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Aparte
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Jozailto Lima

É jornalista há 36 anos, tem formação pela Unit e é fundador do Portal JLPolítica. É poeta.

Obra na Hermes Fontes repara o passado, moderniza e aponta a cidade do futuro
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Hermes Fontes em obra: desconforto somente durante a realização

Dentre os quatro grandes corredores do transporte urbano de Aracaju que a gestão do prefeito Edvaldo Nogueira definiu como prioridades para um robusto projeto de intervenção urbana, o da avenida Hermes Fontes é o mais complexo, seja pela profundidade dessa intervenção, seja pelo que representa na concepção de cidade pensada pelo atual prefeito. 

A complexidade aqui começa pelo que caracteriza a obra nos demais corredores, o recapeamento de toda a extensão da avenida e vias no prolongamento com uma densa e resistente camada de asfalto: no caso da Hermes Fontes, além desse revestimento, uma série de medidas de engenharia vai mudar radicalmente não só sua estrutura, como o próprio papel que ela cumpre na mobilidade urbana da capital sergipana.

Não obstante ser o mais curto dos corredores beneficiados pelo Projeto de Mobilidade Urbana executado pela Prefeitura de Aracaju – tem a extensão de 7 km –, é o que terá mais obras de impacto, pois pelo seu subterrâneo passam cabos de fibra ótica de várias operadoras de telefonia, gasodutos da estatal Sergas e tubulações de amianto da Deso que abastecem de água toda a região.

Neste caso, mesmo que a obra não fosse realizada, a empresa de água teria que trocar os canos de amianto, material ecologicamente incorreto e que data de cerca de 80 anos. Administrar todas essas variáveis significa, para a Emurb, órgão municipal encarregado das obras, cavar toda a extensão da avenida e acomodar as condições de funcionamento de cada empresa de modo seguro e com qualidade, para evitar futuras escavações no pavimento.

Além dessa complexidade que aumenta o tempo da obra, outra mudança significativa será a transferência dos pontos de ônibus para o canteiro central, a exemplo do que ocorre em várias capitais brasileiras, como Porto Alegre e São Paulo. Para se ter uma ideia do alcance de uma medida dessas, nada melhor do que ouvir especialistas.

Bdbf1c4ef3c72da0Edvaldo Nogueira: obra muda feição da Hermes Fontes sobre a terra e embaixo dela

“A implantação do corredor de transporte da avenida Hermes Fontes representa um marco, um grande passo para a mudança de conceito de transporte coletivo em Aracaju. Não apenas porque separa os ônibus dos demais veículos, e assim esses ônibus passam a trafegar em caneleta exclusiva, mas, sobretudo, porque o sistema passa a utilizar a parte central da via, ao contrário do que se tentou fazer antes, com a utilização da parte lateral da via, criando dificuldade para a parada de veículos, no caso de embarque e desembarque, como também para acesso da via dos veículos procedentes de vias transversais”, explica Joelson Hora, engenheiro civil do DER, professor da UFS na área de Transporte, para quem a mudança do itinerário dos ônibus para a faixa central da avenida vai melhorar o fluxo dos automóveis, que terão duas pistas livres nesse fluxo.

A localização dos pontos de parada no canteiro central ainda libera as calçadas e deixa mais livre o fluxo de pedestres e reduz incômodos para estabelecimentos comerciais situadas ao longo da avenida. Além disso, a passagem dos usuários dos pontos de parada para as laterais da via será garantida pelas lombofaixas, com semáforos acionados localmente por eles. “Acho que é um avanço. A gente muda o conceito de transporte”, resume o engenheiro Hora.

Como bem observa o engenheiro do DER e professor da UFS, a dimensão da obra permite considerá-la uma passagem para a modernização dos grandes corredores urbanos da capital, já que o impacto não se dará só localmente, mas vai gerar benefícios em toda a cidade, ajudando na mobilidade urbana e trazendo uma nova concepção urbanística para esses corredores, incluindo um novo projeto paisagístico.

000f2d71c6765b33Antonino Lima: “Árvores teriam que ser retiradas do local de todo jeito”

A questão da substituição das árvores - tratada, por má fé ou desinformação, equivocada ou negativamente como uma retirada - na verdade significa, no final, dobrar o atual número de árvores, sendo que parte delas permanecerá no canteiro e outras serão implantadas em calçadas e ruas situadas no entorno. Das árvores que serão cortadas, a maioria se encontra condenada pela longa idade ou pela inadequação às atuais políticas ambientais. 
 
Novamente, fala um outro especialista: “Um aspecto que me conforta nessa obra é que na avenida existem muitas árvores de duração efêmera, que não chegam a durar 100 anos, e que  já têm quase 50 de plantadas. Então, de toda forma, até por segurança, essas árvores teriam que ser retiradas do local de todo jeito”, diz Antonino Lima, engenheiro agrônomo com especialidade em Paisagismo e Botânica, com várias obras publicadas sobre arborização urbana e proprietário de uma galeria na Hermes Fontes. “Creio que ficará uma avenida bonita, interessante. Isso melhora, inclusive, a qualidade dos imóveis, pois eles se tornam mais valorizados”, entende.

Se nos aspectos estritamente técnicos a intervenção no Corredor Hermes Fontes obtém o reconhecimento de gente da área, apontando questões como modernidade, conforto, segurança e praticidade, no campo político a obra também recebeu demonstrações de apoio vindas de vários segmentos, a exemplo do vice-presidente da Assembleia Legislativa do Estado, o deputado Francisco Gualberto, PT, para quem os incômodos temporários trazidos pela sua execução trarão o bem-estar comum no futuro.

79f1706380ab33d0Francisco Gualberto: nenhum prefeito seria louco de acabar com a arborização

Com seu olhar apurado para o uso político por quem faz uma espécie de oposição pela oposição, o deputado Gualberto adverte: “Muitas vezes o administrador sofre o desgaste por não fazer uma obra, mas também sofre por fazer. O que não concordamos é com determinadas argumentações, porque nenhum prefeito seria louco a ponto de acabar com a arborização de uma avenida como a Hermes Fontes. Mas quem faz gestão pública sofre esses ataques que muitas vezes são necessários para quem quer fazer oposição, mas não traduzem a realidade dos fatos. Haverá substituição de árvores, e não sua eliminação”, afirma, convencido de que parte das reações tiveram inspiração política.
 
Numa interface entre militância política e ambiental, o fundador da primeira ONG ambientalista de Sergipe, a Aspam, o biólogo Genival Nunes, professor, ex-secretário de Estado e diretor da Adema, doutor em Meio Ambiente, faz um diagnóstico sobre a questão, a propósito do projeto de arborização da Hermes Fontes.

“Um vegetal, de qualquer porte, para ser inserido no ambiente urbano, tem que estabelecer uma relação perfeita com ele. A cidade é um ambiente artificial desenvolvido pelo homem no sentido de satisfazer as necessidades de um ser gregário por natureza. Nesse sentindo, é preciso estudos específicos de ecologia urbana (incluindo todas as áreas de conhecimento) e não é de forma aleatória que se faz a escolha e o plantio numa cidade”, diz ele.

B2ee2311511f3cb2Obra da Hermes Fontes: fim dos tubos de amianto

“Aracaju sempre foi um exemplo péssimo de arborização e seria um momento interessante de reparar os danos resultantes desses desconhecimentos em gestões anteriores”, completa Genival Nunes. Alegando não ter nada contra a vegetação exótica, desde que “no lugar correto”, ele diz que não o agrada as calçadas enrugadas pelas raízes de fícus e mata-fomes, pois, segundo ele, as técnicas de manejo permitem que técnicos especializados (biólogos, agrônomos e engenheiros florestais) façam as escolhas e plantios corretos de espécies, preferencialmente nativas. 

“Não vejo nenhum problema em aproveitar esse momento de melhoria para o transporte público para fazer as devidas correções na arborização correta da avenida Hermes Fontes. De uma só vez, pode-se melhorar o transporte e a distribuição correta da vegetação. Seria um ótimo momento para a PMA investir num amplo plano de recuperação e implantação da arborização de toda cidade”, escreveu Genival Nunes, em suas redes sociais.

9620a149073d1231Projeto da Hermes Fontes: nova estética

Essa obra, com tantos prós, e como elementos “negativos” somente os incômodos durante sua execução apontados pelos políticos de oposição, tem um aspecto que, por si só, já valeria pelo conjunto dela. Trata-se da extinção total das tubulações de amianto, produto nocivo para a saúde, cuja fabricação já era consensualmente condenada por ambientalistas do mundo inteiro.

A própria cadeia produtiva da construção civil já havia proibido seu uso, pelos danos que causavam à saúde. Ou seja, se no campo da paisagem urbana o projeto de arborização vai dobrar a quantidade de árvores, o caráter sustentável da obra se consolida com a supressão dos canos de amianto usados na distribuição de água para os moradores.
 
Tão estruturada na sua base subterrânea e moderna e confortável na superfície, a obra no Corredor Hermes Fontes sinaliza também para uma nova estética nas grandes vias de escoamento do transporte urbano na capital sergipana. A ver pelo parecer dos especialistas, trata-se de um investimento em políticas urbanas que dialoga bem com o futuro da cidade.

Fotos (1,4,5): André Moreira