Aparte
Opinião - É hora de separar o joio do trigo
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[*] Eliano Sérgio Azevedo Lopes 

Decepção, desencanto, raiva, fúria, apatia, revolta, são apenas alguns exemplos do sentimento da população em relação à política, aos políticos e às eleições de outubro próximo. Existe razão para tal estado de coisas? Sim e não.

Sim, por estarmos cansados de tantas mentiras, roubalheira, falta de escrúpulo e de ética na política, que se repetem a cada quatro anos. Vem eleição vai eleição e nada muda na vida dos trabalhadores brasileiros, no que diz respeito a questões essenciais, como educação, saúde, segurança, habitação, emprego e renda.

Não, porque adotar uma postura cômoda, porém covarde, de não querer ver, ouvir e falar sobre os problemas que nos afligem, e sobre a qualidade dos políticos que temos levado a ocupar assentos no Legislativo e no Poder Executivo, só nos faz coniventes com tudo o que está acontecendo.

É preciso dar uma chacoalhada no “saco de batatas” onde costumamos colocar todos os políticos. Vociferar que nenhum deles presta, e que os que pretendem ingressar na política, também, é se fechar na própria mediocridade e acreditar que “o inferno são os outros”, como diria o filósofo francês Sartre.

A omissão de quem pode e tem contribuição a dar para melhorar a situação do país, dos estados e municípios é tudo o que mais desejam as elites e os donos do poder, pois podem continuar a gozar dos privilégios, robustecer a corrupção com que enriquecem e manipular o povo com promessas que nunca realizam.

Ah, que fique claro que todos têm contribuição a dar para melhorar o local onde vivemos e a vida das pessoas, independentemente do nível de instrução e classe social, de serem formados na academia ou na escola da vida!

Entretanto, se algo de bom ocorre na democracia, além da liberdade de expressão, é que podemos tirar e pôr os políticos nas instâncias de poder a cada quatro anos, na busca de melhorar a qualidade e a atuação dos eleitos, em prol do interesse público.

Se não o fazemos, não é apenas porque não sabemos votar, como os falsos moralistas e intelectuais de meia-tigela insistem em vociferar aos quatro ventos. Afinal, acreditar em solução fácil para problemas complexos é o caminho mais rápido para o erro.

A política - e o seu exercício -, numa sociedade democrática, como a história sobejamente tem demonstrado, envolve valores subjetivos, que não cabem num traçado meramente cartesiano. Ou seja, apenas competência técnica, retidão de caráter, conhecimento dos problemas da cidade e outros atributos que fazem de uma pessoa “um bom cidadão” não são suficientes para que tenha sucesso na política.

Carisma, empatia, facilidade de comunicação com os eleitores, dentre outras atributos, não raro, atuam como fatores mais importantes a explicar porque um candidato com todas as qualificações consideradas ideais para o exercício da política não se elege, ao contrário de outro, cuja folha corrida é um rol de falcatruas, picaretagens e outras ações condenadas pela sociedade.

Entre o ideal e o possível na política existe uma grande distância, o que não impede que busquemos escolher os melhores candidatos entre os que se apresentam como postulantes a nos representar nos Poderes Executivo e Legislativo sergipanos, por exemplo.

Isso não significa que a opção pelos demagogos, autoritários e populistas que com muita lábia e/ou dinheiro se apresentam como salvadores da pátria compram votos ou ludibriam o populacho com falsas promessas seja a única alternativa que o eleitor tem para votar.

Sem cair na falsa crença de ver o novo como expressão da pouca idade do candidato ou do fato de estar a participar pela primeira vez de uma eleição, é fato que entre os nomes que estão à disposição do eleitor tem gente muito boa, que pode muito bem influenciar positivamente nas mudanças de que Sergipe necessita com urgência, de modo a superar o panorama político historicamente marcado pelo continuísmo dos clãs que controlam o poder no Estado.

Importante: é possível garimpar bons candidatos em vários partidos, a exemplo dos três abaixo citados: o Professor Iran, quadro histórico do PT e militando na política há vários anos, não é um excelente candidato? Educado, de trato fácil, estudioso, cordato, porém incisivo na defesa de suas posições, é pule de dez na escolha por parte de qualquer eleitor consciente.

E o que dizer do deputado estadual de primeiro mandato Georgeo Passos, do Rede? Independentemente de ser oriundo de uma família de políticos conservadores, não tem desempenhado com correção, espírito público e empenho as atividades que o eleitor espera de quem o representa? Como diria o velho Marx, o que importa não é a origem de classe, mas a adscrição de classe. Se não fosse assim, como explicar o fato tão comum de vermos “empregado votar em patrão”?

Por que não apostar no delegado Alessandro Vieira, do Rede, como postulante ao mandato de senador? Mostrou competência e seriedade na condução de ações contra a corrupção no Estado, o que levou à sua demissão do alto cargo que ocupava na Secretaria de Segurança Pública.

Somados a esses nomes, com certeza, cada um de nós conhece ou acompanha a atuação, no campo profissional ou político, de várias pessoas da sociedade que podem nos representar com dignidade, seriedade e competência nas esferas de Governo e no Parlamento, além dos três nomes que citei.

Abro um parêntese para deixar claro que não conheço pessoalmente nenhum dos citados, muito menos seja esta uma declaração de voto em qualquer um deles. Trata-se tão somente de expor uma opinião de um observador da cena política de Sergipe, que procura estar sintonizado com o que acontece no Estado e com a ação política daqueles a quem delegamos o direito de nos representar no Parlamento ou conduzir os destinos da cidade ou do estado, ou que pretendem fazê-lo.

Voltando ao que interessa, é preciso superar a visão simplista de que votar em outros candidatos que não aqueles que já estão na política há anos ou em seus herdeiros - parentes e aderentes - é jogar o voto fora, pois eles não têm como se eleger.

É obvio que, se ninguém votar neles, não há como serem eleitos. Por outro lado, se temos escolhidos políticos ruins, que não honram o mandato para o qual foram eleitos, por que não trocá-los? Aprendamos com os nossos erros e procuremos acertar dessa vez.

Afinal, aprende-se democracia vivendo-a e exercendo o aprendizado diário da convivência e respeito às diferenças, quaisquer que sejam elas. As eleições são apenas um ponto na curva do processo democrático.

 

Ninguém perde o voto ou joga o voto fora quando o faz com a pureza das crianças (como diria o grande e saudoso Gonzaguinha), a sabedoria dos anciões e a sensatez e a intuição apurada das mulheres. O resultado das urnas é tão somente a soma aritmética dos votos, não o atestado de decência, competência e seriedade com a coisa pública dos eleitos. A hora é essa, outubro está próximo. Vamos às urnas!

[*] É doutor em Ciências Sociais em Agricultura, Desenvolvimento e Sociedade pelo CPDA/UFRRJ, professor aposentado na Universidade Federal de Sergipe – UFS – e avô da Liz e da Bia.