Aparte
Opinião - Jair Bolsonaro e a porra da árvore
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[*] Lelê Teles

O arquiteto de ruínas que nos preside disse, para o horror das senhorinhas que jantavam durante o jornal, que o interesse estrangeiro pela Amazônia não é “na porra da árvore”.

A frase é horrível, grotesca e mal-educada. Mas eu, que não sou coroinha, vou tentar salvá-la, fazendo uma digressão.

Não é preciso dizer que o Capita grosseirão errou feio de novo. Os estrangeiros sempre tiveram interesse “na porra da árvore”. 

E essa porra se chamava látex, e escorria em abundância pelo pau das seringueiras, para delírio da gringaiada. Era uma espécie de White Shower do século XIX.

Tudo começou quando o senhor Goodyear inventou a vulcanização, fazendo da borracha a matéria prima para diversos itens que iam de pneus de automóveis à sola de calçados.

Foi aí que o Brasil lavou a égua, tornando-se o maior exportador mundial de látex, vendendo em abundância para os Esteites e a Europa. A produção nacional só perdia para o café.

Mas você sabe, alegria de pobre dura pouco. Um botânico e biopirata de nome Henry Wickhan acabou com a festa ao contrabandear dezenas de milhares de sementes da nossa seringueira, plantando-as nas colônias britânicas na Ásia, veja que sacana.

Em pouco tempo, os ingleses dominavam mais de 90% do comércio de látex no mundo. A nossa vaca caminhava em direção ao brejo.

Foi quando, veja essa, outro Henry se interessou pela porra da árvore paraense. Esse Henry se chamava Ford, e era homem forte, um dos mais ricos do mundo.

Pois esse ricaço construiu, às margens do rio Tapajós, uma cidade luxuosa no meio da selva, para viver da seiva. Era a tal Fordlândia, uma espécie de Eldorado.

Era o ano de 1928, aí o Brasil já estava riscado do mapa do látex, vendendo menos de 3% do que o mundo consumia.

O magnata ambicioso, então, comprou vastas terras de um barão do café, desflorestou tudo e reflorestou com seringueiras.

Mas o diabo montou nas costas dele e a monocultura deu chabu; satanás espalhou uma praga pela folhagem e desgraçou o sonho do velho Ford. O bigodudo virou piada na Inglaterra.

Duas décadas depois, japoneses, russos e alemães passaram a produzir a borracha sintética, passando a perna nos ingleses. E aí acaba-se a história.

Digo isso para dizer outra coisa: o Brasil só se chama Brasil por causa da porra da árvore, o Pau-Brasil. E não sei se o diligente internauta interessa-se por linguística, mas deveria.

Explico: essa árvore, que viria a dar nome a uma das maiores nações do mundo, quase foi extinta pela ganância estrangeira. Os portugueses queriam levar tudo pro ouro lado do mundo.

O brasileiro, é aí que eu quero chegar, é um lenhador, um arrancador de árvores. Você sabe, o sufixo -eiro não é marca de gentílico.

Em português usamos comumente como gentílico, -ano, -ino, -ense, -aio... argentino, americano, amazonense.

O sufixo -eiro usamos para formar adjetivos e nomes, como no caso de determinar uma ocupação, ofício: o barb-eiro faz a barba, o pad-eiro faz o pão, o marcen-eiro trabalha na madeira, o leit-eiro tira o leite.

O brasileiro era o cabra que escarafunchava a terra e arrancava o Pau-Brasil, sinto ter que dizer a verdade.

Brasileiro, serei ainda mais contundente, era um adjetivo abjeto usado para qualificar a função de uns bandidos desqualificados que pra cá vieram trabalhar arrancando árvores. #prontofalei.

Agora veja que ninguém tem o despudor de nos chamar de -eiro: somos brasileños em espanhol, brazilianos em inglês, alemão e francês etc. Usamos -eiro como gentílico em apenas mais um caso, e ele confirma tudo.

Chamamos de mineiros os cabras que nascem nas Minas Gerais. E Minas Gerais se chama Minas Gerais por causa da abundância de minérios da região.

E mineiros, não é preciso explicar, eram os cabras que trabalhavam nas Minas Gerais extraindo de minérios. Palavra da salvação.

[*] É publicitário.