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Aparte
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Jozailto Lima

É jornalista há 36 anos, tem formação pela Unit e é fundador do Portal JLPolítica. É poeta.

Georgeo Passos: “Temos que ser realistas: não vamos ganhar nenhum projeto aqui”
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Georgeo Passos: Alese não pode ficar fora de um movimento que pense Sergipe 

O fato de ser combativo, um dos melhores, senão o melhor, deputados estaduais de Sergipe e atuar na oposição, não faz de Georgeo Passos, Cidadania, um utopista. Um etéreo sonhador.

Pelo contrário: o magricela quase oligárquico Passos sabe que a vida dos quatro opositores entre quase 20 governistas é estafante. Insalubre. “Não é fácil. Nós temos uma oposição realmente em minoria”, diz ele.

Diante dessa dimensão, Georgeo não se constrange em prevê sempre uma realidade de cara sempre contra o muro. “Temos que ser realistas: é lógico que nós não vamos ganhar nenhum projeto aqui. O Governo vai ganhar tudo que ele quiser”, diz. 

Mas nem por isso ele entrega os pontos e segue em frente, honrando o 16º mandato da família Passos – um do tio-avô Josué, oito do avô Chico, cinco do pai Antonio - ambos presidiram a Alese - e o segundo dele agora. 

“No passado, a gente se sentia mais isolado. Dessa vez já temos mais colegas que estão conosco nessa luta”, consola-se o mais novo Passos. Veja a entrevista que ele concedeu à Coluna Aparte e que fala mal da forma solerte como a Casa encaminha a pauta dos projetos a serem votados ali.

Aparte - É difícil ser parlamentar numa casa legislativa de 24 onde 20 são governistas?
Georgeo Passos –
Veja, não é fácil. Nós temos uma oposição realmente em minoria.  Não sei se o Governo teria os 20 deputados hoje na Casa. Temos o colega Iran Barbosa, PT, que é independente, que vai votar de acordo com a sua consciência. Não votaria apenas no Governo, no que pese ter sido eleito no agrupamento do Governo. Mas lógico que é difícil, embora esse mandato esteja até mais tranquilo do que o passado. No passado, a gente se sentia mais isolado. Dessa vez já temos mais colegas que estão conosco nessa luta. Mas é lógico que nós não vamos ganhar nenhum projeto aqui: temos que ser realistas. O Governo vai ganhar tudo que ele quiser. 

Aparte - Mas o fato de ser quatro não exige que os senhores sejam potencializados por três ou quatro vezes, que sinalizassem 12 do ponto de vista da proposição crítica, da análise de Governo e de Estado, da análise do próprio Poder Legislativo? 
GP -
A nossa ideia é essa. Quando a gente somou os quatro mandatos no G-4, a intenção foi a de potencializar a nossa visão perante a sociedade. Lógico que cada um tem a sua visão particular política, mas nesse momento que a gente faz uma oposição, a faz nesse sentido mesmo, de mostrar as incoerências e apontar também as soluções. 

Aparte -  Mas os seus colegas têm correspondido? 
GP –
Com certeza. O deputado Rodrigo Valadares, a deputada Kitty Lima e o deputado Dr. Samuel Carvalho sempre estão conosco nessa luta, demonstrando coesão. 

Aparte – Como o senhor coloca o deputado Ibrain Monteiro, de Lagarto, Talysson de Valmir, de Itabaiana e Gilmar Carvalho nesse processo? 
GP -
Esses três deputados fazem parte de um terceiro bloco aqui na Alese. Nós temos hoje o bloco do Governo, o da oposição, que somos nós, e tem um bloco aqui do PSC, PR, que engloba esses deputados que você mencionou. Ceio que hoje, tirando o deputado Gilmar, pelo menos nas votações - e eu estou falando das que já tivemos - eles votaram com o Governo. 

Aparte – Qual a sua queixa básica em relação ao aporte de projetos nesta Casa. Eles chegam de forma açodada, de maneira que os senhores não têm tempo de estudar entre a chegada e a ida às comissões ou até a plenário? 
GP –
Minha maior queixa é a de a gente não saber com uma antecedência de 24 horas ou 48 horas qual a pauta que vai ser votada. O projeto pode até chegar hoje e ser pautado amanhã. Mas desde que a gente fique ciente de que aquele projeto vai. A gente está hoje na Casa com mais de 90 projetos de lei ordinária protocolados. E a gente não tem noção se amanhã tiver uma pauta o que vai estar nela. Isso demanda, lógico, uma maior atenção. A nossa assessoria está sempre lendo, pontuando conosco o que temos que chamar a atenção, mas a agente fica inviabilizado na hora de um debate. Eu creio que até para a democracia, para a transparência desse Parlamento, não tem como o Governo perder nada, porque ele tem ampla maioria, mas não custaria nada o presidente da Casa mudar essa situação. É algo histórico na Assembleia, é bem verdade. Aí eu posso falar, porque meu avô e meu pai foram presidentes daqui, e essa forma infelizmente não foi alterada. E isso só prejudica as minorias. 

Aparte – Mas essa falha deve ser atribuída a quem?
GP –
Quem comanda a pauta é o presidente, mas compete aos 24 deputados mudar o Regimento Interno da Casa, dizendo que a pauta deve ser publicada ou encaminhada aos deputados com 48 horas de antecedência. Eu acho que a falha é de todos nós deputados, porque a gente vai concordando com esse sistema que nos prejudica. Mas hoje quem manda na pauta no plenário é o presidente da Assembleia. Nas comissões, os presidentes. 

Aparte – Volta e meia meu Portal tem trazido artigos e entrevistas de pessoas que questionam uma necessidade de um pensar Sergipe diferente. Qual o seu conceito de modo como se pensa Sergipe hoje? O senhor acha que estamos pensando Sergipe à altura da necessidade dele, de um bom futuro? Ou pensando no de manhã para comer à noite? 
GP -
Infelizmente, a gente não vê um movimento nesse sentido. Vamos falar da nossa área política: não vejo. Resume-se, muitas vezes, a esse Fla-Flu que não acrescenta em nada na discussão. Em nada no crescimento. 

Aparte - Que Fla-Flu é esse de que o senhor fala? 
GP -
O do Governo sempre querendo passar o trator porque tem maioria, sem querer discutir nada com ninguém. E a gente, muitas vezes quando faz os apontamentos, tem que apresentar também as soluções. Como somos minoria, muitas vezes não somos ouvidos. A gente deveria desarmar, mas de verdade. Esse discurso de que tem que desarmar palanque fica muitas vezes apenas na imprensa, como uma fala a mais. A gente deveria sentar e contribuir com Sergipe. Quais são os gargalos de Sergipe hoje? Por que Sergipe não está avançando? Por que a nossa economia está estagnada? É apenas por que o Brasil está parado? 

Aparte – E não seria só por isso? 
GP -
Será que a gente não poderia avançar em alguns pontos? Eu estive em uma cidade aqui vizinha, que gera muitos empregos e dentro do escritório de uma empresa o dono me disse: “aqui, deputado, tem 20 pessoas, mas dessa cidade que estou instalado só tenho duas pessoas”. Eu perguntei: “Por quê?” “Por que nós não temos mão de obras qualificada dentro do município. Tenho que trazer de Aracaju pessoas para trabalhar aqui”. Ora, o que é isso?

Aparte – Isso é de uma informação de uma empresa de origem sergipana? 
GP –
Sim, de uma empresa sergipana, que está instalada num município sergipano. Nós temos uma mão de obra carente. Vejamos a questão da nossa malha viária, da carga tributária, e temos o próprio setor produtivo muito cauteloso, sem querer fazer grandes investimentos. Com medo. Esse é o cenário. As pessoas estão com medo. 

Aparte – Quando o se fala num projeto de pensar Sergipe o senhor vislumbra a ausência do Poder Legislativo? 
GP –
Não. O Poder Legislativo tem que participar, porque a gente representa um público segmentado, cada parcela da população. Que pelo menos sejamos ouvidos. É importante esse movimento. Por outro lado, as pessoas que querem fazer esse movimento ficam com medo de politizar uma frente como essa. E aí a gente não avança, como não avançamos nos últimos anos. 

Aparte - Falo de uma frente eminentemente técnica. É possível pensar uma frente técnica com políticos? 
GP -
Acho que sim. Temos aqui quadros que podem separar muito bem, e podem contribuir. Mas precisamos ter um corpo técnico, e por isso a importância da qualificação cada dia maior desse Parlamento. Os comissionados são importantes, mas os efetivos que têm a qualidade e a confiança poderiam contribuir também muito nessa construção. Senão no próximo ano estaremos aqui repetindo as mesmas coisas.

Foto: Jadilson Simões/Rede Alese