Aparte
Carminha Mendonça: “O poder não tem sabor de mel. Mas não é bicho de sete cabeças”
8e051a4447ab32e2

Carminha Mendonça: dever cumprido e cocorotes em Valmir

Na noite da última terça-feira, dia 12, quando o povo de Itabaiana estava sob o impacto da notícia de que a justiça de Sergipe mandara o prefeito Valmir de Francisquinho, PR, retornar à Prefeitura, Maria do Carmo Mendonça Andrade, Carminha Mendonça, PSC, a vice-prefeita que lhe sucedera desde o dia 20 de novembro, tinha um motivo bem mais nobre e humano e menos político com que se preocupar.

Tratava-se da chegada precoce ao mundo de Mariana Mendonça Andrade Virgiano, filha de Daniele Mendonça, médica, e de Samuel Virgiano, advogado - a bebê se antecipou. Mas chegou bem. “É a minha primeira netinha. Ia nascer no final abril, mas chegou às 8h30 do dia 12. Imagine como eu não estava”, diz a vovó vice-prefeita de Itabaiana.

No outro dia, a quarta-feira, mais calma, Caminha fez todo o rito de devolução do mandato para Valmir. Essa senhora de 61 anos, descontraída, passa a impressão de não levar tudo da política a ferro e fogo. Tem boa ironia e uma aparente transigência - impressão, naturalmente, que os aliados de Valmir - ele nem tanto - não faturam. Acham que ela é perigosa.   

“Eu tenho o sentimento do dever cumprido. Assinei o documento e dei ciência do ato muito muito tranquilamente”, diz Carminha a esta Coluna Aparte, para traduzir como repassou o poder para o titular segundo determinara a Justiça.

Carminha Mendonça esteve na interinidade por 93 dias. Ela assumiu o comando da Prefeitura em 20 de novembro e repassou de volta a Valmir no dia 13 de março. Mas, e o poder, é bom, Carminha? “Sabor de mel, não tem não. Porque eu peguei numa situação extremamente desconfortável”, diz a filha do grande Chico de Miguel.

“Agora, também não é bicho de sete cabeças não. Mas arde o juízo. É delicado. Além de administrar o que é dos outros, você é cercado de uma série de leis que ou você as interpreta de uma forma bem sensata ou você se prejudica. Se afoga mesmo. É complexo”, reforça ela, que tem a experiência da Secretaria de Educação de Itabaiana por diversas vezes.

O poder encerra uma complexidade da qual, adverte Carminha Mendonça aparentemente sem nenhuma revanche, o hoje adversário Valmir teria se descuidado. “Se eu pudesse, dava uns cascudos nele. Até pra ver se ele se encontrava mais”, diz ela, entre risos e deixando vazar uma aparente afetividade que havia entre os Teles de Mendonça e Valmir, mas que a política roeu e solapou.

“Ele sabe que penso assim dele. Se merecer elogio, eu dou, sem medo de errar. Eu digo com todas as letras: “Valmir se mostrou excelente gestor, mas é descabeçado”. E ele já me disse: “Eu brigo tanto com essa peste, mas ainda é em quem eu confio”. Eu fui secretária de Educação dele por três anos e três meses e a administração acontecia”, diz a vice-prefeita, referindo-se à gestão passada.

Apesar de rompidos politicamente, Carminha Mendonça evita uma visão de ódio. Fundamentalista. “Nunca fomos inimigos. Ao contrário: eu vejo os filhos dele e os cumprimento. Eles e os sobrinhos me cumprimentam na maior gentileza. O problema é gula pelo poder. O que derrotou Valmir chama-se arrogância. Ele estava fazendo uma gestão muito bem apadrinhada pelo senador Eduardo Amorim e pelo deputado federal André Moura, no sentido de trazer recursos e funcionar a administração, e de repente se sentiu super. Mas não existe superioridade”, afirma ela.

A visão relativamente positiva de Carminha Mendonça sobre alguns aspectos de Valmir de Francisquinho não sinaliza qualquer intenção de capitulação dela perante ele. “Tem coisas na vida das pessoas que a distância é o melhor remédio para que todos vivam em paz. Valmir é mais novo do que a gente e meu pai queria um bem tão grande a ele que muitas vezes fazia-lhe mais confidências do que a nós, os seus filhos. Mas houve distrato moral, que a gente tem consciência plena de que não merecia ter recebido”, diz a vice e avó. “Há um ditado que diz que se cabeça que não pensa, o corpo é que padece”, reforça ela.