Aparte
Não façam da UFS um projeto de “tese depois da tesão”, ou “o vício secreto dos velhos”
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Valter Joviniano de Santana Filho: um cristão novo no sonho de eternidade de poder de Angelo Antoniolli

Rei morto, rei posto, conforme sacramenta a sabedoria popular. Até que demorou, mas a Universidade Federal de Sergipe já tem o substituto pró-tempore da ex-vice-reitora, a professora Iara campelo, recém-exonerada após pedido de aposentadoria desta instituição. Trata-se de Valter Joviniano de Santana Filho, do Departamento de Fisioterapia, um baiano e ex-diretor do Hospital de Lagarto.

Valter Joviniano de Santana Filho é homem de confiança do atual reitor Angelo Antoniolli desde as primeiras horas que adentrou à UFS e, conforme já anunciado por esta Coluna Aparte, poderá ser aquela figurinha de “centro” que o atual reitor tanto busca para abençoá-la e continuar um reinado de eleições reiteradas de vice-reitores naquela instituição, prática que já perdura por décadas, e na qual Angelo se pendura em 24 anos de mando e poder.

Não estaria no momento de se mudar essa prática quase monárquica? Com as eleições para renovar o mando no condado da UFS se aproximando, essa belezoca de instituição vive um intenso momento pré-eleitoral. Há reuniões externas, jantares, entrevistas, reuniões internas, confabulações - uma certa algaravia se instaurou no cotidiano das aulas e da burocracia. Isso é bom - boníssimo - para tirar essa senhora cinquentona das cinzas de um xaroposo hermetismo meio que templário.

No momento atual, a UFS conta com duas chapas de oposição à atual gestão. Uma é a formada pela professora Denise Albano Leal, do Departamento de Direito, tendo por pré-candidato a vice o médico José Aderval Aragão, do Departamento de Medicina e presidente da Somese - esse cara tem parte com o cão dentro e fora da UFS. É o pré-candidato a vice que todo pré-candidato a reitor gostaria de ter para chamar de seu. A direitona Denise Albano deve estar delirado de alegria pelo achado.

A outra chapa vai ser lançada nesta quinta, 5, num regabofe no Restaurante Casablanca. Trata-se das candidaturas formadas pelo professor André Maurício, ex-vice-reitor da primeira gestão Angelo Antoniolli - 2012-2016 - e Charles dos Santos Estevam, do Departamento de Farmácia. O trem deles hoje virá com direito a canapés, salgadinhos, doces finos e vinhos do Vale do São Francisco, conforme manda o figurino da intelligentsia da esquerda sergipana - e uma dosezinha da misantropia do magricela André Maurício ejetado do paraíso do mando ufesiano por Angelo na virada de 2016 para 2017.

André Maurício foi trocado ali na segunda gestão de Antoniolli por Iara Campelo. Professor do Departamento de Física, esse rapaz é filho da respeitável professora Alexandrina Luz, uma sósia elegante da Marta Suplicy nas terras sergipanas, respeitada liderança sindical dos anos 80 e 90 e uma das precursoras do movimento sindical dos professores que tomou o Sintese, nos idos dos anos 90, na primeira gestão da professora Ana Lúcia Menezes.

Alexandrina é uma figura cortês no cotidiano que se transforma, por completo, quando entra na batalha política. Nos bastidores, é conhecida pela audácia em concorrer à vaga do notável professor Milton Santos, na USP, mesmo não tendo um único livro teórico publicado. Reprovada pela banca uspiana, voltou a Sergipe, aposentou-se, mas continuou como visitante na pós-graduação da Geografia da UFS, onde reina impávida e absoluta, cortando cabeças de quem contrariar suas análises marxistas, bebidas nos manuais de autores de sua predileção pessoal.

No Café da Adufs, o magricela alexandrino é chamado de André Ciro Gomes, numa referência ao pendor pelos adjetivos duros desferidos pelo político cearense de juízo apoquentado. Em reportagem publicada pelo Jornal O Dia em 23 de novembro, André Maurício estreou seu estilo Ciro Gomes contra o atual reitor, chamando-o de maniqueísta. A crítica ao ex-companheiro de gestão se dá porque Angelo afirmou aqui neste espaço ambicionar construir uma candidatura de “centro”. Portanto, nem à esquerda e ou à direita.

“Somos uma universidade. A universidade como princípio de sua existência deve ser guardiã de todas as ideias, de todos os pensamentos e do pleno debate”, afirmou André, se apresentando como moderado de última hora e pregando um choque de gestão na UFS, sem dizer exatamente o que peste venha a ser isso.

André Maurício faz críticas ferozes ao querer do Antoniolli em indicar o candidato da gestão. Mas já foi beneficiário dessa mesma prática, em 2012, quando foi catapultado ao cargo de vice-reitor, em chapa única, pelo reitor da época, Josué Modesto dos Passos Subrinho que, agora, garante: ficará de fora do processo sucessório do amigo (?) Angelo. “Aquilo não me pertence mais”, diz ele a esta Coluna - no que parece pouco confiável, em face do bicho político que habita nele como um dos homens mais preparados de Sergipe.

Sim, voltemos aqui: e pelo que consta, Andrezito e Angelito beberam e comeram juntos numa mesma e boa mesa durante quatro anos de gestão. Foram irmanados nas práticas administrativas e políticas. Sim, quase carne e unha. André conduziu diversas reuniões como um magnífico em exercício da UFS. Até que um dia se apartaram, arrearam a canga comum da cordialidade com rancores balzaquianos. Coisas do poder - que devem estar se agravando, posto que ambos estão amadurecendo e talvez queiram fazer jus ao bom e doido Paulo Leminski, para quem “O poder é o vício secreto dos velhos. Depois da potência, o poder. Depois do tesão, a tese” - ah, que bela aliteração essa da tesão e tese.

Delírios à parte, voltemos às outras chapas que estariam em construção pelo mando da UFS. Comenta-se que os professores Gilson Rambelli, do Departamento de Arqueologia, David Soares Pinto, do de Matemática e Pedro Leite, do de Química, confabulam a construção de outras alternativas eleitorais para aquela aldeia. Professores experientes dizem que eles apenas esquentam o passe para testar Pró-Reitorias ou outros manjares de confianças de importância menor em gestões futuras.

É. Pode ser - e deixemos Leminski fora dessa. Não fosse a Denise bolsonarista, chamaria a atenção a ausência quase que total de lideranças femininas pleiteando o magnífico posto de reitor. Em suas cinco décadas de existência, a UFS nunca teve uma gestão feminina, fato que não a desabona por completo, mas também não deixa de ser sintomático. Isso não apontaria para uma universidade machista e misógina nas suas entranhas? Ou, como dizem os afetadinhos de plantão, afeita aos brancos e machos no poder?

As configurações atuais apontam para um completo ostracismo dos Departamentos das licenciaturas, humanidades e artes nesse processo eleitoral, com a ausência de lideranças acadêmicas e políticas candidatando-se, cujas áreas estão presentes nos campi de São Cristóvão, Laranjeiras e Itabaiana. A falta de candidaturas nesses espaços obriga os candidatos das diversas chapas a cortejarem o apoio dessas áreas órfãs com o máximo de tato. Afinal, nelas estão quase 40% dos professores, alunos e técnicos da UFS - oh senhores do preconceito, sabei-vos o quanto as licenciaturas são elementares.

Enquanto grupos e pessoas se somam para disputar espaços de poder na UFS, a instituição continua alheia a uma série de contribuições que devia dar ao povo sergipano, para além das eleições e das suas vaidosas rotinas acadêmicas onde doutores veem em mestres uns exemplares desprezíveis de Lázaros. Não um Pensar Sergipe para ocupação de espaços no Governo do Estado, como outrora ocorreu com Dedinha e uns vermelhinhos cujo partido saiu fora da calha da decência, mas a construção de um programa e de um projeto de atuação permanente que foque na educação, nas ciências, na saúde, na cultura e na produção econômica e novas tecnologias, com debate e oferta permanente de saberes e serviços para que Sergipe supere atrasos historicamente estabelecidos.

É pleonástico dizer que esse é o papel da universidade? Para isso, ela é sustentada com o dinheiro público. Este Portal, que não é alheio a nada de Sergipe, vai cobrar dos senhores candidatos - sem empáfia nem arrogância, no máxima uma impostaçãozinha leminiskiana aqui outra acolá. Bebam e comam seus canapés. Confabulem. Construam seus projetos - com tesão de velho ou de meia idade.

Bebam burguesamente seus vinhos. Façam seus discursos bonitinhos. Mas fiquem atentos ao momento histórico em que vivem Sergipe e o Brasil deixem de firulas blasés. A UFS é um patrimônio da sociedade sergipana e por isso vocês devem prestar contas do que fazem, como fazem, para quê e para quem fazem.