Aparte
Opinião - O dia em que Déda chorou na eleição de 2004!
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[*] Rômulo Rodrigues

Em dezembro de 2003 encontro Max Prejuízo numa plenária no Sindipema e iniciamos uma conversa conspiratória. Como bom provocador, cutucou-me: “E aí, professor Rômulo, vai continuar esse marasmo político em 2004, com Déda ganhando por WO? Você não vai fazer nada?”.

Pego de surpresa, mantive a calma, mas retruquei: “Que nada, Preju. Tenho um plano em mente que vai mexer no emocional de Déda”. “Qual?”, perguntou-me ele, na lata. “Ainda não é hora, espere”.

O plano, que comecei a pensar, levei adiante nas conversas que fui tendo com Luiz Alberto, José Costa, Sílvio Múcio e o próprio Nilson Lima, o grupo de amigos mais fiel em torno de Déda.

A tática era a de lançar o nome de Nilson Lima candidato a vice-prefeito no lugar de Edvaldo Nogueira, justificando que Déda deixaria o mandato 15 meses depois e a Prefeitura Municipal de Aracaju sairia do comando do PT.

Elaborei um documento no qual dizia que o PT ganhou a eleição de 2000 e começou a governança de Aracaju com hegemonia no secretariado, com exceção da Secretaria de Governo, que ficou com o vice Edvaldo, em 2002 abriu o leque por causa da candidatura de Zé Eduardo a governador e em 2006 entregaria a PMA integralmente ao comando do PCdoB – que era a sigla de Edvaldo.

Só para avivar sua memória, Jozailto Lima: no desfile do Caranguejo Elétrico no Pré-Caju, na zona dos mercados, você me perguntou se tinha “alguma novidade” e eu apontei para Déda e Valadares, e disse-lhe: “Olha ali a chapa da reeleição”.

Você publicou na coluna Cinformando e quem levou o tranco foi o velho Elber Batalha, meu cúmplice na trama, por ser o primeiro suplente de Valadares. Meu documento enfureceu Déda, que pediu uma reunião da Executiva Municipal, com minha presença, para dar explicações.

Lembro-me que à reunião João Tarantela, pré-candidato a vereador, teve o acesso negado e saiu furioso. Déda veio de cara me acusando: “Você me apunhalou pelas costas! Além de criar uma tese, associou a ela o nome do meu amigo, compadre e secretário Nilson Lima. Na política isso é mortal”.

Retruquei: “Você e Zé Eduardo já foram alertados por mim que se me deixarem fora das discussões eu atropelo. Foi o que fiz, e ponto final”.

No dia 5 de junho daquele ano, Zé Eduardo veio do Rio de Janeiro para uma reunião da Articulação Raiz e o vulcão entrou em erupção, com Nilson rompendo com Déda e entregando a Secretaria de Finanças. Quem mediu a temperatura foi Luiz Eduardo Oliva.

Pela manhã, eu estava em Pedrinhas acalmando as coisas e Rafael, meu filho, me ligou dizendo que Ana Cunha, a secretária de Déda prefeito, estava me caçando.

Vim embora e antes de ir para casa passei no Bar Caminho de Casa, onde encontrei Francisco Gualberto e Osvaldo Nascimento, que me puseram a par das coisas.

Chegando em casa, fui descansar e avisei: “Não estou para ninguém e só me acordem para ver o jogo do Brasil e Chile, pelas eliminatórias, às 22 horas”.

Lá pelas 20 horas, Rafael me sacode e diz: “       Pai, acorda que ninguém está ao telefone querendo falar com você”. Claro: era Déda, espumando.

Antes de eu sequer dizer um alô, veio a artilharia pesada: “Você quer acabar comigo. Hoje perdi um grande amigo e compadre, e você vai ter que consertar o estrago que fez. Vá atrás de Nilson, que eu quero ele de volta”, berrava Déda, em cólera.

Só fiz lhe dizer: “Vou, mas fique perto de telefone e atenda quando eu ligar”. Ato contínuo, dirigi-me até o condomínio onde Nilson morava e fui informado pelo porteiro de que ele tinha viajado com a família para o interior da Bahia.

Na volta para casa, a surpresa: minha esposa tinha ido assistir ao filme “Diário de uma Motocicleta” e foi logo me dizendo: “Encontrei com Nilson e Aninha”.

Foi só pegar o telefone e liguei para Nilson. Diálogo difícil no início, mas aceitou ir lá em casa. Conversa longa, e ele também aceitou conversar com Déda e deu-me carta branca para organizar o encontro.

Na presença dele ali em casa, liguei para Déda e falei que estive com Nilson e que ele aceitou conversar e que eu ia reunir o grupo na segunda, e lhe pedi que guardasse a terça para a pajelança.

Dito e feito: na segunda almoçamos no Bar do Galego, na 13 de Julho, eu, Nilson, Zé Costa, Luiz Alberto e Sílvio Múcio e concordamos em fazer a pajelança na terça no Arrumadinho do Bairro Industrial. Proposta aceita, almoço aconteceu, com todas as questões expostas e tratadas.

Após umas três horas de embate no Arrumadinho, veio veredito final de Déda: “Vocês façam o que quiserem, mas eu mantenho a minha preferência por Edvaldo”.

As minhas últimas palavras ali foram: “Você está fazendo o contrário do que São Francisco pregava. São Francisco disse: é dando que se recebe. Você está praticando o é dando que se perde tudo. Você vai ser o responsável por alijar o PT da Prefeitura de Aracaju”.

E foi aí que Déda chorou! O ato final foi no Bar do Luiz, onde eu, Nilson e Gualberto concluímos que não dava mais para insistir. E assim se deu!

[*] É sindicalista aposentado e militante político.