Aparte
Opinião - O que mais posso fazer? Só agradecer, Amaral Cavalcante
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[*] Elton Coelho

Poeta, ator, escritor midiático, jornalista, editor, produtor cultural, inteligente, humano. O que mais posso falar sobre o cidadão simãodiense Amaral Cavalcante, em sua deslumbrante passagem por este plano, durante 74 anos? Pra mim, o Amaral foi um sopro de luz profissional e um amigo de tantas horas. Um quase pai do meu jornalismo.

No meio da década de 80, entre 83 e 85, dei alusão à escrita em textos sobre a política brasileira e ao cotidiano de Aracaju e de Sergipe. Vivenciava o fim da ditadura militar e o início da democratização do país.

Precisava reverberar minha ânsia e o conhecido semanário Folha da Praia foi quem me abriu as portas. Lembro-me com riqueza de detalhes da extrema alegria ao ver meu primeiro artigo ser publicado e reverenciado pelo editor que eu nem conhecia num jornal tão lido pela intelectualidade sergipana. Era ele, Amaral Cavalcante.

Perspicaz, atento e sabendo lapidar o material bruto que se aproximava da Folha (ou do Folha, como chamávamos), Amaral já tinha em suas fileiras tantos outros honrosos colaboradores e de textos impecáveis como Hugo Costa, Luiz Eduardo Costa, Luciano Correia, Barbudo’s, Jorge Carvalho, Fernando Sávio, Carlos Cauê, Marcos Cardoso, Zenóbio Melo e políticos neófitos que também exalavam as tintas no semanário, como Marcelo Déda, Antonio Samarone, Marcélio Bonfim e mais e mais.

Nesse meio termo cheguei à Folha e, num momento em que quase fui expurgado pela então secretária, pois estava acostumado às publicações e até exigia suas postagens, foi o poeta que me repatriou e trouxe de volta.

Fez-me aprender a elaborar o jornal, aprontar a “boneca” da Folha, junto com Antonio Passos, Guga Oliveira, Clóvis Bonfim, Edson e também chegar à condição de repórter, entrevistador, colunista do “Senadinho”, assinada por mim, além de vendedor de páginas políticas (as famosas entrevistas), e espaços comerciais.

Aprendi muito. Foi a Folha da Praia minha primeira e grande universidade, aliada ao estudo acadêmico na então Faculdades Integradas Tiradentes - FIT’s -, na rua Lagarto.

Dali, atirei-me ao mundo do jornalismo já tendo aprendido com a matriz Folha da Praia as correções e orientações, e muitas vezes mal humoradas, do editor Amaral. Um professor, articulista e antenado. Ali mesmo fiz “minha régua e compasso”.

Hoje, 7 de julho de 2020, perdemos o poeta, o exímio escritor de crônicas tão bem pinçadas, costuradas e douradas do cotidiano dele e de nossa gente. Perdemos o intelectual promissor, cuja estatura maior se deu há poucos anos com sua ascensão à Academia Sergipana de Letras.

Mas perdemos o humano, a figura agradável, de paladar amigável florescedor, que juntava cacos de brigas e afagava a todos nós com flores, risos, humor inteligente e sarcástico. O que mais posso fazer, Amaral Cavalcante, a não ser agradecer pelos seus ensinamentos e proeza cultural?

Vá em paz, poeta, amigo, imortal, sabendo que sua honrosa passagem frutificará por anos e anos de uma geração promissora que está aí bebendo de sua sabedoria e convivência. Foi a hora da sua partida, tristemente, para então nos encontramos mais além. Valeu, poeta!

[*] É jornalista, historiador e colaborador do semanário Folha da Praia.