Aparte
Opinião - Quem é o dono do Parque da Sementeira?
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[*] Antônio Samarone

O Parque da Sementeira foi criado por Getúlio Vargas, em 20 de julho de 1933, como um Campo Experimental para a cultura do coco em Sergipe, pelo decreto 22.973 com a dotação de 27.000$000 para os seus trabalhos de instalação.

Foi comprada uma fazenda de 100 hectares. A Sementeira ia do Hospital Primavera ao Rio Poxim. Entre os fundos do Batistão e a Avenida Tancredo Neves, o que não era nem mangue nem apicum, pertencia quase tudo ao Parque, era público. Particular mesmo, só pequenas chácaras na beira do Poxim e uma ocupação dispersa de pescadores chamada Japãozinho. 

Os primeiros coqueiros foram plantados na Sementeira em agosto de 1934, tornando-se o primeiro campo de produção de mudas de cocos no Brasil. Uma grandeza para Sergipe.

Com a criação da Embrapa em 1972, o Parque da Sementeira passou para o seu domínio. Aqui começou a privatização da área. Grandes empresas de construção civil compraram a metade da Sementeira a preço de banana. Virou o bairro Jardins.

Em 1980, o prefeito Heráclito Rollemberg adquiriu 48 hectares para criar um Parque Público. Sem essa medida, hoje só teríamos prédios... 

Uma das primeiras benfeitorias de Heráclito foi a construção dos dois lagos na Sementeira. Cavaram e fizeram uma ligação com o rio Poxim. Atualmente estão poluídos, porque poluíram o rio.

O Parque da Sementeira, que possuía 100 hectares, foi aberto ao público em abril de 1985 com 48 hectares. Restam 40 hectares, mais uma área de 4 hectares no fundo da atual Embrapa, que foi doada à Prefeitura recentemente.

Em 1989, durante a gestão de Wellington Paixão, a Lei 1.477 transformou o Parque da Sementeira em Área de Proteção Ambiental - APA. Precisava de um plano de manejo (lei 6.902/89), definindo-se o que podia e o que não podia existir na APA. Nada foi feito!

Sem plano de manejo, a Prefeitura empurrou dois órgãos públicos para ocuparem a Sementeira. E pode? Ninguém sabe: não existe plano de manejo. A especulação imobiliária nunca se conformou de ter ficado só com a metade da Sementeira. Acha um desperdício...

Durante a última gestão de João Alves foi encomendado a Jaime Lerner um projeto para a Sementeira. Por nossa sorte, ficou só no papel. Iam transformar a Sementeira num Beto Carrero World.

O prefeito Edvaldo tem anunciado que vai gastar R$ 20 milhões para reformar a Sementeira. Fazer o que? Ninguém sabe, nem ele, pois não existe projeto. Um diz uma coisa, outro diz outra. Tudo na base do improviso.

O intelectual e ambientalista Luiz Eduardo Costa propõe: “Que ele faça do Parque da Sementeira Augusto Franco uma área de lazer protegida da insensatez de barulhos absurdos e de multidões que pisoteiam e danificam”. Hum, está fácil... Hoje na Sementeira circulam mais carros do que gente.

Luiz Eduardo ainda informa: “o dirigente da Emsurb, Luiz Roberto Santana, empenha-se em criar, anexo ao parque, uma área específica para a vegetação de restinga, aquela que acompanha as nossas praias e hoje está desaparecendo. E assim teremos um jardim, onde estarão preservados o grageru, araticum, maçaranduba, cajuí, ingá, murici, etc...”. 

Lotear, como no passado, creio que não será mais possível. As forças da especulação imobiliária e da privatização propõem a criação de uma avenida cortando o Parque. Uma “área de eventos, com 40 mil metros quadrados”, uma arena multiuso (tipo o antigo Augustu’s), três restaurante, pista de motocross e coisas do gênero. Tudo dentro da “parceria público privado”.

A sorte é que a construção civil não manda mais na Prefeitura de Aracaju. Ou manda? Senhor prefeito, o que a sociedade civil pede é que o senhor simplesmente cumpra a lei. A Sementeira - Parque Augusto Franco - é uma Área de Proteção Ambiental.

[*] É médico, professor da Universidade Federal de Sergipe e já foi vereador de Aracaju pelo PT.