Aparte
Opinião - Sessenta anos da eleição de Jânio Quadros. De qual fantasma falamos?
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[*] Jorge Carvalho do Nascimento 

Jânio Quadros foi, certamente, o primeiro presidente da República no Brasil a se eleger cavalgando uma campanha eleitoral que tinha como temas centrais o combate a corrupção política e administrativa e também as questões da chamada corrupção moral e dos bons costumes em defesa da família e dos valores cristãos. 

Da mesma maneira, a denúncia de que a política seria o campo preferencial da corrupção e que seria necessário governar sem dialogar com os políticos. Tudo posto como fatores que provocavam as dificuldades econômicas que o Brasil vivia. 2020 marca a celebração dos 60 anos da vitoriosa campanha janista.

Não obstante ter sido Jânio o primeiro a fazer de tais temas a peça essencial de uma campanha presidencial e se eleger com base neste discurso, o tema é antigo no Brasil. Há registros de embates políticos do Brasil Colônia, principalmente no que concerne a apropriação das terras e dos tributos da nação, além dos problemas relacionados a concupiscência e aos muitos pecados da carne. 

No Império, o debate prosseguiu, acentuado principalmente pelos concubinatos e pela profusão de amores viris patrocinados pelo imperador Pedro I. O imperador Pedro II não tinha a mesma virilidade do pai, mas o seu período de gestão conheceu outros escândalos, problemas com o genro e, como em todo governo, a economia viveu as suas crises.

Na República, além dos mesmos temas, se acresceu ao debate a questão da política social e da organização dos trabalhadores. No início do século XX, o combate ao comunismo e ao movimento sindical foi adicionado aos embates. A luta em torno de tudo isto foi intensa na Era Vargas, principalmente no período de janeiro de 1951 a agosto de 1954. 

O governo Vargas foi colocado em suspeição numa acirrada campanha moral liderada pelo czar do conservadorismo brasileiro Carlos Lacerda, chefe da UDN, deputado federal e governador da Guanabara, numa sucessão de episódios que se encerrou com o suicídio do presidente da República no dia 24 de agosto de 1954. Durante a operosa gestão de Juscelino Kubitscheck, em face das obras de construção de Brasília, apareceu toda a sorte de denúncias comandadas pela chamada Bossa Nova da UDN. 

Depois de 1960, os temas de campanha de Jânio Quadros empolgaram vários outros líderes brasileiros. Foi com o mesmo discurso que em 31 de março de 1964 os comandantes do golpe militar depuseram o presidente João Goulart. Da mesma maneira, Fernando Collor de Melo se elegeu chefe do Poder Executivo. Agora, o Brasil elegeu Jair Bolsonaro, com a mesma pauta, valorizando extremamente um determinado ponto: o ódio à política, mesmo tendo Bolsonaro uma carreira de três décadas como político.

Crítico da política e dos políticos, Jânio se apresentava como antipolítico, esquecendo que antes da Presidência da República fora vereador, deputado estadual, deputado federal, prefeito e governador. Militante de um partido pequeno, o PDC - Partido Democrata Cristão -, Jânio foi apresentado por Carlos Lacerda e recebeu o apoio da UDN. Teve uma vassoura como símbolo de campanha, para varrer a corrupção; populista, comia sanduiches de mortadela nos comícios para se mostrar popular. 

Tomou posse em janeiro de 1961 para governar de modo histriônico e com medidas espalhafatosas, numa gestão que durou apenas sete meses. Adotou uma política de arrocho econômico impopular e desvalorizou a moeda. Em nome do moralismo, proibiu os usos do lança-perfume no carnaval e de biquinis nas praias, além de obrigar o uso de uniforme pelos funcionários públicos. 

Foi se isolando rapidamente e tentou seduzir os militares a apoiá-lo em um autogolpe. Por fim, no dia 25 de agosto de 1961 enviou ao Congresso uma carta renúncia. Por volta das 10 horas da manhã daquele dia, comunicou a renúncia aos ministros militares e entregou a carta a Oscar Pedroso Horta, ministro da Justiça. Às 11 horas tomou o avião presidencial rumo a cidade de São Paulo, onde sempre manteve residência com a sua família. Tinha certeza de que haveria um clamor pela sua permanência e que iria receber o apoio do Congresso Nacional e das Forças Armadas. Errou. Uma semana depois embarcou em um navio no porto de Santos, rumo a Inglaterra, para um autoexílio que se impôs.

[*] É doutor em Educação, professor aposentado do Departamento de História da UFS e foi secretário de Estado da Educação de Sergipe.