Aparte
Opinião - E o amanhã, como será?
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[*] Almeida Lima

No ócio do isolamento social por causa da Covid-19, me surpreendi em reflexões e conjecturas que me levaram a concluir que, no amanhã, não seremos os mesmos.

Ponderei que as circunstâncias atuais, somadas aos efeitos da pandemia, levarão a uma nova ordem mundial a partir de mudanças no comportamento das pessoas, nas relações sociais e de trabalho, no avanço da ciência, da cultura e da economia, no trato com o meio ambiente, no exercício do poder do Estado pela política, até a formação de um novo cenário na geopolítica global.

A história registra que na primeira metade do século passado a humanidade vivenciou os horrores de duas guerras mundiais permeadas pela crise econômica de 1929. Foram acontecimentos trágicos e de grandes proporções que abalaram o mundo e, a partir dali, nascia uma nova ordem mundial.

Antes mesmo do fim da segunda guerra, o processo histórico já sinalizava para essa nova ordem, pois era certo que países aliados na guerra seriam inimigos no pós-guerra. E assim foi.

Os Estados Unidos e a União Soviética lideraram blocos distintos de nações, e uma guerra fria com subjacentes interesses hegemônicos e neocolonialistas se estabeleceu, embora se apresentasse na propaganda oficial com o pano de fundo de um embate contra o avanço comunista no mundo.

É certo que países que aderiram a um dos lados - ou que foram forçados a aderir – tornaram-se satélites subordinados a uma das duas superpotências, impedidos que foram de exercer a soberania, praticar o livre comércio e construir seu projeto nacional de desenvolvimento sob pena de invasão ou de golpes de Estado.

Assim ocorreu com o Brasil, ao ponto ridículo de Juraci Magalhães - servindo de embaixador nos Estados Unidos durante o governo Castelo Branco – ter subalternizado o país ao pronunciar a triste frase “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, aflorando aí o sentimento de cachorro vira-lata que é o complexo de inferioridade do brasileiro, bem definido em frase lapidar de Nelson Rodrigues.

O contrário se deu com países que exerceram a sua soberania e se integraram ao Movimento de Países Não Alinhados - MNA -, como China, Índia, África do Sul, entre outros. Esses desenvolveram projetos nacionais. Adotaram o expansionismo do comércio de duas vias, não patrocinaram guerras, não impuseram o neocolonialismo econômico nem cultural, e não exportaram ideologias.

Já o atual cenário mundial é distinto daquele do pós-guerra. Não há conflitos bélicos, guerra fria, corrida armamentista àquele nível e nem práticas expansionistas ideológicas. Há, sim, a sinalização de uma profunda crise ambiental, econômica, social - por causa do desemprego e da fome - e de incapacidade da ciência de responder, de imediato, a desafios como o presente, com atualidade efetiva.

Deste modo, abomina-se a arrogância imperialista yankee de tentar fazer agora da China a União Soviética do pós-guerra. Nessa nova ordem mundial não há cenário para novo neocolonialismo, nem para uma nova guerra fria com xerife defensor da humanidade.

Diga-se o mesmo dos tupiniquins saudosistas da ditadura, retardatários da história que, sob o manto de um novo perigo comunista, deliram balbuciando o desejo de se tornarem sabujos ditadores representantes de Tio Sam.

Embora os Estados Unidos e a China surjam como únicas superpotências econômicas nessa nova ordem mundial, não há que se falar em dois blocos. Inexistem. E o multilateralismo em todos os sentidos deve ser ampliado, para o bem da humanidade, até porque a China está a se impor é pela cartilha capitalista, e não pela ideologia comunista, cujo produto não consta de sua pauta de exportação.

Que a nova ordem mundial leve o Brasil a construir um grande projeto nacional para “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais”.

[*] É advogado, foi prefeito de Aracaju, deputado estadual, federal, senador e secretário de Estado da Saúde.