Aparte
Opinião – Torturadores não podem escapar intocáveis
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[*] Paulo Roberto Dantas Brandão

Há algum, tempo achava-se que a Lei da Anistia no Brasil foi a mais inteligente possível. Minha visão, àquela época, era que após o período militar havíamos pacificado o país. Todo mundo era alcançado pela anistia, e não se falava mais no assunto, tanto para o bem do país quanto para o bem das pessoas.

E não estaríamos sofrendo, como nossos vizinhos do Cone Sul, os problemas recorrentes de julgamentos e de revolver um passado que deveria ser sepultado. Fui percebendo com o tempo que eu estava enganado. E como estava.

Trago tal reflexão após ler no site da BBC em português uma matéria sobre filhas de torturadores argentinos. Com o título “Meu Pai, o Genocida”, narra a história de algumas filhas de policiais e militares argentinos que participaram da repressão, no período da ditadura militar dali.

Imagine o choque em famílias de classe média quando essas filhas descobrem que seus pais foram assassinos frios, sádicos torturadores, homicidas selvagens mesmo. O que me fez mudar de opinião é que os torturadores daquela época não se mostram arrependidos.

Os pais genocidas da Argentina ainda acham que seus comportamentos bárbaros eram justificados pela luta contra o comunismo. E alguns estariam dispostos a fazer tudo de novo. Já havia ficado com um nó nas tripas quando li “A Casa da Vovó”, do jornalista Marcelo Godoy.

Um contundente retrato do Doi/Codi de São Paulo. É de dar a maior repulsa quando os caras achavam que torturar e matar era coisa normal. Um mero trabalho como outro qualquer. No início dos anos 2000, o general francês Paul Aussaresses (acho que a grafia é essa), escreveu suas memórias e deu entrevistas enaltecendo a tortura praticada na Guerra da Independência da Argélia.

O também general francês Jacques Massu, uma espécie de herói controverso para a França, foi um dos maiores mentores da tortura na Argélia. Aussaresses foi um dos praticantes. Não bastasse tudo que fez, antes de morrer o francês revelou que ensinou aos militares americanos como se torturava, para uso na guerra do Iraque.

E foi mais longe: na década de 70, foi adido na embaixada francesa no Brasil. Sua missão: ensinar aos militares brasileiros a prática de tortura. E o cara achava que fazia um bem a humanidade. Os seus alunos compartilham da ideia.

Ora, quando o presidente da República homenageia o coronel Brilhante Ustra, condenado como torturador; quando a população brasileira, principalmente a classe média, mostra uma paranoia anticomunista; quando a tortura passa a ser implicitamente, se não comemorada pelo menos tolerada, não tem jeito.

Mesmo que os torturadores brasileiros estejam velhinhos, é o momento de responderem pelos seus atos, para que, num futuro, quem queira torturar e matar em nome de qualquer regime político saiba que poderá responder por sua atrocidades no futuro.

[*] É jornalista e advogado.