Aparte
OPINIÃO - A cidade, o direito de ir e vir e de informação
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[*] Luciano Correia

Pela segunda vez em menos de uma semana, fecharam a avenida Euclides Figueiredo. Não me ocupei em buscar números do tráfego nos nossos principais corredores de transporte, mas creio que a Euclides seja o de maior movimento. Ali, o trânsito é intenso e pesado. Serve ao vai-e-vem de quem sai de Aracaju (700 mil habitantes) e de Socorro (200 mil).

Travar esse corredor é instalar, deliberadamente, um pequeno inferno para uma parte significativa desses moradores. Quando fechada a Euclides, o problema é muito menos de quem mora no local do que da massa de trabalhadores que diariamente cruza esta avenida de uma cidade a outra.

Se a mobilidade é hoje um dos principais problemas das grandes e médias cidades, roubando vidas, tempo, distâncias, segurança, conforto e outros itens preciosos, imagine os prejuízos trazidos quando alguém dá na telha de bloquear grandes avenidas. É um ato criminoso, sem mais nem menos.

Vá lá que os movimentos sociais, nas últimas décadas, na falta de outros instrumentos de denúncia, se habituaram a fechar estradas e ruas das cidades, provocando, igualmente, os mesmos transtornos que me faz chamar aqui esse ato de criminoso. Ao menos nesses casos do passado, estavam em jogo grandes causas da vida nacional, num momento em que nossa democracia, essa jovem ainda cambaleante, precisava de ações afirmativas.

No episódio que me refiro aqui, invadiram e fecharam a avenida Euclides Figueiredo para nada. Ou melhor, para cometer uma molecagem com vistas a produzir esse comichão que infestou a subpolítica, as fake news. Sob o pretexto de que a obra definitiva para resolver um problema histórico de enchentes no local estava atrasada, tomaram o leito da via pública com paus, pedras e pneus e chamaram rádios e TVs para a festa.

Esses foram e cumpriram o roteiro pré-estabelecido: instalaram o espetáculo, bem ao gosto desses tempos circenses, com a desculpa de “dar voz a quem não tem voz”. A premissa - a paralisação da obra - era falsa, embora esses tais veículos não se esmerassem em investigar a verdade.

Não bastasse a produção de matéria jornalística baseada em fatos inverídicos (opaa!, alguém aí falou em conceito de fake news?), o fiasco maior ficou por conta da quantidade de “povo” que fechou a avenida. Não mais que meia dúzia, ou sete. E aí começam as constatações intrigantes.

A primeira delas, a ideia de povo usada como fonte para esse jornalismo em tempos de fake news. E não era só a quantidade, mas a qualidade de quem fez a balbúrdia. Um casal chefiando a cena nas duas edições, acompanhado de gatos pingados de encomenda.

O casal, cabos eleitorais de um radialista que já usou as câmaras e microfones para se anunciar candidato a prefeito, pratica uma espécie de cangaço urbano, com os devidos modos de bandidos. Empolgada com os 15 segundos de glória televisiva, porretes à mão, o par feminino do casal ameaçou o jornalista Elton Coelho, que dava explicações sobre a obra: “Você venha aqui, venha, que vai ver...”.

E pensar que essa gente ainda faz propaganda dizendo que o jornalismo que pratica serve à comunidade na solução dos seus problemas. É triste ver a comunicação, o jornalismo e os espaços virtuais tomados pela proliferação da não-verdade, sem a menor cerimônia e, pior, ainda achando que estão integrados à modernidade.

Mais triste ainda é ver que tem outros que ignoram a verdade, a lei e o respeito à sociedade com atitudes selvagens e irresponsáveis, com fins político-eleitoreiros. Parece que não creem na justiça e nas demais autoridades da nossa terra, a ver pela tranquilidade com que transgridem e desrespeitam. Mas, mais triste ainda é ver esse jornal velho das notícias falsas pautando os canais de TV, aqueles que um dia, de fato, pautaram toda a sociedade.

[*] É jornalista e secretário-adjunto de Comunicação do Município de Aracaju.