Aparte
OPINIÃO - A ressurreição do Rio São Francisco
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Nascente recuperada com ajuda da comunidade em Florestan Fernandes

[*] Helisson Wesley Freitas de Souza

Não é de se estranhar a informação de que o Rio São Francisco agoniza e perde sua força ao decorrer do tempo. No entanto, preocupa a velocidade como isso avança, chegando a ter municípios ribeirinhos onde a população já enfrenta problemas de saúde, pois com o volume reduzido do rio, sua água fica mais salobra e muitos de nós sabemos que o sal é o pior inimigo da pressão arterial.

Mas este não é o único problema. O rio tem sua nascente em Minas Gerais, na Serra da Canastra, e ganha força ao decorrer dos seus 2.863 quilômetros de extensão do leito. Força esta que advém dos seus tentáculos, que são os riachos que também têm suas nascentes.

O rio precisa voltar a ter sua força. Mas temos dois entraves graves que o impede a retomada. Um deles é, sem dúvida, o mais notável por todos, que é a escassez de chuvas, e o outro é a degradação do meio ambiente e o assassinato das nascentes dos seus riachos.

Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas - IPCC, 2014 -, a temperatura global se elevará em até 2º C até o final do século, provocando maior evapotranspiração e menor umidade do solo, o que inviabilizará a agricultura, a pecuária e a piscicultura que hoje, na região Nordeste, já se encontra em quase falência.

Mas com o clima não temos muito o que fazer. Como se diz aqui na região, “é rezar pra Deus ajudar e a chuva mandar”. Se no clima não temos muito a fazer, no meio ambiente temos. Os tentáculos do rio, que em conjunto chamamos de Bacia do São Francisco, estão em completa degradação e suas nascentes hibernam por falta de cuidados da própria população.

Porém neste, nós podemos intervir e ajudar o rio na retomada de sua força com o projeto de implantação de Unidades de Recuperação de Áreas Degradadas e Redução da Vulnerabilidade Climática - Urad. Esse projeto tem dois alvos: melhorar a qualidade de vida da comunidade garantindo a segurança hídrica sanitária e energética e a total recuperação da biodiversidade, solo e água. 

Ao fazer o reflorestamento e proteção de cada nascente dos riachos, nós garantimos água de forma pontual, modificando de forma imediata o cenário biológico. Animais voltam a aparecer, a vegetação começa a se multiplicar, dentre outros.

Com a construção de barragens sucessivas de contenção de sedimento, que são feitas com pedra que conseguimos na própria região ao longo do curso do riacho, nós evitamos que os sedimentos sejam despejados no Rio São Francisco. Esses sedimentos (areia) são o que contribuem de forma bastante considerável para a fraqueza do rio.

Ora, um projeto tão simples como esse, ressuscitaria o rio? A resposta é sim. Ressuscitaria! Mas não é só isso. Segundo o professor dr Valdemar Rodrigues, o maior defensor, idealizador e executor do projeto visando combater as causas da degradação, este contempla módulos produtivos sustentáveis, como apicultura, processamento de frutas, bordados, artesanato, pecuária com manejo e uma agricultura que aplique técnicas modernas de conservação de solos e água, como ILPF e SAF. Ainda segundo o professor Valdemar, duas partes importantes desta estratégia serão:

1 - O envolvimento dos Municípios na execução das ações, o que garantirá a permanência e o futuro das ações implementadas e 2 - A participação integral das populações atingidas na execução das obras, por meio de um amplo programa de capacitação, o que vai garantir nos períodos secos a geração de emprego e renda, reduzindo a vulnerabilidade climática e garantindo melhorias na qualidade de vida desta população tão sofrida.

Importante é que esta ação deve ter uma coordenação a nível presidencial, o que permitirá o envolvimento de vários ministérios na recuperação ambiental, no combate à pobreza, na resistência às secas e no desenvolvimento rural sustentável.

Cada unidade Urad tem um orçamento de R$ 26.683,00 por família, envolvendo comunidades com cerca de 30 famílias, totalizando R$ 800.490,00 por comunidade. Os resultados esperados, em curto e médio prazo, vêm através da geração de emprego e renda, a mitigação dos efeitos da seca e a redução das vulnerabilidades climáticas, além da recuperação ambiental da região, melhoria de qualidade de vida e desenvolvimento de tecnologias de adaptação.

Em Sergipe, numa parceria através do professor Valdemar no Ministério do Meio Ambiente com o DNOCS, aplicamos esse projeto de forma exemplar e eficiente e serve de modelo para todo mundo. Ou seja, o projeto deu certo, precisamos expandir para todas as comunidades dos municípios que fazem parte da bacia do São Francisco.

Com políticas públicas de qualidade e eficiência, não só recuperaríamos os riachos e o Rio São Francisco como também garantiríamos qualidade de vida e geração de emprego à comunidade e por consequência atacaríamos o êxodo rural dos jovens. Este, um dos motivos da miserabilidade nas capitais. Sim, nosso Nordeste tem solução.

[*] É coordenador Estadual do Departamento Nacional de Obras contra as Secas.