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Aparte
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Jozailto Lima

É jornalista há 36 anos, tem formação pela Unit e é fundador do Portal JLPolítica. É poeta.

O trator de Cid Gomes, o balaço no peito e a morte vexaminosa do Estado
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Cid Gomes: um bravateiro abusado que mancha a democracia e a camisa de sangue

Independentemente do resultado fatal, que foi o tiro num senador da República – dizem que lhe acertou o peito - é uma mancha sangrenta na camisa exposta para o Brasil, a democracia não referenda, não acolhe e não permite retroescavadeiras contra trabalhadores em greve, em manifestações, como fizera nesta quarta-feira o senador do Ceará Cid Gomes, PDT.

É seguro e pertinente dizer, também, que a boa democracia não referenda, não acolhe e não permite balaços no peito de autoridades e nem de cidadãos comuns e trabalhadores em manifestação. Seja lá qual for a categoria à qual pertençam esses trabalhadores.

O resultado da cena do tiro no senador Cid Gomes na tarde desta quarta-feira, 19, em Sobral, no Ceará, - apesar de ter acertado o peito, não teria sido em local letal - excede vergonhosamente em equívocos. Em vexames. Em pantomimas populistas.

E, por mais constrangedor que possa parecer, a maior parcela de erro nesse fatídico episódio está no baleado - não que esta Coluna seja defensora de que se deva balear todo e qualquer reativo a manifestações sociais Brasil afora, Ceará a dentro. Longe disso.

Mas por que é humanamente imprudente a imagem de Cid Gomes, um homem que já foi governador do Estado do Ceará, sobre uma retroescavadeira, atentando contra centenas de policiais fardados e amotinados na entrada de um Quartel da PM de Sobral.

Onde já se viu, com que autoridade e com que grau de imprudência, um homem público subir num trator e marchar, na força bruta, para arrebentar o portão e o gradeado de ferro de um quartel de PM, no interior do qual estão aquartelados centenas de policiais armados, como o fito de dissolver uma manifestação mantida por eles?

Isso é insuportável. É uma bravata para lá de irresponsável. Para lá de inaceitável e, sobretudo, inconsequente. Abusiva e arbitrária. As imagens do ato de Cid, o tiro anônimo, o vidro da retroescavadeira se estilhaçando e o atingido com a mancha de sangue na camisa no centro de seu ato tresloucado depõem feiamente contra esse político.

Antes de marchar montado na retroescavadeira para cima dos policiais – uma imagem não vale por mil palavras? -, Cid, que está licenciado do mandato de senador, já havia insultado os manifestantes com um megafone em punho, dando-lhes ordem e prazo exíguo para que saíssem do encastelamento. Uma autêntica cena de alguém brincando com fogo e com um balde de gasolina pendurado no pescoço - essa foi a protagonizada pelo esbaforido Cid Gomes.

Ora, ao fim de tudo, cabe a elementar pergunta: quem Cid Gomes pensa que é? Ele é autoridade da polícia judiciária, um promotor de justiça, um magistrado ou apenas um bravateiro de sangue e DNA quentes, como são os Gomes de um modo geral?

Que fique bem claro, cidadão Cid Gomes, que a democracia não referenda e nem permite retroescavadeiras contra trabalhadores em greve - sejam elas pilotadas por senador, presidente de República, homem comum ou mesmo sob comandos eletrônicos.

É bem provável que a Polícia do Ceará esteja exorbitando em sua greve. Em sua ação de sequestro de viaturas policiais para manifestações públicas. Mas não é passando o trator por cima que vai se eliminar os abusos dela. Jamais.

O trator de Cid Gomes é uma certificação desastrosa, constrangedora e intolerante de que o Estado faliu. Está nu e morto. Ou, no mínimo, com uma bala no peito e uma camisa ensanguentada. Desse Estado, Cid Gomes, as gerações presentes e futuras querem se ver livres.