Aparte
Opinião - Si el poeta eres tú*
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Luciano Correia, Jorge Carvalho, Antonio Passos, Carlos Cauê e Amaral no Programa Contraponto, que foi da TV Caju à TV Aperipê

[*] Luciano Correia

Essa desgraçada pandemia, mais os afazeres que nunca me deixam e a rotina do poeta Amaral Cavalcante nas sessões de hemodiálise num hospital acabaram por me afastar do convívio dele.

Não sei como ele vinha encarando esses últimos meses em que, além da sombra da morte que ronda a todos, e em particular nós, brasileiros, o prenúncio de sua própria morte já se desenhava.

Há cerca de um mês despachei para sua casa um pesado pacote com dezenas de filmes e livros raros que, antes de propiciar seu próprio deleite, interessava especialmente a mim o resultado de seu olhar luxuoso sobre tais obras.

Filmes que não se vê por aqui nem nos Netflix dessa cultura pasteurizada, e livros que nos tocam nessa quadra da vida, na qual a perspectiva da morte é cada vez mais presente em pensamentos e palavras. 

Dias antes, por telefone, constatei pela primeira vez no poeta um cansaço com a vida, o desânimo dos que estão saturados com o próprio calvário. Fiquei muito triste em ver aquele vulcão incontrolável, em vez de disparar sentenças e impropérios contra desafetos, ou engatar sua sonora gargalhada, reclamar, triste e soturno, da falta de ânimo para os papos e vinhos, nosso principal programa em décadas.

Talvez tivesse razão ele, sabedor de tantas alegrias e da história comum que escrevemos, nós e ele. Nós, vale dizer, foram os privilegiados que, como ele dizia, privaram da intimidade de sua cozinha. Foram milhares, quiçá milhares e milhares, as vezes em que invadi sua casa inacabada na rua jornalista Paulo Costa, carregando vinhos, cervejas e uma renca de amigos, como Sales Neto, Cauê, Rian Santos, Antônio Passos, Gilvan Manoel, Tonholeite e outros menos habituais.

Muitas vezes ele fingia que não queria aquela horda bárbara nos horários mais impróprios (leia-se: qualquer hora do dia ou da noite). Olhava pra gente com cara de zanga, mas deixando uma porta aberta para a farra: “E é?”. É poeta, já estamos na cozinha, pegue os copos. E pronto, seu sossego virava festa.

Às vezes acordávamos o poeta com gritos, chamados desaforados para um tipo tão carrasquento e de curtíssimo pavio. Amaral era, como eu brincava, o melhor mau humor da cidade. Isso porque, insultado, ou se achando assim, devolvia inicialmente com urros verbais, mas logo sua fina ironia, o humor cortante, obedeciam ao comando de sua rara inteligência e generosidade, que destruíam os argumentos contrários.

E, no final, ainda sobrava uma doçura que só ele sabia escavar, do fundo de sua aparente brutalidade. Assisti inúmeras dessas refregas ao longo da vida, desde as coisas simples do dia a dia, em brigas que acabavam em beijos no adversário, ou no campo intelectual, como da vez que brigamos, eu e ele, com Joel Silveira.

Guardo até hoje o bilhete do Víbora, com timbre no canto superior da lauda, dizendo, sobre uma furiosa nota que eu publicara na Folha da Praia: “você ainda vai engolir esta merda”. Engolimos, eu e Amaral, muitos desaforos dos que se sentiram atingidos por nossa verve destrambelhada.

Mas, seguros de que estávamos do lado certo, exercíamos tão somente nossa loucura santa. Misturo-me um pouco num texto sobre Amaral porque minha vida sempre foi misturada a ele, meu pai profissional, ao lado de outro também saudoso, o beat sergipano Fernando Sávio.

Foi no longínquo 1982, quando a Folha da Praia contava um aninho, depois de ler uma crônica minha, que ele me convidou para escrever no jornal. Ainda estudante de Jornalismo na UFBA, passei a ser colaborador daquele alternativo vibrante, que revolucionou o jornalismo impresso sergipano, sacudindo a poeira da caretice, retratando nas suas páginas a juventude dourada que desfilava na Praia dos Artistas naqueles verões da abertura, mas sem se descuidar de um papel político, abrindo espaço para centenas de colaboradores de oposição, dos diferentes matizes da esquerda. Era o nosso Pasquim, sem nada a dever ao semanário carioca. 

A Folha, nossa bruta FDP, relevou talentos, influenciou a vida sergipana e ganhou respeito, dos extratos do poder local ao melhor (e pior) bas-fond aracajuano. No começo dos anos 2000, concebi e apresentei um programa na extinta TV Caju, o Contraponto, uma deliciosa conversa semanal que tinha como enunciado “o contraponto de tudo por quem não é especialista em nada”.

Eu, editor e âncora, suava frio e passava vergonhas semanais para segurar aquele touro descontrolado, ao vivo, sem cortes, botando em risco a própria continuidade de um programa irreverente e fora dos padrões locais. Nas suas falas, Amaral jorrava vulcões em frases, adjetivos e muito frequentemente nos interrompia, incluindo o apresentador, oferecendo diante do público seus carões e queixas. Das vezes em que trabalho e diversão eram a mesma coisa. Era um espetáculo, que comemorávamos depois em longas rodadas na sua cozinha, sem comidinhas ou tira-gostos, só vinhos e cervejas rolando até o dia amanhecer. 

Em 1988, quando fui embora de Aracaju para Maringá, no Paraná, ele fez um bota fora pra mim na lendária casa da rua Luiz Chagas, na Atalaia, que reuniu a fina flor da cultura, da política e dos alternativos aracajuanos, incluindo Joel Silveira, já “de bem” com ele e comigo.

Foi nesta mesma casa que ele recebia artistas que vinham se apresentar em Aracaju, como Jorge Mautner, Moreira da Silva e as meninas do ballet Stagium. Essas últimas, depois de uma apresentação no FASC, ao chegarem na casinha da Atalaia deixaram encantado o compositor Nelson Cavaquinho, maravilhado com a energia e a sensualidade daquelas meninas lindas, um cruzar e descruzar de pernas que botaram o velho Nelson nervoso e “saliente” para os lados delas. 

Depois que fui embora de Aracaju mais uma vez, por mais de cinco anos, entre o Rio Grande do Sul e a Espanha, nossos encontros ficaram esparsos, mas na volta, comandando a Fundação Aperipê, ressuscitei o Contraponto na grade de programação da TV, dessa vez sem minha participação, numa formação que incluía os “originais” Carlos Cauê e Antônio Passos, mais Jorge Carvalho, eventual apresentador nas minhas ausências.

Nessa época, Amaral já comandava na Segrase o interessante projeto de revista chamado Cumbuca, publicação que foi seu último mimo, refletindo nas suas páginas a diversidade vigorosa e alegre do editor. Na mesma Segrase, nos encontrávamos com frequência nas reuniões do seu Conselho Editorial, que integrei junto com o próprio Jorge Carvalho, João Augusto Gama, o juiz Anselmo Oliveira, Jussara Jacintho e Ricardo Lacerda.

Reuniões de ricos debates sobre literatura e história, temperadas com os trovejos curiosos do conselheiro Amaral, ora se derramando em amores, ora em ácidas considerações. Mais um momento em que trabalho e festa eram a mesma coisa, graças ao espírito luminoso de uma figura que paralisava os ambientes com um jeito peculiar de ser e de estar no mundo. É este o meu poeta Amaral Cavalcante que agora me faltará para sempre. * “Si el poeta eres tú” é uma canção de Pablo Milanés e que sempre que ouvia, lembrava de Amaral.

[*] É jornalista e começou sua carreira profissional escrevendo na Folha da Praia.