Aparte
Opinião -  Vamos acabar com o BNDES?
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[*] Milton Andrade

Talvez você faça parte do grupo de pessoas que acreditam que o BNDES é importante para a economia e para a geração de empregos.

Talvez você ache que todos os escândalos e mau uso do dinheiro público sejam apenas um problema de os bancos estarem sendo geridos pelas pessoas erradas.

Que assim que colocarem pessoas responsáveis e honestas à frente, todos os problemas serão resolvidos. Se você pensa assim, esse texto é pra você.

Vou começar lhe contando que o próprio criador do BNDES, o economista Roberto Campos, morreu arrependido de sua criatura. Em seguida, vou lhe contar como funciona o BNDES.

É importante ter sempre em mente que o BNDES não fabrica dinheiro. Que o pega de todos nós, ricos e pobres, para, em seguida o entregar, em forma de crédito subsidiado, para as empresas escolhidas por eles.

Que empresas são essas? Geralmente, as que possuem algum lobby no governo. O dinheiro do BNDES vem de toda a população, via FGTS, PIS, Pasep, Tesouro Nacional e outros aportes governamentais.

O banco pega esse recurso e o empresta, bancando parte dos juros, para os empresários que os políticos acham que merecem o investimento. E claro que os critérios acabam sendo duvidosos e/ou dando margem para escolhas esdrúxulas, ao gosto do governante que esteja no poder.

Foi assim que, durante os governos petistas, o nosso dinheiro foi parar em obras de infraestrutura de Cuba, Venezuela e Moçambique, países que não se contentaram apenas com os subsídios do crédito, e ainda nos deram um calote de R$ 14 bilhões.

E também foi assim que nosso dinheiro escolheu campeãs nacionais que hoje estão bem encrencadas na Justiça, como JBS, EBX, Odebrecht, Oi, OAS, e outras empresas com forte lobby entre os políticos. 

Mas não é só tirar o PT que resolve. A lógica do BNDES faz com que as empresas prefiram agradar os políticos do que os clientes, pois é de lá que sai a maior parte do recurso.

A lógica do BNDES também desequilibra o mercado, uma vez que fica bem difícil competir com uma empresa que tem uma vantagem dessa. Uma vantagem artificial, criada por ter uma boa relação com políticos, e não por oferecer bons serviços aos clientes.

Quantas empresas alimentícias puderam competir em pé de igualdade com a JBS, por exemplo? Se você passar na sessão de carnes de qualquer supermercado hoje, verá que o BNDES criou praticamente um monopólio nesse setor. Isso é bom pra quem?

O dinheiro do BNDES sai do seu bolso. A diferença é que, em vez de você gastá-lo como achar melhor, o governo cria um intermediário, para escolher como esse recurso deve ser gasto.

Quem escolhe melhor o destino do seu salário? Você ou os políticos? Se o BNDES não existisse, o dinheiro que está lá hoje não sumiria. Ele apenas seria aplicado em outras coisas. Podia ir para as áreas essenciais, como saúde, educação e segurança. No melhor dos mundos, poderia voltar pro bolso das pessoas, de onde nunca deveria ter saído.

Se o dinheiro ficasse com você, talvez você preferisse gastá-lo não em carne da JBS, mas em macarrão de alguma outra empresa. Ou prefira economizar para colocar seu filho num curso de inglês, ou ir mais ao cinema, comprar roupas.

Enfim, a economia seria movimentada da mesma forma, e empregos continuariam sendo gerados, mas não mais nas empresas e setores escolhidos pelo governo.

Até porque, planejamento central nenhum é capaz de calcular tudo o que todas as pessoas de um país gostam ou precisam. Quem sabe de sua vida é você, e as empresas devem ser remuneradas pelos clientes que escolheram pagar pelos serviços delas.

Você quer menos lobby com políticos, menos impostos, concorrência leal entre empresas “amigas” de políticos e empresas comuns? Então, vamos fechar o BNDES?

[*] É empresário e advogado, com pós-graduação em Direito Tributário.