Aparte
Opinião - Da fúria colonialista à crise de consciência e o sonho de liberdade
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[*] Antônio da Cruz

Na história da humanidade, onde se narra a vitória pela opressão das armas, ignora-se a narrativa da supressão da liberdade.

A história do continente europeu frequentemente povoa a nossa imaginação, porque o eurocentrismo massificado roubou a cena e foi incutido na nossa formação escolar. A história dos demais continentes ficou no campo da curiosidade, do exótico. Por causa disso, o brasileiro deu as costas para a América Latina, ignorou a África e fixou a memória na Europa e o olhar nos Estados Unidos da América.  

As imagens que nos chegam são fartas em mostrar como o mundo antigo foi colonizado pelo portentoso império romano, que durou cinco séculos. Além de, em quase toda a Europa ele ter deixado suas marcas, o fez também em partes da Ásia e África, nos rincões mais longínquos onde suas legiões alcançaram.

No afã de expansão das fronteiras do império, quanto mais terras, maior a produção agrícola e controle sobre os minérios; quanto mais guerras, maior era a quantificação e qualificação dos exércitos, conquistas de cidades, contribuintes de impostos e mão de obra farta. Assim também se elevava a moral dos generais, das tropas e o orgulho romano.

Aquele foi o modelo ocidental para todos os impérios que vieram após a sua derrocada: a história do conquistador feroz, ávido pelo domínio eterno do mundo então conhecido, forjou toda uma civilização que impôs seus códigos, costumes e língua.

Prédios palacianos e templários, pórticos, piras, obeliscos, monumentos equestres, estatuário dos imperadores, generais, deuses, semideuses são encontrados pelas regiões do então mundo antigo, obras construídas pelas mãos dos servos imperiais. A propósito, os antigos romanos não teriam escravos, mas servos, pessoas subjugadas nas guerras.

O termo escravo vem do latim, slavus ou sclavus, e que, na idade média passou a ser eslavos. Após os germanos (alemães) vencerem os povos eslavos, que hoje formam nações como Polônia, Rússia, Bulgária, Bósnia, Croácia, entre outras, e os tornarem seus cativos, tal denominação passou a ser usada genericamente em relação a todos os subjugados e feitos cativos, como a diversos povos e etnias africanos, trazidos a pulso para os continentes americanos, como mercadorias caras, porém, perecíveis e descartáveis.

Os impérios português e espanhol, entre os séculos XIV e XIX, com o avanço da navegação, proporcionalmente deixaram suas imposições culturais, arquitetônicas e o legado de sujeições colonialistas em diversas regiões, países e cidades do mundo então explorado.

O Império britânico, com o mesmo espírito colonialista feroz, entre 1815 e 1914 igualmente dominou os mares e muitas terras em todos os continentes. Subjugou cidades, povos e se apropriou de suas riquezas, impulsionou o capitalismo financeiro e industrial e para não fugir à regra, exterminou povos.

Tanto a arqueologia quanto a museologia, a antropologia e a história, utilizam como fontes os resíduos dos fatos materializados nos documentos, monumentos artísticos, prediais e sítios. Nos casos em que cidades no passado tiveram seus habitantes banidos ou eliminados por inimigos em batalhas, ou outros embates, também é possível encontrar vestígios e entender as razões para tais acontecimentos.

Se foi por ação catastrófica da natureza que a população pereceu, como terremoto, vulcão, epidemia ou sede e fome, tais fenômenos precisam ser igualmente estudados naquele contexto e dali se tirar lições. O objetivo é valorar a memória como instrumento para o conhecimento, e este como melhoria da espécie humana.

É por demais conhecido o pensamento e suas diversas paráfrases: “Devemos conhecer a história para não cometermos os mesmos erros no futuro”. É impossível ficar indiferente à história, mesmo que se sabendo contada pelo opressor que ergueu monumentos às suas façanhas. É preciso entender que ali foi no tempo dele, sob seu domínio. Hoje, com os recursos da história, se pode acentuar as circunstâncias deletérias e assim se dizer porque tais fatos não devem ser repetidos.

Na Alemanha atual, governo e sociedade fincam pé e dizem com palavras próximas: “Não se deve remover um campo de concentração nazista como forma de condenar o nazismo ao esquecimento. Ele deve permanecer didaticamente como prova de uma página triste e indesejável na história da humanidade”.

Na esteira do tempo, exemplos de atos negacionistas não faltam.  O Estado Islâmico – EI -, surgido no Oriente Médio, nas suas lutas contra os impérios ocidentais da atualidade, demoliu com explosivos algumas construções antigas, sob o argumento de que tais estruturas representavam o ocidente opressor. O EI considerava inconciliável, ali na região, a presença do ocidente no passado e a convivência com seus vestígios hoje. Com o objetivo de estabelecer um estado teocrático, o seu apogeu foi um átimo para quem pretendia se perpetuar. Foi praticamente varrido do mapa pela sua intransigência e intolerância.

O movimento artístico Futurista, surgido na Europa no início do século XX, liderado pelo italiano Marineti, também pregava extinguir os museus e bibliotecas. Tocar fogo. “Nós glorificamos a guerra - a única higiene do mundo - o militarismo, o patriotismo, o gesto destrutivo de quem nos traz liberdade, as ideias belas pelas quais vale a pena morrer, e o desprezo pelas mulheres”, dizia em manifesto.

Segundo o movimento, o futuro deveria ser exaltado e o passado ignorado. Destruído. O que parecia mera metáfora, ou retórica em um manifesto, na vida real logo se materializaria. No decorrer da sua vida, Marineti aderiu ao fascismo, que se sabe do estrago feito por tal doutrina e como o mundo sensato a rejeita.

Na antiga União Soviética, Josef Stalin, “o homem de aço”, ousou apagar das fotos oficiais as imagens dos revolucionários considerados “traidores da revolução”. Entenda-se: quem tinha outra visão para a condução do processo revolucionário. No 20º Congresso (secreto) do Partido Comunista da União Soviética – PCUS -, em 1956, seus diversos crimes foram denunciados pelo secretário do partido, Nikita Kruschev.

No contraponto a todo este esforço de negar o passado, apesar de um Stalin, as revoluções socialistas deixaram os monumentos e prédios intactos nos países onde aconteceram. Desfeito o bloco socialista no leste europeu no fim do século XX, muitos monumentos erigidos aos líderes revolucionários foram derrubados pelo ódio dos adeptos sectários do capitalismo. O socialismo, no entanto, continua sendo um processo de busca, anseio utópico de quem deseja o futuro com paz e progresso entre e para os povos.

Se o assunto é impérios, sobre a África o indivíduo mediano no Brasil pouco sabe da história desse continente vasto e complexo, salvo das atrocidades colonialistas sobre seus povos. Além do antigo Egito, base de muitos conhecimentos para a humanidade, nas escavações arqueológicas vestígios de outros antigos impérios de África negra têm sido constatados. Alguns, como a Etiópia, vieram até o século XX. Outros foram tão grandes quanto ou maiores do que o Egito antigo, a exemplo dos impérios da Núbia e Songai. Muito temos que aprender sobre África.

Os impérios, onde quer que venham a existir, surgem, erguem-se, vão ao apogeu e declinam e morrem. Tudo isto aqui dito tem nada a ver com a exaltação do imperialismo, mas com a constatação de que a perda da liberdade e o aniquilamento de muitos povos se deu pela ação violenta de outros em nome da soberba. 

No impulso da indignação contra o racismo, é o momento de validar o que foi construído por todo o mundo pelo povo preto. Que se registrem as histórias daqueles que resistiram à opressão; ergam-se homenagens aos povos e líderes pretos que conquistaram suas independências no continente africano e aqueles que sobreviveram à diáspora construíndo o progresso de diversos países distante dos seus. 

No Brasil, país de maioria de gente preta, é hora de cobrar a aplicação da Lei 10639/03 que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da presença da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Africana”.

Esta deve ser uma das maiores bandeiras para os pretos do Brasil. Nesta jornada de descolonização, a luta antirracista deve se vestir dos melhores propósitos para que o racismo estrutural entranhado nas relações sociais e nas instituições da república seja um dia banido.  

O foco é construir o futuro. Assim sendo, o passado enquanto alicerce do que se constrói a partir de agora, não pode ser destruído nem menosprezado sob a ingênua crença de que a opressão acabará se se derrubarem seus símbolos na forma de estátuas; que o estigma da escravidão se apagará, mesmo se nos lares, na educação doméstica o ódio racista inexplicável continuar sendo ensinado; que findará o preconceito, mesmo que a neoescravidão esteja no dia a dia dos trabalhadores, com a desregulamentação dos seus direitos sociais e trabalhistas; que as mortes dos jovens pretos cessarão, mesmo que a impunidade policial continue. A luta dos pretos, via de regra superexplorados, é também a luta dos demais trabalhadores fartamente espoliados no Brasil e em todo o mundo.

Historiadores enfatizam a importância dos ciclos históricos para se compreender os altos e baixos das civilizações, assim como o surgimento e a extinção delas e as características das diferentes eras. Esta crise de consciência que, principalmente europeus e norte-americanos ora vivem, por ter se dado conta de o quanto o racismo é cruel, é o início de mais um ciclo importante. O esforço para narrar a história sob a égide da descolonização deve estar associado à luta antifascista e antiescravagista. É possível pôr fim ao atual ciclo de superexploração e menosprezo à vida.

Os impérios não duram para sempre. A liberdade dos povos é cláusula pétrea na constituição da humanidade e assim será sempre mais importante que mercados e impérios. O custo para conquistá-la segue paralelo à existência de todos os governos supremacistas. Assim sendo, constata-se: a luta pela liberdade é perene.

[*] Artista visual, ativista cultural, obstinado curioso da história, membro do Conselho Estadual da Cultura e da Academia de Letras de Aracaju.