Aparte
Opinião - Jair Bolsonaro me faz lembrar um certo caçador de marajás
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[*] Adalberto Vasconcelos Andrade

A onda de uma intervenção militar no Brasil já passou, mas na carona desse desejo de uma boa parte da população brasileira o deputado federal Jair Bolsonaro soube melhor do que ninguém tirar proveito da situação e do momento político para vender uma imagem diferente e conquistar a empatia do eleitorado. E parece que sua estratégia está dando certo. Há um bom tempo ele vem surfando no imaginário popular como um daqueles super-heróis da “Liga da Justiça”. No caso dele, seu perfil está mais para o de Superman - em alusão ao seu Superego.

Mas toda essa empolgação ou endeusamento em torno do seu nome como um dos candidatos à Presidência da República me fez voltar ao passado e lembrar de um outro sujeito que, em menos de dois anos saiu do anonimato em que vivia no pequeno Estado de Alagoas e, com seu discurso sensacionalista, conseguiu iludir 35 milhões de brasileiros e vencer as eleições presidenciais de 1989 com 53% dos votos válidos.

Eu estou me referindo ao atual senador e ex-presidente da República Fernando Collor de Melo - o famoso caçador de marajás. Foi sem dúvida nenhuma um fenômeno nas urnas. Em um universo de 22 candidatos, Collor conseguiu deixar para trás nomes tradicionais e de peso, como Leonel Brizola, PDT, Ulysses Guimarães, PMDB, Paulo Maluf, PDS, Aureliano Chaves, PFL, Mário Covas, PSDB, e Luiz Inácio Lula da Silva, PT, com quem disputou o segundo turno e saiu vitorioso com uma diferença de quatro milhões de votos.

Há quem diga que a sua proeza deveu-se ao aval e o total apoio do Dr Roberto Marinho - o poderoso chefão da Rede Globo à época. Fernando Collor assume o comando do Brasil em 15 de março de 1990 com pompa de herói, mas logo seu governo é marcado por uma série de denúncias de corrupção e o sonho de milhões de brasileiros que acreditaram em suas falácias virou um dos maiores pesadelos da história recente do país.

O que aconteceu depois, quem é contemporâneo sabe. Não suportando a pressão do movimento dos caras pintadas, que invadiu os quatro cantos do país - e o Congresso refém da vontade popular -, Collor renuncia em meio a um processo de impeachment e seu vice Itamar Franco assume. Agora, quase 30 anos depois surge no cenário político nacional um novo salvador da pátria - o paladino da ética, da moral e dos bons costumes. 

A situação política-econômica-social da época era muito parecida com a atual. O presidente José Sarney acabaria o governo sitiado pela inflação, pressionado pelo baixo crescimento econômico e envolto pelo clima de descrédito da classe política perante a população. Criavam-se as condições para a candidatura de um nome visto pelo eleitorado como renovador, símbolo de algo novo para o país. O então governador de Alagoas soube sintonizar-se com aqueles tempos e como um enigmático de caçador de marajás, convenceu o eleitorado e venceu as eleições de 1989.

Jair Bolsonaro, como bom estrategista político, tenta repetir a performance de Fernando Collor Melo. Mas como eu já disse aqui neste Portal JLPolítica meses atrás, o problema maior - e perigoso -, é que o capitão militar da reserva do Exército está confundindo o Palácio do Planalto com um Quartel General.

Pessoas com perfil como o dele podem dar certo na carreira militar - até por força da própria hierarquia -, mas para governar um país está longe de ser o candidato com o requisito mais adequado ou ideal para vencer os desafios que o Brasil enfrenta. Mas o voto popular é soberano. Que vença então o melhor nome para assumir o comando da nação - mesmo que esse alguém seja o enigmático deputado Jair Messias Bolsonaro. Vai que dá certo. Mas isso só tempo dirá.

[*] É administrador de empresas, policial rodoviário federal aposentado, escritor e colaborador efetivo do JLPolítica.