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Aparte
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Jozailto Lima

É jornalista há 36 anos, tem formação pela Unit e é fundador do Portal JLPolítica. É poeta.

Opinião - Bolsonaro: jogador de pôquer ou de roleta russa? 
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[*] Márcio Macedo

Depois de rever com muita atenção o pronunciamento de Jair Bolsonaro, de ver a cobertura jornalística, os comentários, as análises políticas e sanitárias de diversas matrizes políticas, ideológicas e científicas, fiquei ainda mais perplexo. Por que Bolsonaro fez aquele pronunciamento? Por quê?

Por que é um psicopata, irresponsável e não tem qualquer condição de ser o líder da maior democracia dos trópicos, da maior economia do cone sul? E não tem autoridade política e ética pra liderar um país continental como o nosso num momento de crise como esse? É bem provável.

Por que Trump, seu líder inspirador, tem uma posição parecida com a que ele reverberou? É possível. Poderia ser pela evidente mudança de linha editorial da Globo? Pode ser.

A imprensa ensaiando um discurso preocupado com uma saída para crise, com alcance social, com preservação da economia, tomando-lhe, eventualmente, o discurso que, em tese, seria dele, para depois o responsabilizar pela quebra do país e expor o total fracasso do projeto neoliberal entreguista de Bolsonaro/Guedes/Moro? É bem factível.

Teria sido por causa da impopularidade alta, dos crimes de responsabilidade praticados e evidenciados e dos ataques às instituições democráticas que culminam com um processo crescente de possibilidade de impeachment do chefe do clã dos Bolsonaro? É crível. 

Jair Bolsonaro parece ter percebido a possibilidade desses movimentos, e se antecipou. Percebeu rápido que o cenário mundial pode mudar e alinhou o seu relógio ao de Trump. Criou um fato político.

Será que queria ele sinalizar para uma suposta base social a ser reconquistada e/ou conquistada de grandes e médios empresários, comerciantes, pequenos empreendedores, vacinando-se de uma futura quebra de negócios, fechamento de empresas, de pequenos e micro negócios, perda do comércio, mercadorias e desemprego em alta escala? É presumível. 

Bolsonaro está lendo os fatos a seu modo e sendo irresponsável, é bem verdade, com o povo e com a nação. Mas fazendo política, falando para pessoas que já estão vivendo a realidade das perdas com a paralisação da economia. 

O ambiente social poderá ficar rapidamente difícil, e o vírus do desespero é tão rápido e letal quanto o do coronavírus. Bolsonaro está jogando combustível nesse fogaréu. Ele aposta que o desespero coletivo possa levar o povo às ruas para apoiá-lo, inclusive com medidas de endurecimento do sistema. 

No seu pronunciamento, Bolsonaro antecipou-se em apontar os possíveis culpados por uma provável queda da atividade econômica: a imprensa, os governadores e prefeitos que estão protegendo as fronteiras, bloqueando estradas, monitorando aeroportos e portos, fechando o comércio. E faz para, assim, esconder o total fracasso do seu desastroso governo. 

Bolsonaro está transferindo a responsabilidade para outros da cobrança que fatalmente chegará a ele nos próximos dias quando não houver salário, quando as contas chegarem para ser pagas e as pessoas não tiverem dinheiro para efetuá-las. Sim: quando a revolta popular aparecer. 

Bolsonaro vem ensaiando esse discurso, testando os limites da sociedade, usando o método científico de tentativa e erro. No pronunciamento à nação nesta última terça-feira, 24, definitivamente, verbalizou isso, sem arrodeio, em cadeia de rádio e televisão. Apostou alto.

Bolsonaro sinaliza para o imaginário coletivo que ele se preocupa com a economia, com o desenvolvimento do país, com o emprego, com a fome do pobre, com os pequenos, médios e grandes empresários. Menospreza o coronavírus, sua proliferação e as consequências para a sociedade. Quer sinalizar que é um super homem pronto para enfrentar o vírus e proteger a sua gente e o seu país. Trabalha para ganhar o senso comum. Um blefador no jogo de pôquer.

Bolsonaro foi treinado para guerra. Ele só sobrevive no conflito, não tem nenhuma preocupação com as pessoas e nem com o país. Agiu como o animal político que o orienta, como os fascistas fazem para se manter no poder. Como chefe da nação, estadista, ele foi o que ele é: medíocre, pouco preocupado com o conjunto da população, com as presentes e futuras gerações. 

Jair Bolsonaro está se movimentando no tabuleiro político para se manter no poder, derrotar os setores democráticos do país, se eximir de qualquer culpa pelo fracasso do seu governo, elegendo inimigos públicos como é o receituário clássico do nazifascismo, sem qualquer preocupação com as mortes em massa que poderão acontecer no Brasil. Um jogador de roleta russa.

[*] Vice-presidente Nacional do PT, biólogo, professor e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.