“O perigo de JB seduzir André é zero. Não cai no canto da sereia”

Por Jozailto Lima
14 mar 2017, 00h01

O governador Jackson Barreto tem adotado um comportamento de medusa: atrai, hipnotiza e transforma em pedra seus oponentes. No entorno do deputado federal André Moura, PSC, há um certo medo de que ele seja enredado nesta tradição jotabêana.

Os dois estão há um pouco mais de 24 horas de ter um grande encontro de ordem administrativa que pretende atender aos interesses gerais de Sergipe, bem acima dos eleitorais. O governador viaja hoje a Brasília com a exclusividade ser recebido amanhã por André, enquanto líder do Governo Temer no Congresso, para que ambos tentem avançar na discussão da realização do Canal de Xingó.

Antônio Carlos Valadares, PSB, que neste momento encarna o mais duro opositor de Jackson Barreto, prefere ver André Moura agindo livremente e fora de qualquer alcance de sedução política do governador. “O perigo de sedução, numa escala de zero a dez, é zero. André é um homem cordial e não poderia deixar de atender a um pedido de audiência que partiu do próprio governador. André é muito perspicaz, bom articulador político e não se deixa atrair fácil pelo canto da sereia”, diz Valadares. Veja a entrevista que o senador do PSB concedeu ao JLPolítica.

JLPolítica – O senhor acha que André Moura corre risco ser politicamente seduzido pelo governador Jackson Barreto nesta conversa sobre Canal de Xingó?
Antônio Carlos Valadares – O perigo de sedução, numa escala de zero a dez, é zero. André é um homem cordial e não poderia deixar de atender a um pedido de audiência que partiu do próprio governador. André é muito perspicaz, inteligente e bom articulador político e, a meu ver, não se deixa atrair fácil pelo canto da sereia. Além disso, sabe se posicionar politicamente e atua sempre em consonância com o seu agrupamento político de oposição, onde é ouvido e respeitado.

JLPolítica – É ruim para a oposição que a conversa se dê apenas entre eles dois e não no conjunto dos oposicionistas?
ACV – Se o governador, que é dono de sua vontade, preferiu assim, uma reunião com o líder André Moura, nada a obstar. Eu, por exemplo, acho que não é ruim para ninguém. Claro que se JB quiser em outra oportunidade uma reunião com pauta definida e mais completa, com a participação de toda a bancada, não me negarei a comparecer. Esse encontro com o líder André Moura é o demonstrativo de que o adversário não pode ser tratado como inimigo, uma vez que, o povo, que é o destinatário de nossa ação, espera que as nossas diferenças sejam colocadas à parte na hora de a gente se sentar pra conversar sobre coisas sérias. Assuntos que digam respeito a projetos e obras estruturantes para esta e para as futuras gerações, só podem ter consequência quando tratados num ambiente onde haja sintonia de propósitos, mesmo que em meio a divergência político-partidária respeitosa.

JL – O senhor acredita numa mudança de foco do governador Jackson Barreto na interlocução com os oponentes?
ACV – Na verdade, JB está vivendo um momento de baixo astral na política. Precisa mudar o foco de sua inaptidão para governar e para criar projetos novos. Mas é bom que ele queira aparecer ao lado do líder do governo, tirar a foto, nesta fase de aflição porque passa quase todo o território sergipano em razão da seca, especialmente no Sertão e no Agreste. Um governador, seja aqui ou na China, tem que mostrar que exerce o cargo que é visto como o mais alto magistrado do Estado e não se apresentar como um simples chefe político, guardião apenas do poder e dos que, movidos por interesses, gravitam em torno dele.

JLPolítica – Mas o governador do Estado não faz a parte dele, indo além um simples chefe político?
ACV – Neste período tão triste, em que o nosso povo se debate com uma estiagem sem precedentes, a mais cruenta dos últimos 100 anos, devo registrar que o governo teve uma atuação apática. Há muito que a pesquisa do clima já apontava para uma monumental crise hídrica. O governo JB preferiu a política miúda. A briga sem tréguas. Não se preveniu para se mostrar à altura do cargo, e não teve tempo para ao menos pensar em abastecer com economia de recursos um fundo especial de combate à seca. Ao invés disso, prefere transferir para o governo da União essa responsabilidade. Enquanto isso, por puro capricho ou vaidade, se nega a comparecer à sede da Superintendência da Codevasf em Sergipe a convite do ministro da Integração, Helder Barbalho, de seu próprio partido, só porque o superintendente é do partido do senador Eduardo Amorim, seu adversário. Esse encontro seria para debater o tema da convivência com o fenômeno da seca com o governador, prefeitos e parlamentares, e sobre transferência de recursos federais. Perdeu uma grande oportunidade de reduzir a tensão política e conseguir mais recursos para o Estado atender aos municípios.

JLPolítica – Mas ele não tem soluções?
ACV – No início de seu governo, sabedor das dificuldades que iria enfrentar, e se não tivesse partido para o confronto direto contra parlamentares federais, como agiu contra mim, contra André e Eduardo, com certeza, a crise que ele próprio gerou no Estado, poderia ter sido amenizada com a união de todos, inclusive para, em ambiente de respeito e compreensão, pudéssemos até sugerir melhores saídas para o Estado.

JLPolítica – Mas os senhores não açodam as questões, trazendo eleições para o centro do debate na hora errada?
ACV – Sobre política, sucessão e candidaturas teremos muito tempo pela frente, e não há necessidade de se fazer isso com radicalismo e com falta de respeito. Cada um que faça o seu trabalho, no governo e na oposição. O povo está aí acompanhando. Neste momento, acirrar os ânimos não faz o meu gênero. Porém, fazer oposição é dever de quem não está no poder e quer uma mudança de rumos. Quanto a isso, não pretendemos recuar nenhum milímetro. Mas é bom distensionar um pouco. Quero focar o meu trabalho no Senado. Os embates na terrinha me tomam muito tempo. Outra coisa que aproveito pra esclarecer: o Canal de Xingó, que teve o seu batismo oficial em agosto de 2013, quando o Ministério da Integração autorizou a licitação para o pré-projeto em reunião realizada pela CDR do Senado em Aracaju, não se pode comparar em termo de tempo com o Canal do Sertão de Alagoas, que teve seu início no ano de 1992, e ainda não terminou. Depois do pré-projeto, que já está em mãos da Codevasf, em breve será lançado o edital de licitação para o projeto básico do Canal de Xingó. Para tanto, o ministro Helder Barbalho da Integração já está transferindo R$ 11 milhões para a Codevasf, a qual já dispõe de R$ 4 milhões em seu orçamento para completar o que falta para a realização do certame licitatório. De posse do projeto básico, o Governo Federal poderá autorizar as obras. Neste ponto, ainda este ano, a bancada federal tem que estar unida, e quanto a isso não tenho a menor dúvida, para em outubro apresentar a primeira emenda impositiva para começar a realizar o maior sonho do sertanejo. Por outro lado, emendas de comissões tanto na Câmara quanto no Senado, poderão fortalecer mais ainda o projeto do ponto de vista orçamentário e financeiro. Depois que iniciar o Canal de Xingó, a obra não para mais. Diretamente do Poder Executivo poderão ser colocados no próprio orçamento do Ministério da Integração recursos mais vultuosos, visando incrementar a execução do projeto cujo custo só vai ser definido no projeto básico. Avalia-se que na sua primeira etapa o Governo Federal arcará com investimento da ordem de R$ 2 bilhões.

ANDRÉ MOURA TAMBÉM NÃO TEME A MEDUSA
O deputado federal André Moura não comunga com o temor alguns aliados próximos que têm, de que Jackson Barreto possa lhe arrastar pro grupo político dele. Essa preocupação é sobre a reunião que os dois terão amanhã para tratar do Canal de Xingó. “Assim como recebo a todos os que me procuram no gabinete, seja em Aracaju ou Brasília, integrem meu grupo político ou não, receberei o governador Jackson Barreto para discutir questões do interesse de Sergipe, até porque é minha obrigação lutar pelo povo do meu Estado. No que puder colaborar para melhorar a vida da população sergipana, irei me mobilizar, sem dúvida”, diz André, meio que protocolar.

JB SENTIU O PESO DAS PESQUISAS
O senador Antônio Carlos Valadares encarou com cartesianismo matemático a suposta mudança de perfil de Jackson Barreto, que anunciou ter arquivado a disposição de vir pra cima dos opositores. “Na verdade, há um mês não falo mais disso nem em entrevista de rádio nem em local nenhum. Não vejo motivações para falar mais. Blábláblá não resolve”, disse JB em entrevista ao JLPolítica. “Ele sentiu o peso das pesquisas. Suas brigas só fizeram reacender o espírito da oposição. Pode até dizer que se arrependeu, mas o estrago já foi feito na sua imagem”, disse Valadares.

BAGAÇADA EM TOBIAS BARRETO
O prefeito de Tobias Barreto, Diógenes Almeida, PMDB, não tem ainda um panorama real dos estragos herdados por ele agora em janeiro da gestão passada, mas diz que, pelo pouco que levantou até agora, “a situação é muito ruim”. Diógenes afirma que ainda nesta semana fecha todo o diagnóstico. “Mas, de antemão, posso afirmar que recebi um débito complicado de R$ 3,2 milhões para com a Sulgipe e mais R$ 6,8 de precatórios. Sei que a coisa é bem mais grave do que isso”, diz Diógenes. Dos precatórios, ele já fez um parcelamento de R$ 2,386 milhões.

PAIM, IVAN E A ESTRANHEZA DA DÍVIDA
O ex-deputado e ex-prefeito de Estância, Ivan Leite, achou pouco normal que na entrevista ao JLPolitica o senador gaúcho Paulo Paim, PT, tenha dado tanta ênfase à dívida, segundo o senador, de R$ 426 bilhões de grandes empresas nacionais junto à Previdência pública. “O que me chama a atenção é que efetivamente não são dívidas novas. São somatórios de mais de 10 anos ou 15 anos, e em todo esse período o senador Paim foi governo. Por que eles não cobraram? Certamente, se fossem dívidas inquestionáveis a cobrança já teria sido realizada”, pondera o ex-secretário de Indústria e Comércio de Sergipe. Ivan leite é defensor do Imposto Sobre Movimentação Financeira justamente por gerar maior transparência e objetividade na arrecadação, além de evitar a sonegação. Ivan realça que não o quer como mais um imposto. Mas, como um imposto que substitua todos os demais, simplificando a vida do contribuinte, e desonerando a mão de obra. “Por consequência, aumentando as atividades produtivas e estimulando a geração de empregos” diz ele, que é também empresário.

UMA NOTA DA SECOM DO ESTADO
O Governo do Estado informa que finaliza o calendário do funcionalismo público nesta terça-feira, dia 14, porque parte do ICMS utilizado para pagar a folha de aposentados e pensionistas só foi recolhida na sexta, dia 10, sendo repassado no sábado, dia 11. Com isso, o aporte da Secretaria da Fazenda só foi possível de ser realizado ontem, segunda-feira, 13, sendo transferido para as agências bancárias ao longo do dia, compensado à noite e disponibilizado somente hoje, terça-feira, dia 14. O repasse utilizado pelos cofres estaduais para cobrir o déficit da Previdência este mês foi de R$ 104 milhões. A gestão estadual informa que tem se esforçado para equilibrar as contas estaduais a fim de regularizar o calendário de servidores ativos e inativos, porém a administração tem um déficit da previdência em torno de R$ 1,3 bilhão por ano, o que corresponde a 25% da receita, e compromete o fechamento da folha salarial no final de cada mês. 

PESQUISA EM GLÓRIA
Pesquisa realizada pelo Instituto França de Pesquisas – IFP -, entre os dias 20 e 23 de fevereiro de 2017, entrevistou 300 eleitores do município de Nossa Senhora da Glória, no sertão do Estado. A margem de erro é 4% para mais ou para menos, em cenários espontâneos e estimulados para governador e senador.

PESQUISA EM GLÓRIA II
Na espontânea para o governador, o senador Eduardo Amorim desponta na dianteira, com 14,4%, seguido pelo senador Valadares com 9,4%. A lista segue com João Alves, com 5,9%, Valmir de Francisquinho, 4,7%, e Belivaldo Chagas, 4,1%. Nenhum/Branco/Nulo pontuaram 15,9% e Não sabe/Indeciso, 45,9%.

PESQUISA EM GLÓRIA III
Em um cenário induzido para governador, o senador Eduardo Amorim também lidera, agora com 26,2%. O senador Valadares teve 14,4%, João Alves, 8,4%, Valmir de Francisquinho, 6,4%, Belivaldo Chagas, 5,9%, e Ricardo Franco, 2,0%. João Augusto Gama não pontuou. Nenhum/Branco/Nulo atingiu 22,8% e Não sabe/Indeciso 13,9%.

PESQUISA EM GLÓRIA IV
Em um outro cenário, também para governador, assim fica: Eduardo Amorim, 33,2%. Valadares, 19,3%, Ricardo Franco 5,0% e João Augusto Gama, 2,0%. Nenhum/Branco/Nulo atingiram 29,2% e Não sabe/Indeciso 11,4%.

PARA O SENADO I
Na disputa para as duas vagas de senador, foram colocados dois cenários. No primeiro deles, Eduardo pontuou 30,7%. Valadares vem com 28,7%, Pastor Heleno, 23,8%, Jackson Barreto, 12,4%, Fábio Mitidieri, 6,9%, Laércio Oliveira, 5,4% e Fábio Henrique, 4,5%. Nenhum/Branco/Nulo, 19,8%. Não sabe/Indeciso, 10,4%

PARA O SENADO II
No outro cenário, Valadares aparece com 37,1%, Pastor Heleno, 27,2%, Jackson Barreto, 14,4%, Fábio Mitidieri, 10,4% e Laércio Oliveira, 5,4%. Nenhum/Branco/Nulo, 20,8%. Não sabe/Indeciso 11,9%.

ETC&TAL
@ Albano Franco acha que o filho Ricardo Franco não está muito animado com o processo sucessório do ano que vem. Ricardo não desmente o pai.

@ Jackson Barreto já deu sinais de que prefere o nome de Belivaldo Chagas candidato à sua própria sucessão em 2018. Mas intenciona segurar a mão para não antecipar o pleito.

@ “Eu não lancei o nome de ninguém. Quando me perguntam, eu digo que estou tratando dos problemas do Estado, e é isto mesmo que eu estou fazendo”, diz o governador.

@ Em perfeita sintonia com o marido Ivan Leite, a vice-prefeita de Estância, Adriana Leite, PRB, está costurando a possibilidade de disputar mandato de deputada estadual ano que vem.

@ Bem, o projeto dela tem toda uma infraestrutura e uma logística para dar certo. O marido, ex-prefeito de Estância por dois mandatos, já passou pela Alese também com outros dois mandatos. Ivan foi único prefeito em toda a história da velha Estância iconoclasta a ter sido reeleito.

@ O prefeito de quem Adriana é vice – Gilson Andrade -, era deputado estadual até o ano passado e deixou a Alese pela Prefeitura – antes, fora vice de Ivan. É como se “uma vaga estanciana” estivesse aberta no Legislativo Estadual. E é essa que Adriana quer ocupar.

@ Crítico e sarcástico, o ex-deputado federal José Carlos Machado ouve falar em R$ 600 milhões como valor da Deso e não perde a piada:

@ “Por este preço, é óbvio deduzir que estão avaliando apenas a parte que fica acima do chão. Estão deixando de fora a parte enterrada”, diz ele.

@ Pela natureza da Deso, o maior quantitativo das obras da Companhia está exatamente sob o solo. Suas adutoras, por exemplo. Ultimamente, o Governo investiu cerca de R$ 1 bilhão. De fato, falar em R$ milhões soa estranho.