Aparte
Opinião - A pandemia da Covid-19 e a falta de um olhar para com o setor produtivo
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[*] Daniel Soares

Iniciamos o mês de agosto com a perspectiva de uma luz no fim do túnel para o setor produtivo em Sergipe. É que após mais de 130 dias de quarentena com a maioria dos estabelecimentos impedidos de funcionar, gradualmente estão todos retornando às suas atividades.

Ainda há muito o que ser feito, é verdade, pois alguns ainda não podem abrir as suas portas. E o saldo de tanto tempo sem produzir será nefasto para muitos empreendedores. Os prejuízos são incalculáveis. 

A análise das ações voltadas ao combate à Covid-19 tem que ser feita por especialistas da área da saúde. Eles que dirão se foram certas e se deram os resultados esperados no sentido de salvar vidas.

Ainda que não tenha terminado esse período atípico em que vivemos, já é possível fazer um balanço de como encaramos essa adversidade que tanto nos atingiu. Um momento histórico que ficará marcado pela falta de um bom olhar do poder público para com o setor produtivo.

Um exemplo disso pode ser entendido no Projeto de Lei 207/2020, que criou sanções em caso de descumprimento das medidas temporárias de prevenção ao contágio da Covid-19.

Aos cidadãos que forem flagrados na rua sem o uso da máscara, será aplicada uma multa de R$ 80. Já as empresas poderão ser punidas com sanções mais leves, como uma advertência, ou mais pesadas, como a aplicação de multa de até R$ 25 mil e a interdição do estabelecimento. 

Obviamente que é preciso estimular a utilização de máscaras pela população que resolve sair às ruas. Os próprios comerciantes estão devidamente preparados para atender todas as medidas necessárias, o que tem causado tranquilidade acerca dessa matéria.

Mas cabe aí uma pergunta sincera, contemplando o lado dos empreendedores: por que é tão mais fácil aprovar uma matéria com teor punitivo do que uma que trate de ajudar os mesmos empresários, tão prejudicados durante esta pandemia? 

Isso nos traz uma reflexão sobre todas as dificuldades impostas às empresas. Logo de cara, a decisão de fechamento quase que total do comércio, quando a pandemia ainda estava em seu início.

Essa medida, que parecia acertada para os mais cautelosos, se mostrou ineficiente, principalmente pelo fato de a população continuar nas ruas. O vírus prosseguiu se espalhando, mas as empresas continuaram impedidas de realizar suas atividades e amargaram grandes prejuízos. Algumas, sequer sobreviveram. 

Outro ponto que precisa ser ponderado é a falta de apoio. Empresas fecharam de vez por não conseguirem produzir e simplesmente não terem a quem recorrer.

Até o momento, não foi apresentado pelo poder público um plano de retomada da economia que ajude tanto os empreendimentos que estão a um fio da falência quanto também aqueles que quebraram e não encontram uma forma de recomeçar.

Deixá-los à própria sorte, como tem ocorrido, trará uma leva de desemprego que vai acarretar em dificuldades sociais a todos. Faltam políticas públicas. Os impostos não deixaram de ser cobrados nos longos dias de quarentena e muitos estão em dívida com as suas obrigações.

Além disso, poucos recursos das linhas de crédito anunciadas chegaram aos empreendedores, principalmente porque muitos já vinham em dificuldades antes da crise e estavam com o nome sujo. Falta pensar nestes empreendedores. Sem entender a dinâmica deste momento, vamos continuar assistindo negócios encerrando suas atividades. 

Está claro que a atenção às medidas de saúde é essencial, mas voltar a visão para economia também se faz imperioso. Se não forem consideradas as dificuldades para o setor produtivo, todos sofrerão com efeitos nefastos à curto e médio prazo. Efeitos estes, talvez até, mais duradouros do que a própria Covid-19.

[*] É jornalista.