
[*] Uilliam Pinheiro
Foi publicado na última terça-feira, 25, o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2019 pela organização Todos pela Educação. O sentimento ao examinar a publicação é de preocupação e alerta com os rumos que a educação brasileira está tomando. Como dito pela deputada federal Tábata Amaral, PDT-SP, em seu artigo publicado no site Nexo em 14 de junho deste ano, a escola pública tem sido um cemitério de sonhos no Brasil, infelizmente.
A razão desse sentimento fúnebre é a falta de visão dos gestores públicos, em todas as esferas, em relação à importância da Educação para o desenvolvimento da cidade, estado e país. A visão compartimentalizada não associa a aprendizagem à capacidade de empreender a vida e consequentemente tornar-se um adulto produtivo, crítico e proativo.
Ao contrário, como podemos observar no Governo Jair Bolsonaro com seus ministros aloprados (Vélez e agora Weintarub) contingenciando recursos significativos das universidades e institutos federais e impedindo, desta forma, o fomento à ciência e à pesquisa e reduzindo os investimentos na educação básica, área esta que reconhecem necessitar de mais recursos.
O Fundeb está “perdendo sua validade” em 2020 e o Governo Federal não tem um plano para garantir a sua continuidade. Não apresenta nenhuma proposta para o debate e nem discute a permanência do fundo. Para se ter uma ideia, segundo o Todos pela Educação, em 1.102 municípios do Brasil, o Fundeb representa na participação dos recursos da educação dos municípios cerca de 80% do total.
Imagine o frio na espinha dos prefeitos, secretários, professores e alunos se esse fundo acabar. Algo que é vital para a educação básica atualmente, não é levado à sério pelo Governo Jair Bolsonaro. Entretanto, para o ministro da Educação, Abraham Weintraub, o que importa é a perseguição ideológica sem sentido e sem nexo algum com a realidade.
O Anuário Brasileiro da Educação Básica 2019 aponta sinais preocupantes, como a falta de oferta de vagas em creches e o fato de menos da metade dos alunos atingirem níveis de proficiência considerados adequados ao fim do 3° ano do fundamental. Por anos, o ensino básico tem sido colocado em segundo plano pelo Governo Federal e priorizado o ensino superior com programas como Prouni e FIES que alavancaram o ensino superior privado, chegando em 2017 a ter 2.152 unidades.
É importante que investimentos ocorram no ensino superior, mas nada adianta se um jovem chega à universidade sem estar plenamente apto nos conhecimentos mais básicos. O custo se torna maior para o Estado, dado que esse jovem terá um processo lento de desenvolvimento educacional levando mais anos para sua formação completa. É urgente que se inverta essa ótica e que o ensino básico seja a prioridade nas formações de políticas públicas estabelecidas pelo MEC. Como também é imprescindível programas de educação que estabeleçam a alfabetização na idade certa.
Em pleno século XXI, as escolas seguem adotando metodologias do século XIX. Cadeiras enfileiradas, professores como detentores do saber absoluto, matérias que precisam ser decoradas, avaliações que não medem o conhecimento real do aluno. É necessário tornar as aulas e as estruturas das escolas atraentes às crianças e aos adolescentes. São diversas as metodologias e experiências disponíveis, com referência inclusive com a gestão pública e em comunidades de baixa renda. Falta vontade política para fazer acontecer.
E nesse cenário sofrível, é preciso olhar para o professor. Há uma narrativa equivocada de que o responsável pelos baixos índices na educação é o professor, um profissional desvalorizado pelos gestores e até pela sociedade. A classe dos magistrados dos profissionais, em sua maioria, abnegados que buscam através dos mecanismos possíveis realizar um trabalho de qualidade.
Segundo o Anuário publicado pelo Todos pela Educação, quatro em cada 10 professores não tinham a formação adequada para o que ensinavam no sexto e também no nono ano do fundamental. Segundo o levantamento, quase 38% dos docentes do fundamental não fizeram o curso de licenciatura ou a complementação pedagógica necessária para ensinar uma disciplina específica.
No ensino médio, o índice chegou perto dos 30%. E um dos motivos para isso, segundo o Todos pela Educação, é falta de condições dignas de trabalho nas escolas públicas e os baixos salários. Enquanto não houver uma verdadeira política de valorização e de formação continuada destes profissionais teremos professores desmotivados e não conseguiremos atrair jovens para a licenciatura.
Na educação, o sinal amarelo está ligado. País que tem visão aposta suas fichas na educação, e temos como exemplos de sucesso o Japão, a Coréia do Sul, a Índia e tantos outros que fizeram essa aposta. Disse o matemático Pitágoras: “Educai as crianças para que não seja necessário punir os adultos”. São vários os desafios e o tempo urge.
[*] É graduado em Ciências Econômicas e ativista social do Mova-SE. Este artigo foi escrito com a colaboração de Camila Godinho.
