Aparte
Opinião - Faltava um pedaço de Amaral
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[*] Jorge Carvalho do Nascimento

É difícil escrever sobre Amaral Cavalcante. Não porque dele haja pouco a dizer. Difícil mesmo é selecionar o que dizer diante da vida plúrima vivida pelo poeta que encantou a minha geração. Quando eu o conheci na primeira metade da década de 70, Amaral havia chegado aos 30 anos de idade, mas era de há muito um irrequieto agitador cultural. Tinha reconhecida a sua competência como intelectual, poeta, jornalista e cronista. Foi bom faze-lo amigo e ser por ele aceito em tal condição. Admiração e amizade que me fizeram saudá-lo quando do seu ingresso na Academia Sergipana de Letras.

O menino de Simão Dias, rebento de Corina Hora do Amaral e José Cavalcante Lima carregou para sempre as marcas educativas do matriarcado familiar e o convívio com os irmãos José Nery, Tereza, Édila e Jorge. Mesmo tendo sido apartado destes aos quatro anos de idade para viver em Itaporanga D’Ajuda com as tias-avós paternas Emiliana Nery, uma professora jubilada, católica, filha de Maria, militante da Pia União, e a presbiteriana Maria dos Anjos. Foi esta última que ecumenicamente o alfabetizou e incentivou as primeiras leituras, juntamente com o padre Arthur Moura Pereira, o vizinho da família de Amaral nas margens do rio Vaza Barris.

Certamente um momento importante para forjar o grande poeta e cronista que conhecemos. O estimulo de Maria dos Anjos certamente o ensinou a ser bom leitor e influiu muito na formação do cronista e poeta. A tia-avó era uma oradora de Itaporanga D’Ajuda, que tinha guardados em seus baús discursos para todas as ocasiões: Dia da Arvore, Grito do Ipiranga, Natal, Valor do Saber. Tal como ela, Amaral aprendeu a recitá-los com voz impostada e a também angariar alguns trocados para abrilhantar os eventos sociais da cidade.
De lá voltou para Simão Dias. Foi estudar. De Simão Dias, saiu adolescente para ser aluno interno do Colégio Agrícola, em São Cristóvão. Voltou para Simão Dias, onde concluiu o Ginásio. Fez política estudantil e liderado pelo padre estanciano Joaquim Antunes Almeida, o Padre Almeida, fundou o Grêmio Escolar da instituição de ensino onde era aluno, ao lado de Clínio Carvalho Guimarães, sob a influência do seu professor de História, Lauro Pacheco.

Era o professor Lauro Pacheco quem mais falava de política para os estudantes, quem criticava o colonialismo e os abusos da propriedade latifundiária. O professor Lauro Pacheco foi uma espécie de consultor que contribuiu na redação do Regimento Interno do Grêmio. Amaral concluiu o curso ginasial e foi o orador da sua turma. O menino, agora rapaz, estava pronto para conquistar a capital do Estado. O ano era o tumultuado e tenebroso 1964. Amaral havia, já, vivido 18 anos. A dureza da vida se fez real. O comércio foi a alternativa de trabalho que se apresentou, para garantir o próprio sustento e colaborar com a renda da família. À noite, frequentava as aulas do Atheneu. Foi vendedor ambulante de aparelhos de jantar, transportando enormes e pesadas caixas de louça na cabeça. Trabalhou na Movelaria Universal, arrumando móveis.

Ao catapultar-se para Aracaju, na bagagem trouxe os primeiros poemas. Folhas de papel datilografadas. Era a sua experiência de escritor quando ele conseguiu trabalhar nos escritórios do Sergipe Jornal, onde conheceu o jornalista Luiz Eduardo Costa e fez amizade com Luduvice José, que o levou para a Academia de Jovens Escritores, organizada pela professora Carmelita Pinto Fontes. A convivência no Sergipe Jornal estimulou o aprofundamento na leitura e alargou o relacionamento social do jovem poeta de Simão Dias. Lá conheceu Florival Santos, que o convidou para ocupar o cargo de Secretário da Galeria de Arte Álvaro Santos. Ali, um novo amigo: Clodoaldo de Alencar Filho, que o apresentou aos jovens intelectuais de Sergipe: Mário Jorge, Ilma Fontes, João Augusto e Aparecida Gama, Luiz Antônio Barreto, Nino Porto, Ivan Valença, Aderaldo Argolo e Ezequiel Monteiro.

Era a poesia que agregava Amaral Cavalcante. O jornalismo era o pano de fundo. O Margelino foi o primeiro jornal alternativo que fundou naquele período. Impresso em mimeógrafo, era distribuído entre os alternativos frequentadores do Parque Teófilo Dantas. Antecedeu o Folha da Praia, periódico alternativo que inscreveu definitivamente o nome do poeta Amaral Cavalcante na galeria dos grandes do jornalismo em Sergipe. Antes disso, o inquieto Amaral fez cinema, fez teatro, criou o Teatro Livre da Sociedade de Cultura Artistica de Sergipe - a SCAS -, a Associação Sergipana de Cultura - ASC -, a Editora Jovens Reunidos - Jovreu e o Clube de Poesia. A maturidade chegou e encontrou o poeta presidindo a Fundação Cultural do Estado de Sergipe.

Amaral Cavalcante se fez intelectual e se expressou no âmbito de uma geração com nomes da maior importância. Todos reconhecidos. Cada um ao seu modo, cada um com o seu estilo, mas merecedores do aplauso público: Jackson da Silva Lima, Ibarê Dantas,

Beatriz Góis Dantas, Paulo Fernando Teles de Moraes, Terezinha Oliva, Luiz Alberto dos Santos, Antônio Carlos Mangueira Viana, Francisco José Costa Dantas, Murilo Mellins, Francisco José Alves, Antônio Samarone, Marcelo Deda, José Paulino da Silva, Maria Neli Santos, Luciano Correia, Carlos Cauê e Lílian Wanderley, dentre tantos.

Suas crônicas, hoje postadas na rede mundial de computadores, atestam a linguagem de um escritor maduro, consciente da sua responsabilidade como condutor de um grande número de seguidores, um memorialista a seu modo, capaz de cascavilhar no passado não apenas fatos, mas detalhes deles, com os quais elabora textos antológicos.
O poeta, jornalista, empreendedor e agitador cultural Amaral Cavalcante é agora um experiente senhor de 73 anos de idade. Vida agitada marcada por um temperamento também iconoclasta. De um Amaral que, menino, fez primeira comunhão, frequentou a Cruzada e foi coroinha, mesmo sem entusiasmo. Afinal, como ele já confessou, da igreja católica, gostava mesmo era da pompa dos altares, dos mistérios do senhor morto guardado em caixão de vidro, de desfilar nas procissões com o distintivo da Cruzada e, principalmente, do serviço de alto-falantes e da música dolente que anunciava a hora do Ângelus.

É este o poeta, o cronista primoroso, o jornalista e editor saltador de obstáculos, o subversivo agente da contaminadora ideologia da cultura. É este o Amaral que Mário Brito nos apresenta no livro de crônicas do próprio Amaral A vida me quer bem. Aquele que foi consagrado ao reconhecimento da História e conquistou uma das cadeiras da Academia Sergipana de Letras. Glória que não o afasta de uma história de insatisfação intelectual, essencial à construção da felicidade.

Faltava um pedaço do cronista Amaral Cavalcante. Olhávamos para ele retalhados nos textos que publicava nos espaços da internet. Mário Brito juntou os cacos de Amaral e agora nos chega um belíssimo livro. Nesta quinta-feira o cronista recebe os amigos para autografar este novo livro. Saravá, Amaral! A vida lhe quer bem.  

[*] É professor e ex-secretário de Estado da Educação.