Aparte
Opinião - Águas: emoção e esperança
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[*] Mário Resende 

Contam-se os dias, nessa segunda semana de maio, em que não choveu copiosamente sobre Sergipe. Para o regojizo de muitos e tristeza de alguns poucos, chuva e água, por essas bandas, ainda são motivos de muitas alegrias.

Apesar do isolamento necessário, das notícias ruins e da pandemia biológica e política que nos assola no âmbito nacional, a abundância de águas, gratuitas e caídas do céu, nos enche de encantamento e de esperança.

Encanto e esperança são sentimentos despertados, ensinados, trabalhados na cultura brasileira de forma tão sútil que não percebemos quando aprendemos e ou quão são benfazejos para vivermos melhor nessa nossa passagem rápida pela redonda terra.

A ação de encantar, ou deixar ser encantado, cativar, se deixar ser fascinado por qualidades, cores, sabores, sonhos, artes, ideias, talento, inteligência, simpatia, bondade, beleza, vida, etc... exige uma boa dose humana de esperança.

A crença, o desejo, o sentimento que acredita ser possível, mesmo nas situações adversas, concretizar a esperança, inicia-se na emoção. A força interna que pode mudar a história através do movimento foi grão de alguma emoção lá no início.

Emoção e esperança são iguais à chuva: surpreendem. Precisam cair de todos os lados, varrer a sujeira e a poeira do tempo, destravar caminhos, mesmo que, para isso, derrubem árvores, rochedos e/ou façam descer toneladas de terra das encostas.

O movimento das águas desperta e alimenta, mas, pela força de sua correnteza, também leva o que a segura nos baixios, ensinando, como se deve, aos que o observam. As águas, por missão, lavam sujeiras, levam estorvos, fecham ou abrem veredas, caminhos, valas, aumentam o volume dos rios, mudam a cor, a temperatura e o espírito da paisagem no tempo. O que devemos aprender com tudo isso?

Veja bem, tudo está aí na natureza: medo, alegria, pavor, bondade, rancor, burrice, inteligência, ternura, ódio, perdão, raiva, ou seja, as valas por onde correm as águas humanas são muitas, variadas, trágicas, profundas, infinitas.

Devemos aprender com as chuvas, que descem gratuitamente de norte a sul, leste a oeste, ou de diversas formas, em sentidos contrários, sem parar no meio do caminho, para cumprir sua finalidade primeira e mais importante desse movimento eterno da natureza: alimentar, fortalecer e esperançar, sem distinção, os entes que estão vivos.

Os sentimentos que desbotam a esperança e o encanto, nos humanos, precisam das mesmas águas e de sua fúria para ser recolhidos e depositados de volta à natureza. O ciclo das chuvas, suas correntes e limpezas, nos faz lembrar Fernando Pessoa e seu poema “Mandado de despejo aos Mandarins do Mundo”.

Diz-nos o poeta que os aristocratas de tanga de ouro, os frouxos que fazem pouco da vida, os radicais do pouco, aqueles que estão aí, para apodrecer a vida, e são muitos e diversos, quando muito serão estrume para o futuro. Ora, ora, não é o que nos ensina esse momento das chuvas?

O movimento amoroso das águas que nos faz ser vida, humanidade e arte nos leva a louvar e a observar na sua força que toda matéria orgânica varre, que, no recolher de tantas fúrias sem vida, sempre haverá resistências das matérias mortas.

[*] É professor da Universidade Federal de Sergipe - UFS.