Aparte
Opinião - Escrever é, de fato, correr riscos
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[*] Adalberto Vasconcelos Andrade

Como já disse o escritor mineiro Guimarães Rosa, “viver é perigoso”. Seguindo sua linha de raciocínio - depois de anos e anos lutando com as palavras -, cheguei à conclusão de que se viver é perigoso, escrever é correr riscos.

Mas quem escreve não pode ter medo e deve estar sempre aberto às críticas - construtivas ou não. Quando tentamos traduzir o que sentimos ou pensamos e lançamos nossos percepções para o mundo através da escrita, não apenas nos revelamos como invadimos o universo da alma de quem lê, com os seus princípios, conceitos e valores.

Claro que ler é inútil se não for por prazer. Quem busca através da leitura novos horizontes, sente o seu poder de transformação. Quando o poeta se esforça para construir - e traduzir - em versos seus sentimentos e emoções, não só torna público o que há de mais secreto em si como provoca diferentes reações no leitor.

Por isso, escrever é correr riscos. É servir de alvo a cada texto, palavra, frase ou verso. Seja na poesia, no romance, ou nos dramas e comédias da vida pública ou privada. Ou, mais especificamente no do jornalismo.

Enfim, em tudo que é dado por escrito. A partir do momento que determinada obra, artigo ou reportagem mexe com as emoções e faz o leitor reagir, é sinal de que o objetivo do autor foi alcançado. E isso nem sempre pode agradar.

Os riscos, nesses casos, variam de acordo com o tema e o conteúdo da mensagem. Um texto, quando bem elaborado, traduz as ideias e os sentimentos de quem escreve. Não necessariamente as de quem as rabisca.

Mas, como bem disse o saudoso jornalista e imortal da Academia Brasileira de Letras Josué Montello, “o importante para o verdadeiro escritor é levar sua mensagem a Garcia”. Sim, “dizer o que pensa. Emitir o seu juízo na hora própria” (Jornal do Brasil, 29.7.1980).

Nos anos de chumbo, escrever, compor, criar ou pensar era sinônimo de subversão. Logo, de risco. Quem se habilitou, precisou correr perigos pra fazer valer o seu direito de se expressar. Naqueles tempos não havia lugar para as cabeças pensantes e formadoras de opinião.

Eu ainda era menino, mas lembro perfeitamente do seco recado do “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Coisas do gênero ou dos generais. Mas o que me chama a atenção é que o regime militar que durou 21 anos - 1964 a 1985 - muito faz hoje parte da história por causa dessas arbitrariedades. Mas, agora, tem muita gente querendo intimidar ou censurar a atuação dos jornalistas como se estivéssemos parado no tempo. 

Hoje os tempos são outros, mas a liberdade de expressão e pensamento parece que continua incomodando muita gente. Até quem já foi vítima da repressão. Não podemos esquecer que durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva ele andou ensaiando a volta da censura ao sugerir a criação do Conselho Federal de Jornalismo.

Por tudo isso, reforço a minha conclusão de que escrever é correr risco. Por extensão e por uma questão de justiça, acho que mais uma categoria profissional que deveria receber adicional de periculosidade é a dos jornalistas. Quer dizer: se ela existisse, porque fizeram-lhe recentemente o desfavor de desregulamentá-la enquanto profissão. É preciso afirmar aqui que isso ninguém merece?

[*] Administrador de Empresas, policial rodoviário federal aposentado, escritor e colaborador exclusivo do Portal JLPolítica.