Aparte
Opinião - Sem medo de ser feliz, ou das razões para o PT disputar Aracaju
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[*] Sílvio Santos

Nesses últimos seis anos, o mês de dezembro tem sido intenso de homenagens ao grande líder político sergipano Marcelo Déda - ele que nos deixou tão precocemente num triste dia 2 deste mês. Seus amigos, correligionários e até alguns de seus adversários mais desprovidos de mesquinhez lhe fazem homenagens exaltando a sua grandeza. E é impressionante que quanto mais nos afastamos no tempo mais percebemos o tamanho de Déda e a falta que ele nos faz.

Especialmente nos dezembros que antecedem as eleições mais saudades sentimos do líder Marcelo Déda. Essa saudade é compartilhada pelas pessoas que se ressentem de um político com seus atributos e mesmo pela classe política que não mede esforço para lincar suas imagens à do saudoso líder.

O saldo do legado deixado por Déda é tão grande que, mesmo depois de ter ganho quatro eleições majoritárias consecutivas no primeiro turno (duas para prefeito da capital - 2000 e 2004 - e duas para governador do estado,2006 e 2010), continua a ser decisivo nos pleitos eleitorais, mesmo após sua morte.

Esse seu legado foi levado aos palanques em 2014 com Jackson, em 2016 com Edvaldo, em 2018 com Belivaldo, e basta ler e ou ouvir os analistas na mídia para perceber que é em seu nome que os principais apelos para 2020 são feitos.

Alguns desses apelos para ter Déda no palanque ultrapassam os limites da sensatez, apostam na falta de memória, atropelam fatos e tripudiam da inteligência alheia. Aliás, como todo apelo, há um quê de desespero de tanto que agridem os fatos.

- Ah, o PT não pode ter candidatura própria porque romperá o bloco formado por Déda - dizem pateticamente as velhas cassandras.

A qual bloco essa galera se refere? Ao de 2006? Esse foi o mesmo de 2010? E o de 2010 se comportou unificado na eleição? Todas as lideranças do bloco votaram e pediram votos para a chapa majoritária?

Quais foram as razões para Déda perder a eleição de 2010 em Aracaju? Esse bloco continuou unido no segundo governo de Déda? Quais as lideranças (assim mesmo no plural) que conspiraram contra Déda na Assembleia Legislativa que o levaram a ser derrotado na votação do Proinvest, deixando-o com minoria naquela Casa parlamentar?

E não me venham dizer que todos que ficaram contra Déda eram do PSC e dos Amorim. Porque Déda não conseguiu emplacar a candidatura de Rogério Carvalho à PMA em 2012? Havia unidade no bloco em torno de Déda para isso? Quem rompeu com o bloco de Déda em 2012?

Senhores analistas, não sei se os senhores são capazes de responder essas perguntas, pois nunca os vi no front onde as coisas acontecem. Então vou fazer perguntas mais fáceis. Poucos foram os partidos que não estiveram em algum momento com Marcelo Déda. Desse tal bloco já saíram PSC, PSB, PDT, PRB e outros menos cotados.

Por que eles saíram e vocês não disseram nada? Só mais uma perguntinha besta: vocês acham que Déda construiu um bloco político, com um programa definido e com princípios ideológicos claros ou o objetivo dele era criar um grupo de amigos? Uma espécie de confraria que se eternizasse no tempo fosse qual fosse a política?

Amigos, tenham juízo, já que lhes falta discernimento. Ainda no final 2015 eu fui um dos primeiros petistas a defender a candidatura de Edvaldo Nogueira para prefeito de Aracaju. Naquela época, Edvaldo andava sozinho, ninguém o recebia e nem o levava a sério. O tal bloco estava rachado entre os que apoiavam Valadares Filho e os que apoiavam Zezinho Sobral. Não lembro de ninguém preocupado com o iminente racha do bloco.

Para os iniciados na política, já era perceptível a avalanche conservadora que vinha mostrando as unhas desde 2013. Os retrocessos nas conquistas que a sociedade obtivera nos anos de governos petistas no Brasil já estavam às vistas na medida em que as elites conservadoras torpedeavam o segundo governo Dilma ao mesmo tempo que procuravam deslegitimar sua vitória nas urnas em 2014.

Na minha visão (e não era só a minha) era necessário rejuntar o campo progressista para enfrentar essa maré que viria e veio no momento seguinte (2016) com o golpe contra Dilma e todo o resto. Era preciso construir uma frente de esquerda que desse conta de resistir.

Apoiar a candidatura de Edvaldo obedecia a essa estratégia. Esse sentimento que no início era individual no PT foi crescendo e suas lideranças foram se posicionando publicamente. Na medida que isso ia acontecendo, a candidatura de Edvaldo foi passando a existir na realidade.

Depois, aqueles que tinham ido para Valadares vieram apoiar. Os que estavam com Zezinho Sobral, idem. Ganhamos as ruas, os corações e, naturalmente, as eleições. O programa era claramente de esquerda e avançado.

Só peço aos analistas que tanto dão pitaco na tomada de decisão do PT que comparem o programa que norteou a eleição de Edvaldo com o que seu governo executa. Talvez assim vocês entendam porque o PT vai ter candidatura própria a prefeito da capital.

Para facilitar o trabalho de vocês, leiam a entrevista recente do deputado Laércio Oliveira ao jornalista Jozailto Lima, aqui deste Portal JLPolítica, na qual ele emite sua opinião sobre os perfis do governo e do atual político Edvaldo Nogueira. Aliás, opinião essa (talvez a única) na qual eu estou de acordo com o deputado.

Não amigos, não percam seus tempos em apelos ou ameaças modorrentas. O PT se recusa a participar de confrarias. Nós somos um partido político com um legado a defender e um projeto democrático popular para oferecer nossa sociedade baseado em políticas públicas libertadoras e inclusivas.

Temos compromisso com o desenvolvimento sustentável da nossa capital, com a desprivatização da Prefeitura Municipal de Aracaju e com um governo que seja para todos, mas principalmente para os menos favorecidos que não podem prescindir do papel do Estado. É por essas e outras que o PT terá candidatura própria em Aracaju em 2020. 

[*] É jornalista, membro do PT de Sergipe e foi vice-prefeito de Aracaju de 2009 a 2012, exatamente na gestão de Edvaldo Nogueira.