Aparte
“Vai, Seu Aragão, e faz lá em cima o que você sempre fez aqui”
5d425cfe221db5e4

Manoel Cardoso de Aragão: uma festa no céu

Uma figura! Talvez poucas palavras seguidas de uma exclamação traduzam tão bem uma pessoa humana como estas duas. Elas, tão despretensiosas, apreendem e simbolizam à perfeição o significado desse Seu Aragão. Desse Seu Manoel Cardoso de Aragão.

Hoje, às 9h, ele passa pro ouro lado. Aos 91, chegou a sua vez, e será sepultado na Colina da Saudade. Sai da cena física, mas deixa a imagem do cara captado pela grande figura do homem bom e quase tão precioso e raro entre as gentes viventes.   

Nascido em Porto da Folha em 4 de agosto de 1926, Seu Aragão se dividiu (ou se somou) entre Propriá e Aracaju, onde fez empresa, família, filhos. Com dona Maria Helena Britto Aragão, fez muitos filhos: oito (João Fernandes, Miguel, Cezar, Mário, Carlos, Márcio, Rosa e Luciana), pelos quais era doidinho. E todos doidos por ele, e de onde vieram 24 netos e dois bisnetos. Foi industrial no setor de confecções, com a fábrica Hagê.

Zen, Seu Aragão era dono de um humor e de uma ironia quase santas. Nunca entrava em bola dividida: os filhos quase nem sabiam para que time de futebol torcia e nem em quem votava nas eleições. Fugia de embaraços, sem ser frio e nem distante. Embora idoso, nos domingos de almoço - todos os filhos lhe enchiam a casa sempre aos domingos - se houvesse um só pessoa em pé, ele fazia questão de ceder a cadeira.

Adorava ser tratado por buraqueiro, gentílico dos nascidos em Porto da Folha. Dali, repetia em família sempre a mesma charada que consistia em perguntar qual a cidade mais rica do Brasil, ao que ele mesmo respondia, irônico: “É Porto da Folha, que tem uma Ilha do Ouro”. 

Na vida de Aracaju, sempre vi Seu Aragão de lapada, esparsamente - e em conversas telefônicas. Isso até o dia1° de fevereiro de 2007. Porque naquele dia participei de bons eventos e momentos juntamente com ele e tomamos - pelos menos eu - uns gorós bacanas: era a posse de um dos seus quatro filhos advogados, Cézar Britto, na Presidência da OAB do Brasil.

Como muita gente em Sergipe, Seu Aragão amava o Cinform, jornal do qual eu era diretor de Jornalismo, ele assinante e o filho presidente da OAB um colunista memorialista. Naquele 1° de fevereiro de 2007, eu e Seu Aragão conversamos muito. Ele parecia transferir a mim a simpatia que tinha pela minha ação jornalística. Não diga a ninguém não: mas eu gostava de me ver reconhecido por aquele homem sábio e de bons modos.

E desde então, ancoramos um respeito daqueles que se amparam em gestos que levaram a alguns familiares a me dar notícias dele sempre dizendo-me, “olhe, o seu amigo está assim e assim”.

Aqui, tomo emprestado a definição dele tecida pelo filho Miguel Britto: “Meu pai era um bon vivant! A cara da felicidade. Sereno, doce, amável e dono de um humor inigualável. Homem simples e sábio. Incapaz de levantar a voz para quem quer que seja. Ao contrário, tinha sempre nos seus lábios um sorriso brando e uma palavra amiga para nos confortar. Ele agora nos deixa e parte para a eternidade. Vai, Aragão, e faz lá em cima o que você sempre fez aqui”. E certamente, como diria Caetano, servirá de farol.