Aparte
Opinião - Golpe militar na Bolívia: pressão de Forças Armadas força renúncia de Evo Morales
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[*] Flaviano Cardoso

Após vencer com 47% as eleições na Bolívia, 10% a mais que o segundo colocado Carlos Mesa, o candidato reeleito Evo Morales renunciou à Presidência da República. A renúncia se deu após extrema pressão das Forças Armadas que, em vídeo público, com a presença de militares fardados das mais diversas frentes de comando do Exército, “sugeriu” a renúncia do presidencial. A decisão política internacional foi encampada pela OEA - Organização dos Estados Americanos -, que após realizar auditoria, anunciou a existência de supostas irregularidades, mesmo sem detalhar quais seriam e qual o seu alcance.

Para além do golpe de Estado, é importante que a população brasileira entenda o que ocorreu nas últimas semanas na Bolívia. O vice-presidente da Bolívia, Garcia Linera, disse em cadeia internacional que as forças policiais estavam perseguindo trabalhadores no campo e na cidade, perseguindo comunidades indígenas, queimando suas casas e seus pertences. Vídeo divulgado na internet mostrou a prefeita do município de Vinto, sequestrada, com cabelos cortados e obrigada a andar nas ruas banhada em tinta vermelha e segurando uma corda.

A renúncia, segundo o presidente, se deu para que cessem os ataques terroristas da oposição, capitaneada pelos segundos colocados Carlos Mesa e Luis Fernando Camacho às famílias de trabalhadores no campo e em comunidades indígenas. “Estou renunciado para que Mesa e Camacho não sigam perseguindo aos meus irmãos, dirigentes sindicais, para que Mesa e Camacho não sigam queimando as casas nas comunidades indígenas [...]”.

Para além disso, existe uma razão fundamental para a consolidação deste golpe. Além das políticas sociais do governo, que buscou universalizar direitos sociais como saúde, educação, telecomunicações, seguridade social, o presidente Evo Morales reduziu os índices da extrema pobreza de 38% para 15%, segundo institutos internacionais. O resultado dessa política foi o crescimento do país ao longo da última década e sua avante independência internacional, fato que não interessa às elites bolivianas.

O MAS, partido do ex-presidente, chamou uma manifestação nacional nesta segunda-feira, 11 de novembro, na histórica Praça de São Francisco, em La Paz. Em resposta, foi expedida uma ordem ilegal de prisão contra o ex-presidente. Evo Morales prometeu organizar as bases populares do país e manter a luta que começara há tantos anos, numa esperança de que seja possível reconstruir as bases necessárias ao retorno da democracia. No final do pronunciamento, o vice-presidente exclamou: “Voltaremos, e seremos maiores”. A palavra de ordem passou a ser “Resistir hoje, para combater amanhã”.

Este golpe militar está na contramão da consolidação democrática estabelecida pelas instituições e pela cultura política de toda América Latina. O último golpe desta natureza foi perpetrado no Chile em 1973, com forte apoio militar dos Estados Unidos e outros países. Tal iniciativa, merece o nosso mais firme e decidido repúdio. A comunidade internacional apresentou resposta rápida ao golpe. Até o final da noite de ontem, cerca de 47 países já haviam repudiado o golpe de Estado. Os governos da Argentina e do México já ofereceram asilo político ao ex-presidente.

É preciso que as instituições, entidades sociais e toda sociedade civil organizada, por meio de suas instâncias e lideranças políticas, se posicionem e reflitam em suas bases sociais, repudiando essa iniciativa que não pode ter aparência, sob hipótese alguma de normalidade. É preciso ressaltar que o presidente que venceu as eleições aceitou realizar novas eleições gerais, mas a resposta foi a invasão de TVs e rádios públicas, sendo o golpe, portanto, uma decisão política conclusiva tomada pelas Forças Armadas para o estabelecimento de um estado de exceção na Bolívia.

Resta aos povos de todas as nações democráticas do mundo, além de repudiar, exigir o retorno do Estado Democrático de Direito na Bolívia. Que o povo boliviano não recue em sua luta por direitos e liberdades democráticas. Alerta total a todos que defendem a democracia na América Latina e no mundo.

[*] É advogado, bancário e militante dos movimentos sociais em Sergipe.