido suspenso pela gestão anterior.

@ Os produtores culturais de Japaratuba encaram a iniciativa como mais uma ação positiva da gestão da prefeita Lara Moura, PSC, para valorizar a cultura de Japaratuba. O festival acontece no dia 8 de junho, às 19h30, no Barracão Cultural.

@ Poderão participar todos os poetas residentes em Sergipe com até três poemas que não tenham sido publicados em sites e redes sociais. O tema é livre. As inscrições podem ser feitas até o dia 22 de maio, na Secretaria de Cultura, Turismo e Eventos (Avenida Otávio Acioli Sobral) das 8h às 16h ou pelo email seculte@japaratuba.se.gov.br.

@ O radialista George Magalhães marcou um tento profissional com entrevista do ex-presidente ontem na Fan FM. Lula aproveitou para dizer que somente ele entende as carências do pobres.

@ Ontem, no Antagon!sta: “Marcelo Odebrecht era “um guerrilheiro das causas da empresa”. Foi o que disse Antonio Palocci a Sérgio Moro”.

@ Num dos telefonemas dados a Zé Antônio, Mendonça Prado aparece pedindo processo da Torre contra o vereador Elber Batalha.