Aparte
OPINIÃO - Riachão do Dantas, um berço de cultura bem além de um bode
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[*] Gilton Freire
 
Riachão do Dantas, aqui no Estado de Sergipe, é um município da região Centro Sul que tem um povo trabalhador, com uma vocação para a agropecuária, produzindo laranja, abacaxi, maracujá, fumo, mandioca, milho e diversas outras culturas tanto de subsistência quanto para a comercialização. 
 
Este município é um dos que se destacam na tradição de criação de bovinos, tendo como destaque a pecuária de leite e corte, assim como de equinos e animais de pequeno porte. 
 
Riachão do Dantas chegou a ocupar posição de destaque no aprimoramento da raça bovina Indubrasil, levando esses animais a exposições em Sergipe e no Brasil e exportando para o mundo essa raça. 
 
Em virtude da cultura de criações de pequeno porte, existem muitos criadores de ovelhas e caprinos no município, e é aí que surge um animal apelidado de Bode Bito, pertencente à propriedade do senhor Joel Araújo, produtor que tem sua terra praticamente dentro da cidade.
 
Esse animal, o caprino Bito, passou a circular pelas ruas de Riachão sem ser incomodado. Ele praticava, por seu instinto, algo diferenciado, como acompanhamento de sepultamentos, visitação a padarias e ao comércio em virtude de as pessoas darem-lhe algo para comer.
 
Consideremos isso tudo muito normal. No entanto, membros da população informaram as emissoras de televisão em nível nacional esse comportamento do animal e elas fizeram algumas matérias, o que tornou Bito bastante conhecido e por consequência a nossa cidade bastante noticiada. 
 
Aproveitando a força da mídia, em especial a nacional, com destaque para a Rede Globo, o gestor municipal da época, Laelson Menezes, sem qualquer consulta à população e ao Poder Legislativo, mandou fazer uma estátua, uma peça de arte, do Bode Bito, e colocou na entrada da cidade em uma homenagem ao animal e uma intenção de marcar um gol de placa em matéria de marketing para a sua própria gestão.
 
Mas Laelson Menezes esqueceu que o município de Riachão do Dantas tem grandes personalidades no campo literário, a exemplo dos escritores Lourival Fontes, Arivaldo Fontes, Francisco Dantas, premiado internacionalmente por suas obras, e muitos outros não menos importantes que contribuíram e contribuem para o desenvolvimento intelectual do município, do Estado e da nação.
 
Em virtude disso, a Câmara de Vereadores aprovou por nossa iniciativa o Dia Municipal do Escritor Riachãoense, com datas e períodos para realizações de seminários e palestras com a participação desses autores e filhos da terra.
 
Em total desprezo à lei, o então gestor que colocou um bode como símbolo para a cidade dos escritores jamais respeitou a decisão da Câmara, e durante toda a gestão dele jamais comemorou o Dia dos Escritores Riachãoenses, deixando claro que não o fez em virtude desses seminários não terem a repercussão da mídia nacional antecipada como teve as intuitivas peripécias do Bode Bito.
 
Na última semana, o gestor interino da cidade, vereador Pedro da Lagoa, em virtude das realizações da festa da padroeira, Nossa Senhora do Amparo, resolveu retirar a peça do Bode Bito e em lugar dela colocar a imagem da santa.
 
Sem qualquer dúvida, entendo que o Bode Bito não representa a grandeza do município e nem a do nosso povo para receber o destaque que tinha. Folclore à parte, não somos a cidade do Bode Bito. Somos a cidade de um povo trabalhador e intelectualmente merecedor de uma imagem positiva e racional. 
 
Ora, se não homenageamos os homens cultos, como nossos ícones, como homenagear um bode, seja ele o Bito ou de qualquer nome? Jamais. Ante as razões aqui expostas, sou totalmente a favor da retirada da estatuazinha do Bode Bito da entrada da cidade de Riachão do Dantas. Além do mais, mesmo entendendo ser o Estado laico, vejo como melhor representar a nossa cidade com a imagem da sua padroeira, a Nossa Senhora do Amparo. 
 
[*] É advogado.