Aparte
Opinião - Sacerdote de Moloc: um necessário tribunal para ele diante de suas vítimas
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[*] Mário Resende

Há um filme de terror dominando o Brasil nos dias atuais com suas cenas de lágrimas, desespero, cortejos fúnebres e muitos choros pelo país. A Covid-19, que deveria ter um nome mais adequado para adjetivar com propriedade a sordidez da forma com que mata os humanos, apropria-se dos corpos de crianças, jovens, adultos e idosos, homens e mulheres, sem pedir licença.

E, ao seu modo, no dia a dia vai ceifando vidas, destruindo sonhos, afetos, famílias, desorganizando tudo - um vulcão a expelir larvas e gazes envenenados sobre o mundo e o país em choque. O invisível vírus faz uma guerra rápida, laminar e certeira contra a humanidade.

Em alguns pouquíssimo países já foi vencido ou domado. Há esperança. O Brasil, no entanto, faz um movimento contrário às experiências dos países que estabilizaram a praga. Como isso ocorreu, se a nação teve tempo para organizar o enfrentamento desse mal desde o mês de janeiro de 2020?

O que fez o governo brasileiro durante todo esse tempo? Qual o plano federal para traçar as metas, objetivos e ações ao enfrentamento do vírus? Que políticas públicas de saúde foram postas para execução no país coordenada pelo Ministério da Saúde?

Quando os governadores foram chamados para ser corresponsáveis pelo enfrentamento à pandemia, com liberação de recursos para contrato de profissionais, treinamento, fornecimento de material médico e instalação de leitos?

Como o Ministério da Saúde reforçou as Secretárias de Saúde dos Estados e Municípios para enfrentar a crise? Para má-sorte dos brasileiros, desconhecemos tudo isso. Era o básico a ser feito. Em poucos meses, estamos no epicentro da crise na América Latina.

A falta do básico fez a Covid reinar por aqui, como um verme imundo que adentra num organismo sem defesa e sem data para ir embora. Seria “só uma gripezinha”, falou inicialmente o mandatário da nação.

Tempos depois, com o aumento das mortes, disse que não faria milagres. “E daí?”, respondeu sobre a morte de milhares de brasileiros, um comportamento muito aproximado aos Sacerdotes de Moloc, o Deus Amenita que acalmava sua fúria com a morte de inocentes lançados às brasas.

Quando o então ministro Mandetta, da Saúde, tomou ações mais enérgicas, foi exonerado. O segundo ministro, chamado às pressas para ocupar o lugar do antecessor, não suportou três semanas no cargo, entregou os pontos.

Pela primeira vez na história do Brasil, um presidente, sem formação nas áreas da saúde, impõe um remédio contra uma doença, a Covid-19, sem eficiência comprovada, e um militar especialista em estratégias aeroespaciais comanda o Ministério da Saúde. O reivindicado Padrão Fifa, gritado nas ruas há alguns anos passados, pelos que hoje estão no poder e seus apoiadores, sumiu do mapa.

Enquanto reina a pandemia política em nível federal, a rede de hospitais universitários federais, os departamentos das áreas da saúde das universidades e os governadores dos Estados, e algumas entidades da sociedade civil, dentro do possível, correm contra o tempo e fazem sua parte pro vírus não ceifar, ainda mais, milhares de vidas.

Não está fácil. Em média, cerca de mil pessoas morrem por dia de Covid no Brasil. Desconfia-se que o número seja muito maior. Para piorar a situação, mais de 300 profissionais que atuam na linha de frente dessa guerra - médicos, enfermeiros e pessoal de apoio, nos hospitais públicos e privados -, também perderam suas vidas. Um prejuízo de capital humano imenso. 

No cotidiano, a foice do vírus continua contaminando e matando jovens, adultos, crianças, idosos, em particular entre os mais pobres e moradores das periferias. O número de brasileiros sacrificados, segundo dados oficiais, já passa de 22 mil mortos.

Mais de 400 mil foram detectados com o vírus, uma doença terrível que mata em menos de 15 dias. Enquanto isso, continuamos sem um plano nacional para enfrentar a peste. Não tenhamos fé simplória. Sem comando, sem políticas públicas, sem direcionamento correto, corremos o risco de a Covid fazer um estrago ainda maior pelo país e se estender por meses.

Segundo Bolsonaro, o paraquedista expulso do Exército que foi eleito presidente, 70% da população terá de ser infectada para a pandemia ser controlada. Não é verossímil essa afirmação. Caso fosse verdadeira essa elocubração, no mínimo iriam ao sacrifício 1,5 milhão mil brasileiros de Covid, conforme observa-se nos percentuais dos índices de mortalidade atual: 1% dos infectados. Quase a população do Estado de Sergipe inteira! 

A verdade é que todos nós, saudáveis ou não, estamos na roda do perigo. Para nossa espiação, dois imensos perigos: o vírus e a falta de comando nacional para combatê-lo. Nós, nossa família, amigos, conhecidos. Sem direção razoável do Ministério da Saúde, sem política pública nacional para combater o vírus, iremos pro corredor do sacrifício ao Deus Moloc. O sacerdote de Moloc, há muito esbraveja em júbilo: não faz milagres!

Como o Brasil está entre os 10 países mais desiguais do mundo, a pandemia aprofundou a crise política, econômica e social que já estávamos atravessando e, pelo andar da carruagem, as reações descabidas e descontroladas do Governo Federal, só aprofundarão, ainda mais, o cortejo de dor e desespero que todo brasileiro atingido por esse triste vírus terá de seguir, se sobreviver.

Os membros do atual Governo Federal serão lembrados pela inoperância, irresponsabilidade, falta de planejamento e de compromisso para com a vida da população brasileira. Em plena crise, uma reunião do presidente e seus ministros, recentemente exposta, faz corar de vergonha qualquer brasileiro maior de 12 anos, pelo excesso de termos chulos, falta de proposta, uma mínima discussão sobre algum plano de emergência para pôr uma barreira à pandemia.

Nada disso foi falado, ouvido, gravado. Já palavrões e xingamentos, choveram, aos montes. Tudo isso regado a café, chá, água, ar condicionado, todo o conforto possível, pago com o seu, o meu, o nosso dinheiro público.

Não tardará, espero, os dirigentes nacionais que fizeram pouco caso para a crise sanitária que se abate sobre nosso povo serão levados aos tribunais e responsabilizados pelos milhares de mortes de brasileiros nessa pandemia. 

Os familiares dos filhos e filhas desse país chorarão por muito tempo pelos que morreram e morrerão de Covid-19, abandonados, sozinhos, sem a assistência médica necessária, sem terem a presença de seus queridos nas suas derradeiras horas, enterrados em valas por falta de ação responsável do Governo Federal.

Cedo ou tarde, eles clamarão por justiça. Os filhos dos profissionais que perderam suas vidas na frente de batalha também. Quem sustentará as famílias desses verdadeiros heróis da nação? Não pode ficar sem responsabilização o descaso político por parte de quem devia ter empatia, cuidar, lutar e possibilitar, não medir esforços com a oferta das condições dignas e necessárias para salvar a vida da população brasileira. 

[*] Professor da UFS.