Aparte
Opinião - Tropeçando nos pedaços da história
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[*] José de Almeida Bispo

Há 20 anos que, motivado pela necessidade de abastecer um site na internet sobre Itabaiana, a minha cidade, mergulhei na história desta, e por extensão na história de Sergipe, donde, também mais penetrei na história do Brasil e do mundo, à medida que fui puxando documentos da gaveta do tempo e me maravilhando com o roteiro não programado da lida humana, daqui e de algures.

Definitivamente, sou apaixonado pela história do meu lugar. Pela ordem: da minha cidade, meu Estado, meu País, meu continente... Minha bela e única bola azul, a quem vulgarmente chamamos de terra. Planeta terra. Vira e volta, cá estou eu no meio dela; vivendo-a, emocionando-me.

Depois de 20 anos de leituras, um rio não é mais um rio qualquer. Uma estrada, uma serra, colina, morro, praia... Tudo isso encerra história, dramas e ou tragédias humanas; que eu os ouço dentro minha cachola, ao ler, com a mesma expectativa, quase volúpia com que ouvia madrinha Candinha, Dona Zefa de Zé Marcolino, Dona Maria de Tereza, Seu Pedro de Aprígio, Seu João Caboclo, e meu tio Vito... para encurtar a lista, que juro é quilométrica, de todos que me contaram histórias e estórias aos meus receptivos ouvidos infantis, dos meus seis a 12 anos.

No dia 7 deste corrente janeiro deste 2020, ano jubilar para o Estado de Sergipe e nós, os sergipanos – 200 anos de Emancipação -  em companhia de uma equipe da TV Aperipê, a coletar material para produção de um especial sobre o ciclo da gado, e em comemoração aos 200 anos de Emancipação de Sergipe, acabei me detendo, mais uma vez, diante do teatro vivo da história, da nossa história: além da primeira versão local do “Caminho do Sertão do Meio”, ou a primeira estrada das boiadas da história do Brasil - ressalte-se, para o abastecimento do recôncavo baiano e a região açucareira do Pernambuco - uma das únicas fazendas de criar gado - denominadas apenas de currais, à época - ainda existentes em Itabaiana e fazendo o mesmo que têm feito há 400 anos. Fica ela a poucos metros do Shopping Peixoto (1,8 Km), do Loteamento Le Corbusier (1,5 km), do DII - Distrito Industrial de Itabaiana (1,2 km) e da Cerâmica Mandeme (1,1 m). E já estava no mesmo local quando Georg Marcgraf passou com seu pessoal, em 1637, medindo todo o Sergipe holandês, que resultaria num belíssimo mapa de Sergipe, de idem coleção, publicada na Holanda em 1646.

O mapa holandês também aponta um engenho de açúcar com moenda movida a bois, "sem igreja", a 1,2 km a oeste, próximo à curva do riacho Camadanta. Era a modalidade da época, obviamente, onde não dispunha de roda d’água.

Certamente devem ter existido por pouco tempo: curral e engenho. No caso do primeiro, ao menos em relação à localização, encontra-se outro, atual, numa área aproximada onde fica pequena manga. Já a fazenda de gado em si, permaneceu com idas e vindas durante esses quatro séculos, mas sempre ocupado na mesma atividade de pastagem.

A sergipanidade começa a nascer aqui

Outro local onde visitamos foram as ruínas da Igreja Velha. O templo, construído por criadores itabaianenses dos primeiros 30 anos da colonização de Sergipe, e nunca efetivado por dissenso com a Paróquia de Nossa Senhora da Vitória de São Cristóvão – a primeira de Sergipe – é emblemático ao Ciclo do Gado, tal qual a Torre de Garcia D’Ávila, no Município Mata de São João, Bahia. São as duas únicas construções ainda existentes do primeiro ciclo econômico brasileiro. De fato, a Igreja Velha é o mais antigo traço dessa fase brasileira, uma vez que o forte somente foi começado em alvenaria depois de 1712, 80 anos depois; antes era uma torre de pau-a-pique, aos moldes comuns à época.

A Igreja Velha é também um emblema da sergipanidade: foi o ardil tomado pelos curraleiros, em 5 de novembro de 1656, para invadir São Cristóvão, supostamente contrariados com o pároco, o padre Sebastião Pedroso de Góis; mas de fato um grito de protesto contra a bitributação do gado imposta pela Câmara Municipal de Salvador. A rebelião, com epicentro na Itabaiana (a região; ainda não existia a cidade), uma vez que maioria dos implicados nela residia ou tinham propriedade, todavia, contou com a presença de criadores do Lagarto (ainda não existia a cidade) e da própria São Cristóvão.

Reforça a tese de que foi uma revolta contra os impostos a série de cartas trocadas entre a Capital da colônia, Salvador, e São Cristóvão, antes e depois, assim como o fato do maior apenado no processo que se seguiu ter sido o próprio governador da capitania, o capitão-mor Manuel Pestana de Brito, morador e criador na Itabaiana, além de dois dos habituais cinco vereadores de São Cristóvão e alguns oficiais da polícia. A Rebelião dos Curraleiroso, a despeito de pouco restar de documentação acerca dela por destruição, classificável de criminosa, neste mesmo pouco restante se comprova ter sido o episódio da mais alta relevância para a formação da sergipanidade. As punições foram impiedosamente pesadas e, na maioria, injustas (o tão em moda atual “lawfare”) à nascente nobreza sergipana, com isso atrasando seu desenvolvimento e a afastando para sempre do consentimento à tutela baiana.

E Sergipe entrou em estado de latência por 164 anos, à espera de um rei traído por orgulhosos e prepotentes súditos, e deles querendo vingança; quebrando-lhes as pernas ao retirar-lhes um terço das rendas.

[*] É pesquisador e historiador, membro da Academia Itabaiana de Letras, cadeira 27, patronesse Maria Thétis Nunes