Aparte
OPINIÃO - O Brasil de Bolsonaro: o aprofundamento neoliberal e o endurecimento político
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[*] Camilo Feitosa Daniel

O processo eleitoral de 2018 traz inúmeras especificidades e não pode ser comparado integralmente à eleição dos Estados Unidos, que deu vitória ao republicano Donald Trump, apesar da forte interferência das fake news e da decisão do voto a partir das redes sociais. Uma pesquisa realizada pelo Ibope e divulgada pelo portal “Viomundo” em junho de 2017 já demonstrava essa tendência do eleitor e da eleição.

A crítica a globalização, associada às propostas de reindustrialização, investimento público e geração de emprego foram os principais pontos da política econômica anunciadas por Trump para trazer para a sua campanha o eleitorado das regiões que sofriam com o desemprego e o desinvestimento do Estado.

Não se esperava, à época, que as conquistas de liberdade individual e empoderamento das minorias fossem questionadas por um candidato a presidente da República e, posteriormente, referendadas pela população em um processo eleitoral.

Fato interessante, e a efeito de comparação, é que a vitória eleitoral de Trump se deu longe dos grandes centros urbanos, que rejeitavam o discurso “atrasado” proferido pelo presidenciável; enquanto que a vitória de Jair Bolsonaro foi majoritariamente nos grandes centros urbanos, perdendo no Nordeste brasileiro. Se não havia uma proposta de geração de emprego e retomada do desenvolvimento, porque as metrópoles do Sudeste e Sul aderiram ao projeto Bolsonaro?

Em primeiro lugar, é importante levar em consideração que a campanha de Bolsonaro, com os seus robôs e apoiadores, modificou o foco das eleições. Deixamos de debater a política econômica do Brasil e as soluções para a grave crise e tivemos que enfrentar nas ruas e nas redes as mentiras e o debate moralista. Como se a turma que lavou dinheiro da JBS pelo seu partido através do financiamento eleitoral tivesse alguma moral para debater a moral e os bons costumes.

Em segundo lugar, é importante levar em consideração que desde 2013 há um processo de criminalização do PT e da política, instaurado a partir da lei da delação premiada, com o combate seletivo à corrupção protagonizado pelo juiz Sérgio Moro e as diversas horas na imprensa dedicadas a massacrar o Partido dos Trabalhadores e Lula.

A criminalização ao PT, inicialmente comemorada pelos principais quadros eleitorais do PSDB, MDB, DEM, logo revirou-se contra eles, e a judicialização da política tratou de enfrentar Renan Calheiros, Aécio Neves e tantos outros caciques da política tradicional brasileira. No entanto, é importante mencionar que a crise foi intensificada com a agenda neoliberal do Governo Temer.

A reforma trabalhista, por exemplo, vem provocando precarização do trabalho e mexeu integralmente em quem já estava incorporado ao mercado de trabalho, enquanto que a fila dos desempregados aumenta a cada dia. Assim como a aprovação da Emenda Constitucional 95, que impossibilita a capacidade de investimento público e utilização de políticas anticíclica durante a grave crise que sufoca o país.

Como Jair Bolsonaro foi favorável à reforma trabalhista e à PEC do teto dos gastos, o que teremos na economia é o aprofundamento da crise econômica e nenhuma solução para a retomada do desenvolvimento econômico e da geração de empregos com direitos. E, além do que já foi realizado pelo governo Temer, há uma tendência de mais retirada de direitos com a reforma da Previdência e a entrega das nossas riquezas com a privatização das empresas estatais.

A ideologia como um mascaramento da realidade, será utilizada em larga escala para esconder o projeto econômico na manta da moralidade, e retirar dia após dia os direitos e a nossa soberania com o discurso falsário de combate a corrupção.

Se no campo econômico o projeto Temer será caótico, a resposta das ruas deverá ser silenciada com a força da repressão e o uso escancarado da Lei de Segurança Nacional. Em recente entrevista ele já anunciou como inimigo interno o MST e o MTST, obviamente por causa da capacidade de resistência e organização desses movimentos sociais.

Teremos uma dura batalha para derrotar nas ruas o que não conseguimos derrotar nas urnas! A democracia brasileira está em jogo, e é fundamental para as próximas gerações que tenhamos capacidade em resistir, criando frentes democráticas contra o fascismo e a retirada de direitos. Muitos dos nossos estão sendo ameaçados, alguns tombaram na luta, e nós não arredaremos os pés da luta, pois é na rua que se constrói a história. Seremos a resistência democrática ao fascismo.

[*] É sociólogo, militante do PT e suplente de vereador de Aracaju.