Aparte
OPINIÃO - A hora do pesadelo: à sombra dos milicos - parte II
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[*] Aline Magna Cardoso Barroso Lima

O protagonismo do vice-presidente do Brasil não data da posse do novo governo. Vem desde o pleito eleitoral. Durante a campanha, não foram poucas as vezes em que Jair Bolsonaro e sua equipe se irritaram com as declarações do vice, tendo chegado a lhe pedir, às vésperas do segundo turno que, caso encontrasse a imprensa, não falasse nenhuma “bobagem”, conforme o próprio Mourão afirmou aos repórteres que o esperavam no desembarque em Brasília na manhã do dia 28 de outubro de 2018. Não sem emendar, sorridente e simpático, que não se arrependia de nada pelo simples fato de ser sincero. Polêmico, para dizer o mínimo.

O general de pijamas Mourão fez sempre questão de deixar claro que não seria um vice de bastidor. Não ficaria atrás das cortinas. Chamado para substituir o titular, aos cinco minutos do primeiro tempo, não economizou em fofura com a imprensa tão hostilizada pelo clã dos Bolsonaros. Simpático, ele morde e assopra.

Sem cerimônia, conversando à vontade, deixa claro que “às vezes o presidente tem uma retórica que não combina com a realidade” e vai distribuindo opinião: apresentou o decreto das armas sem muito entusiasmo, dizendo que ele não serviria para reduzir a violência, se colocou contra as hostilidades à China e contra a mudança da embaixada de Israel para Jerusalém, ratificou o Mercosul, disse que a liberação de Lula para o velório do irmão era “uma ato humanitário” e chegou a fazer coro com as feministas na questão do aborto. Por aí vai. Um acinte!

As manifestações dissonantes do vice-presidente geram desconfiança e animosidade no núcleo bolsonarista. Suas gotas de otimismo diárias surpreendem, por não serem chocantes como as estultices dos integrantes da atual corte nacional. E tem encontrado grande receptividade, quando grande parte da população já percebeu que os palanques eleitorais foram desmontados e deram lugar a uma tragicomédia que encena um vexame atrás do outro, ridicularizados pelo mundo inteiro, com o Exército Nacional à reboque de um governo povoado de declarações absurdas que vão dos que negam a teoria evolucionista de Darwin até aos que afirmam que os índios não foram os primeiros habitantes do Brasil. Nesse nível.

A sombra do vice paira sobre o presidente, como num passado recente da história. Assusta de tal forma que fez o titular reassumir a Presidência ainda se recuperando de uma cirurgia complexa de nove longas horas. Despachou no hospital, tirou fotos e tuitou. Queria demarcar território e acabou agravando seu estado de saúde de tal forma que levou a deputada Joyce Hasselmann, PSL-SP a perguntar no plenário do Congresso, um dia desses, “quem matou Bolsonaro?”. 

O ato falho da deputada expressa o tamanho do medo do grupo governista com relação aos militares que eles mesmos trouxeram de volta à cena. O que pensavam ser a garantia da governabilidade de um governo de neófitos, tornou-se o seu pior pesadelo. O pesadelo é falastrão, coleciona frases intrigantes e pretende se mostrar como mais equilibrado que o capitão presidente. Mas é, ainda assim, uma contradição-em-termos.

O “simpático” general, que contesta sutilmente todas as posições polêmicas do governo e opera no Palácio do Planalto como ouvidor dos insatisfeitos, é o mesmo que considera o décimo terceiro uma mala nas costas do empregador, que expressa preconceito contra negros e índios e que não tem pudores em justificar a ascensão meteórica do filho no funcionalismo público com um lacônico argumento de mérito e um autoritário “assunto encerrado”. Desse ângulo, não parece tão melhor que o titular. Mas, dadas as circunstâncias, já há quem considere como possível titular do governo no caso de uma crise incontornável.

Mourão surgiu da estratégia de Eduardo Bolsonaro de escolher um vice que não representasse uma alternativa plausível a justificar uma corrida atrás do impeachment. Mas isso não parece fazer muito sentido agora. O rei está nu. Curiosamente, o general saudoso da ditadura nacional se apresenta como mais sensato, diplomático e com bons modos do que o titular diante das sucessivas crises do Governo Bolsonaro desde a posse.

O medo que um general poderia inspirar num país que sofreu 21 anos de uma ditadura com direito a mortes, sequestros, torturas e todo tipo de violação de direitos fundamentais empurrados para debaixo do tapete, se esvaneceu, nos colocando à sombra dos militares, caso seja apertado o botão de pânico. Os velhos militares, para muitos, não parecem mais uma opção tão ruim, por mais paradoxal que isto pareça, num momento histórico em que a luta é por manter direitos tão duramente conquistados na nossa jovem democracia. E ainda tão incipientes.

Considerar um governo militar e temê-lo ao mesmo tempo, me faz lembrar um drama vivido há alguns dias atrás por uma jovem senhora bolsonarista ferrenha, que tinha saudades do tempo da ditadura, defendia o direito ao porte de arma e era adepta da campanha “bandido bom, é bandido morto”. Num pequeno incidente de trânsito, sem vítima e sem danos, passou por um susto enorme: o militar que dirigia a motocicleta com a qual quase se chocou, desceu do veículo com a arma na cintura e fora de si anotou a placa do carro, xingou, intimidou e ameaçou-a de todas as formas. Um show para todos os presentes.

Dias depois, ainda assustada, ela me perguntava o que ela poderia fazer para se proteger. “Vai saber o que esse povo armado sem juízo pode fazer, né?”, disse-me, deixando claro o medo que sentiu do militar, embora tivesse desejado tanto que eles voltassem a governar o Brasil numa nova e restauradora ditadura - sem direitos e com poderes ilimitados, em nome da ordem e do progresso. O mesmo sentimento que a sombra do vice inspira. E o pesadelo está só começando. Que Deus nos ajude, ao invés de estar somente acima de nós.

[*] É advogada e socióloga.