Aparte
OPINIÃO - Wellington Mangueira: um humanista na alma e na raça
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[*] Milton Junior

“Continência a um comunista”. Impiedosamente contestado aos olhos dos radicais de direita, ao mesmo tempo intrigante aos camaradas com idealismo marxista, o título desta obra literária desperta o interesse coletivo para o consumo histórico protagonizado em torno da história de vida traçada por um líder esquerdista envolvido até o topo com o Partido Comunista Brasileiro - PCB -, justamente durante os 21 anos de governo militar, entre 1964 e 1985. 

A ser lançada no próximo dia 12 de dezembro, no salão nobre do Cotinguiba Esporte Clube, em Aracaju, a biografia de Wellington Dantas Mangueira Marques desmistifica a “fórmula progressista” que transformou o cidadão antes torturado em um nobre gestor público no início dos anos 1990.

Menos de 10 anos após o fim do golpe militar, o aracajuano nascido em 21 de agosto de 1945 deixou de ocupar os porões das cadeias insalubres, de sofrer os mais variados tipos de tortura, para, diante de multidões, receber continência ofertadas por oficiais das mais variadas patentes, guarnições e instituições de segurança pública.

A publicação deste livro se faz possível devido a uma forte ação de insistência junto ao biografado. Apesar de pronto - modéstia à parte, com capa muito bem elaborada pelo camarada Marcélio Couto e um texto que interliga o passado e o futuro em uma suave leitura repleta de imagens inéditas e ilustrações criadas pela mente brilhante do nobre comunicador Edidelson Silva -, é preciso destacar que foram, ao menos, um ano e meio insistindo para Wellington Mangueira conceder a liberação para a produção do livro.

Sempre defendendo a tese de que “apenas pessoas falecidas, ou prestes a morrer possuem biografia”, o advogado, professor de história, comunicador e defensor dos direitos humanos, lutou, resistiu, mas foi vencido pela insistência deste jornalista, que, assim como centenas de sergipanos, é apaixonado pela história de vida do ilustre torcedor do Cotinguiba Esporte Clube.

Conquistada a permissão, antes mesmo que Wellington por ventura pensasse em desfazer a liberação, foi necessário agilizar a criação de roteiro, iniciar o processo de entrevistas, decupar por longas madrugadas estes áudios e começar a escrever.

Sempre à base de boas doses de café expresso, puro e com pouco açúcar, a produção textual prevalecia ao ponto de os bons e tradicionais churrascos semanais com os amigos paralelamente terem sido transformados em atividade secundária, ou, em alguns sucessivos casos, sempre fomos - eu e minha esposa -, os últimos a bater o ponto.

Falar de Wellington é prazeroso. Mas requer explorar a respectiva mente para não deixar de elencá-lo às correntes familiares e sociais que o cercam desde o momento em que seus primeiros choros ecoaram pela tradicional Avenida Augusto Maynard. A história do biografado se confunde nos mínimos detalhes com os de sua namorada e esposa desde o tempo do Atheneu Sergipense, Laura Marques.

Assim como Laurinha, é impossível citar o nome de Wellington e não envolver o Cotinguiba, o Partido Comunista Brasileiro, o Atheneu, o regime militar, o carnaval, a antiga União Soviética, os órgãos públicos em que administrou e a consciência humanista dele. Com um quociente de inteligência elevado, o homenageado passa a aparência de possuir um amplo HD interno que o faz recordar com detalhes inúmeras passagens da vida dividida com a esposa, e/ou com os nobres companheiros do velho PCB.

Justamente em virtude desse representativo conteúdo histórico, no decorrer da produção textual percebi a necessidade de esquecer um pouco os depoimentos dos companheiros, e focar apenas nas histórias narradas por ele. Ao consumir o livro, o leitor se deparará apenas com citações de Helena Marques (sogra de Wellington) e do camarada João Augusto Gama. Incluir o depoimento dos camaradas quebraria o fluxo da leitura. Essa não era, e nunca foi a intenção desde o primeiro dia de escrita.

Os depoimentos dos amigos e admiradores ficou reservado em um capítulo à parte. O desafio sempre foi buscar a melhor forma de deixar o livro atraente aos olhos de leitores com idades acima de 14 anos. Isso sempre me martelou a consciência, em virtude de atualmente o público mais jovem, por exemplo, ser considerado pelo Ministério da Educação como o grupo de brasileiros que menos se interessa por história e literatura. Segundo o próprio MEC, uma pesquisa nacional mostra que os jovens não percebem utilidade no conteúdo das aulas. As disciplinas de língua portuguesa e matemática são consideradas as mais úteis por, respectivamente, 78,8% e 77,6% dos alunos.

Lamentavelmente, o Brasil já percebe o reflexo do problema estrutural sobre conhecimento histórico da população. Pensando justamente na perspectiva de seguir na contramão desses dados nacionais, a inclusão de charge e depoimentos que estão direta ou indiretamente presentes no dia-a-dia das pessoas permite que os leitores se vejam ao menos em algum momento vivenciado por Wellington.

Entre esses casos, a biografia apresenta desde o consumo de bebidas alcoólicas durante a infância, como passeios de barco no Rio Sergipe, bastidores da família, futebol, cultura, jogos de cartas, café, história das ruas de Aracaju, e defesa da comunidade LGBT. Este não é um livro para ser depositado em prateleiras de biblioteca. Por possuir um perfil minuciosamente democrática, ele é, e recomendo que seja, utilizado dentro das salas de aula como forma de multiplicação de um conteúdo educacional.

Escrever sobre o legado de Wellington Mangueira foi uma honra, e mais feliz ficarei ao perceber que esse conteúdo será consumido por pessoas residentes nos quatro cantos da nossa nação. As 315 páginas foram desenvolvidas com o máximo de afeto por cada conteúdo que me foi compartilhado. Deguste esta obra literária sem moderação.

[*] É jornalista e escritor.