Aparte
OPINIÃO - Definitivamente, não existe ideologia de gênero!
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[*] Jossimário Mick

Um Projeto de Lei recém-aprovado pela Câmara Municipal de Estância e sancionado pelo prefeito da cidade, Gilson Andrade, cujo título “Proíbe na grade curricular das escolas do Município de Estância as atividades pedagógicas que visem a reprodução do conceito de ideologia de gênero” reflete o despreparo e o desconhecimento de nossos legisladores para tratar sobre o assunto. 

Primeiro, porque não existe a tal “ideologia de gênero” escrito nas linhas do projeto, o que reflete o amadorismo de quem a propôs (os conhecimentos “googleísticos” nem sempre são fontes confiáveis). Segundo, porque é uma afronta direta à Constituição Federal e à dignidade da pessoa humana. Mas o cômico dessa história é o fato de se propor lei que proíbe alguma coisa sobre algo que não existe: no mínimo paradoxal. Vamos entender o porquê!

Partimos do pressuposto de que ideologia é um sistema de ideias estereotipadas e simplistas que buscam agir em nossos pensamentos, diminuindo, portanto, a nossa capacidade de pensar com autonomia para instalar interesses de determinados “grupos” que estão no poder ou gostariam de estar. Ela é pronta, acabada, engessada, o que nos faz reduzir a capacidade crítica a respeito de determinado tema.

Ao contrário, gênero é algo complexo. Um conjunto de práticas; de modos de vida; de jeitos variados e diversos de ser homem e ser mulher. Formas de ser masculino e feminino numa sociedade e que requer uma análise e reflexão mais profunda e cuidadosa. É justamente essa diversidade que nos conduz a uma reflexão.

Você não deve entender que sua experiência de vida seja universal e que se as outras pessoas não são do mesmo jeito que você, elas estão agindo de modo contrário à natureza delas. Crianças educadas pelos mesmos pais, com as mesmas condições e oportunidades serão pessoas diferentes. Não existe, nem mesmo entre gêmeos univitelinos, indivíduo idêntico ao outro.

Há quase 15 anos como professor, lido com uma diversidade extraordinária de pessoas em sala de aula. Vivemos num país laico. Não é papel de qualquer governo defender seus preceitos religiosos pessoais. O tema “gênero” tem sido distorcido por conservadores e fundamentalistas. 

Primeiramente, precisamos distinguir gênero de sexualidade. Aquele tem a ver com papéis, isso implica afirmar que gênero nada tem a ver com práticas sexuais. Quando discutimos no currículo escolar a questão do gênero, não queremos que crianças sejam “isso” ou “aquilo”, mas no sentido de que a escola tenha ferramentas pedagógicas e teóricas para poder contemplar e compreender uma diversidade que já existe. 

As crianças são distintas entre si, e isso ninguém pode negar. É preciso criar um espaço em que professores saibam aceitar essas crianças e que as incentivem a aceitar umas às outras do jeito como elas são. Não se incentiva a sexualidade de ninguém, mesmo que nós quiséssemos. 

A proposta não é essa. Não existe lugar nenhum no mundo onde alguém “aprendeu” a ser hétero ou homossexual. Portanto, trabalhar a questão de gênero é entender que somos distintos e que desde cedo devemos aceitar as outras pessoas da forma como elas são. Não vamos confundir a questão de gênero com práticas sexuais. Ninguém no mundo aprende como ser gay ou como ser hétero. Isso é pertinente à natureza individual de cada um. 

É preocupante o Estado se omitir a essas questões ou mesmo “fechar os olhos”. Precisamos dar liberdade para o indivíduo encontrar dentro de si as formas que trazem mais felicidade, mais autonomia e mais realização. Que mudança haverá em mim se Pedro amar João, se Maria amar Maria ou se João amar Maria? Em mim mudará alguma coisa? 

A homossexualidade existe entre jovens, jornalistas, pastores, padres, policiais, políticos, atletas, artistas, professores e qualquer outra categoria. Isso é inegável! Deste modo, o combate ao preconceito, o respeito ao próximo, é algo que se deve trabalhar no indivíduo desde cedo.

O índice de evasão escolar de jovens LGBT’s é grande. Eles existem sim! E devem ser acolhidos, respeitados. É preciso que a escola instrua os jovens para o respeito à livre orientação sexual e à livre identidade de gênero, porque tentar invisibilizar uma questão que é realidade em nossa sociedade fundamentada num falso moralismo ou proselitismos religiosos é violar os princípios da dignidade da pessoa humana.  

A pergunta que faço aos fundamentalistas é se a preocupação com a sexualidade alheia deve ser maior que a preocupação com a miséria, a fome, as desigualdades sociais, a corrupção, a opressão? 

Políticos e líderes religiosos ocupam o espaço caro da televisão para levantar uma bandeira desnecessária e propagar o ódio, a perseguição aos LGBT’s e esquecem de temas que realmente são importantes para a humanidade. E nessa incessante luta, adolescentes se suicidam, gays são brutalmente assassinados. 

[*] É professor, agente federal e pré-candidato a senador pelo PSOL de Sergipe.