Aparte
Opinião - Sergipe: um Estado de Rede Materna desprotegida e de saúde frágil
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[*] Maria Auciliadora Varjão Lima

Sergipe poderia ser uma referência para o Brasil em muitas ações e serviços na esfera da saúde pública. Mas não o é. Falta-lhe vontade política e boa gestão. Menor Estado da federação brasileira, com uma área territorial de 22 mil quilômetros quadrados, Sergipe dispõe de acesso facilitado por rodovias, favorecendo articulação entre seus 75 municípios. Canindé de São Francisco, o município mais distante em relação à Capital, fica a exatos 200 quilômetros.

O Estado possui nove maternidades que formam o que chamamos de Rede Materna, sendo quatro delas filantrópicas e cinco da rede da Fundação Hospitalar de Saúde - FHS. Essas últimas, de responsabilidade gerencial do Estado. A Rede existe, mas, lamentavelmente, não funciona como era de se esperar. Muitos desses serviços possuem escalas frágeis e não estão equipados suficientemente para garantir a plena funcionalidade.

A Rota Materna, que tem como objetivo garantir acesso das mulheres gestantes a uma dessas maternidades no momento do pré-parto, parto e nascimento, com inserção pelo pré-requisito do que chamamos de vinculação de acordo com o perfil gestacional apresentado, foi pensada, desenhada, mas nunca saiu do papel.

Há muito não vem acontecendo o colegiado de maternidades, espaço importantíssimo, composto por gestores da saúde municipal e estadual, dirigentes da Rede Materna envolvidos em diversas questões locais, designado para travar discussões diversas, alicerçando a busca do melhoramento e do subsídio aos encaminhamentos e resoluções para fortalecimento da rede e garantia do cuidado e da assistência segura.

Isso tem uma causa - e ela é gravíssima: a grande maioria dos dirigentes dos serviços de atenção à saúde dessas mulheres é feita por indicação política de pessoas inaptas e insensíveis. Pouquíssimos são os que possuem qualificação técnica, ou que estão atentos às reais necessidades desse tipo de serviço.

Muitos deles desconhecem as políticas de saúde a serem aplicadas que possam assegurar aquilo que é recomendado pelo Ministério da Saúde no Pacto Nacional para a Redução da Mortalidade Materno-Infantil, fazendo com que o Estado não desenvolva as ações especificadas e, consequentemente, não venha a cumprir as metas estabelecidas, com números avaliativos ruins, beirando a péssimo, tendo como resultado de tudo isso uma assistência precária. Logo, indesejável e não completamente humanista.

Os hospitais, sobretudo os regionais, que deveriam funcionar como âncoras, fortalecendo e dando sustentabilidade para a Rede de Atenção à Saúde do Estado, são usados por grupamentos políticos, para beneficiamento muito mais de seus interesses que os do povo, deixando de focar objetivos e operacionalizar ações a que se destinam.

E o mais grave: gerando aquelas mortes de mulheres jovens, ainda na idade reprodutiva e que classificamos efetivamente de evitáveis. Diante de tudo isso, é imprescindível perguntar aqui: onde está a real saúde pública sergipana e o que gestores dela querem com tudo isso?

[*] É enfermeira obstétrica e servidora pública. Implantou o serviço Estadual de Atendimento às Vítimas de Violência Sexual, coordenou Áreas Assistenciais e de Admissão na Maternidade Nossa Senhora de Lourdes e foi superintendente do Hospital Regional de Socorro. Este artigo foi publicado originalmente no Jornal da Cidade e no Jornal do Dia.