Aparte
OPINIÃO - O apego nas relações afetivo-sexuais
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[*] Adalberto Vasconcelos Andrade

A teoria do apego foi estendida aos relacionamentos entre adultos no final da década de 1980. Creio que tarde demais para explicar um comportamento que nasceu na Idade Média, junto com o amor romântico. Mas como a ciência insiste em dizer que para tudo há uma explicação, só nos resta torcer que um cientista consiga encontrar a fórmula do amor.

Se a poesia não basta para descrever o amor que sentimos, há quem busque uma solução racional nas ciências exatas. Alguns especialistas (matemáticos e economistas) já estão se arriscando no mundo das fórmulas, das equações e dos números para desvendar esse misterioso e complexo sentimento. Construir fórmulas capazes de definir se uma pessoa é a adequada para a outra parece uma missão impossível, mas não custa tentar.

Quando o filósofo francês Blaise Pascal afirmou que o coração tem razões que a própria razão desconhece, ele certamente sintetizou em uma frase o que hoje os cientistas defendem ou tentam provar em relação ao ato de se apaixonar: não é o consciente, mas o inconsciente que seleciona nossos amores.

Com base nessa afirmação, podemos concluir que ninguém está isento de um dia se ver arrastando um vagão por alguém que talvez nem saiba que a gente existe. Na contramão do pensamento de Pascal, os matemáticos buscam respostas no raciocínio lógico para equacionar as questões do coração.

A matemática inglesa Hannah Fry, da Universidade College London, dá passos firmes nessa direção no livro “A Matemática do Amor”, fruto de uma palestra com milhões de acessos online em um evento do TED – organização sem fins lucrativos que promove ideias inovadoras. Ela apresenta equações capazes de explicar cada estágio do amor: como encontrar o par ideal; a fórmula para saber se existe química entre os pretendentes; qual a probabilidade da relação dar certo.

Para tratar de amor, Hannah passeia numa seara que começou a ascender nos anos 90, década em que a antropóloga americana Helen Fisher tirou a emoção do campo da ilusão e a racionalizou ao associá-la às reações químicas do corpo – que a ciência é capaz de identificar e de explicar –, lançando posteriormente a sua tese no livro “A anatomia do amor”. Para Helen, o amor virou um hormônio, a oxitocina, que é liberada quando uma mãe admira seu filho ou quando se estabelece a paixão entre um casal.

Com uma amostra de cinco mil mulheres do “Ok Cupid” - o polêmico aplicativo para relacionamentos –, Hannah tentou desvendar se a beleza realmente é fundamental na formação de pares. Eis a descoberta: homens belos, assim como os considerados feios, afastam pretendentes (exceto quando o sujeito tem dinheiro, fama ou poder, é claro).

Já indivíduos de beleza tida como mediana, mas com alguns diferenciais chamam a atenção e despertam o interesse das mulheres. Com esses princípios, os criadores do “Ok Cupid” – que também são matemáticos – descobrem, ao cruzar os perfis dos candidatos, quais usuários são compatíveis para viver uma relação amorosa promissora. E parece que está dando certo. De acordo com eles, um terço dos casamentos americanos começa nesses sites de namoro.

Só que o amor não é uma ciência exata. É como criar uma fórmula matemática para esquecer uma grande paixão – diferente do desapego. O desapego não é falta de interesse nem falta de amor, como muitos pensam. É independência. Você só estará pronto para amar verdadeiramente quando estiver bem sozinho e não depender dos outros para ser feliz.

A sensação de posse vem da sua dependência, do medo de perder a quem está apegado afetiva ou sexualmente. Todo apego gera sofrimento. E dependência não é amor, é baixa autoestima. Você não é livre e tolhe a liberdade do outro para não perdê-lo. Viver sob pressão ou por dependência emocional não convence e não faz ninguém feliz.

Às vezes é preciso ficar só para descobrir que nem mesmo na solidão você está sozinho. Quanto menor o apego, maior a chance de um relacionamento dar certo. Desapegue-se. Faça como ensina o mestre budista Dalai Lama: “dê a quem você ama: asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar”. É preciso dizer mais?

[*] É administrador de empresas, policial rodoviário aposentado e escritor. Este texto e mais quatro outros da mesma linha de afetividade humana e da autoria dele serão publicados nesta Coluna Aparte como forma de homenagem ao Mês dos Namorados.