Aparte
Opinião - Crônica de um proletário feliz
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[*] Luiz Eduardo Oliva

Às vezes eu ficava pensando: por que Deus me fez Confiança? Sempre busquei as mais diversas respostas: porque o céu é azul, era uma delas. Mas depois olhava para a bola e pensava: o fascínio do futebol é a bola, mas a bola não é azul. Ledo engano. O primeiro astronauta, o russo Yuri Gagarin, ao atingir o cosmos, olhou para a terra e pronunciou: “a terra é azul!”.

Ora, a terra é uma bola. Foi justamente 1961, ano que a história registra a maior goleada do Confiança, que venceu o Itabaiana por 10x1, e que marca também a primeira ida de um humano ao cosmo à bordo de uma nave espacial.

Certamente, com a retumbante vitória do Confiança sobre o “Tremendão da Serra” (treme até hoje depois daquela derrota), a terra mandava os eflúvios azuis para o espaço, radiante que estava com a maiúscula vitória do Dragão. E lá do alto Gagarin, o cosmonauta russo, não pestanejou e disse: “a terra é azul!".

Foi naqueles idos que vi meu Confiança jogar a primeira vez. Eu tinha 6 anos e um tio meu, que era padre, o padre Almiro, juntamente com outro padre, de batina e breviário na mão, me levou para no antigo Estádio Estadual de Aracaju ver o Confiança (anos depois e estádio seria derrubado para construir o Batistão). A primeira vez, portanto, que vi o Dragão jogar já fui abençoado por dois padres!

Naquele dia, vi o maior esquadrão da história da Associação Desportiva Confiança, que depois encantaria o Brasil nos campeonatos brasileiros de 1963 e 1964: Roberto no gol (Cocorote na reserva). Zé Mecânico, Zazir, Ticarlos e Alfreu. Hélio Abacate e Debinha. Jurandir, Beto, Ruiter e Daniel. Um 4 2 4 perfeito!

Ruiter seria o artilheiro do brasileirão da época, desbancando até o Rei Pelé. Para não desmoralizar Pelé em outros brasileirões, foi vendido ao Bordeaux da França depois de passar uma temporada no Santa Cruz do Recife.

Então era isso. Foi tudo isso que me fez Confiança? Ou seja: a terra é azul, o céu é azul e fui a primeira vez ao estádio ver o Dragão jogar acompanhado e abençoado por dois padres, Ruiter seria o artilheiro do Campeonato Brasileiro e o Confiança seria chamado de “o terror do Nordeste, o Dragão que cospe fogo!".

Tudo isso seria explicação, não fosse por outro fator: nasci no ano de 1954 e justamente em 1954 o Confiança foi campeão sergipano, tendo como timoneiro o grande Paulo Lumumba, um sergipano que depois iria brilhar no São Paulo, mas se tornaria ídolo no Grêmio de Porto Alegre. Logo lá, onde predominava a ascendência nórdica, o brilho seria por um nordestino descendente de africanos e oriundo do Confiança.

Portanto, já nem sei as razões do meu amor pelo Confiança. Assim como na vida, na política e no futebol é preciso acreditar. Mas acreditar somente não basta. É preciso também perseverar.

Revendo a história, são tantos outros fatores... Melhor nem pensar, afinal nasci em um ano em que o Confiança foi campeão. Já nasci azul. A terra é azul e meu coração é Dragão que cospe fogo, mas é azul... Majestosamente azul, como majestosa é a gloriosa história do Confiança, que rima com esperança, mas sobretudo com perseverança!

Perseverando e acreditando, chegamos na série “B”, que será apenas rito de passagem para voltar ao lugar de onde nunca devia ter saído: a Série A. A elite do futebol brasileiro.

[*] É advogado.