Aparte
Opinião - Homenagem meramente ideológica: discordar e questionar virou crime de ódio?
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Redes Sociais

[*] Lúcio Flávio Rocha

Fiquei bastante surpreso ao ler um artigo neste importante site que exibia minha foto vinculada a um título de “deselegância” e a um conteúdo ligado ao “ódio”. O texto criticava o pedido de revogação do título de cidadão aracajuano a Fernando Haddad, candidato derrotado nas últimas eleições presidenciais

Ora, numa leitura mais cuidadosa, justiça seja feita, percebe-se que o texto vinculava tais adjetivos e condenava muito mais ao vereador Fábio Meireles, autor da propositura. A mim, foram dirigidas palavras respeitosas e elogiosas, como de costume, pela cordial relação que mantenho com o nobre editor do Portal, ao qual reputo ser um dos maiores nomes jornalísticos de nosso Estado.

Mas cabe a mim esclarecer que Fábio Meireles não deve ser responsabilizado sozinho por esta iniciativa, tendo em vista que foi o Movimento Brasil200, representando um blocão maior, que questionou aos vereadores sobre a inadequação do tal título. Não é justo deixá-lo só nesta situação.

Com todo respeito que tenho a este espaço e ao editor, começo discordando da passagem do texto que afirma que “nos tempos da intervenção militar havia um respeito maior entre os lados ideológicos da esquerda e direita”. Um período em que os adversários não apenas se ofendiam, mas se matavam entre armas e bombas, jamais será mais respeitoso que agora. Discordo frontalmente desta sentença.

Dizia ainda o texto: “Ora, essa ação (cancelar a homenagem) é odienta. É um coquetel de puro ódio”. Sejamos sinceros: contestar dentro dos respeitosos ritos legais e regimentais um ato público de um agente público feito com dinheiro público, pode mesmo ser considerado como ódio?

É sério que o amigo editor considera os atos dos vereadores da Câmara Municipal de Aracaju como inquestionáveis e inimputáveis? Especialmente o ato de um vereador reserva de primeiro mandato, que sequer foi eleito, mas acabou de adentrar à Câmara por suplência, na vacância de um outro vereador. Um vereador que sequer “mostrou pra que veio”. É sério que não podemos sequer questionar seus atos?

Mais à frente, o texto diz que “devemos revogar muitas outras coisas, e não um título de cidadania”. Nisto concordamos com o autor, com apenas um detalhe: muitas coisas devem sim ser revogadas na Câmara, inclusive títulos como este. A começar disto. Por que não?

Sem nenhuma excludência das demais necessidades, uma coisa não impede a outra. Há realmente muito a ser feito, e o uso ideológico destes títulos é também uma das aberrações a serem corrigidas. Ou existe uma ordem ou rito burocrático para por na fila das indignações?

Quem me conhece na intimidade sabe que sou absolutamente contra ações públicas de constrangimento e intimidação, seja de qual lado for, sejam dirigidas a quem quer que seja. Sou da paz e do respeito às pessoas.

Mas não sou do tipo politicamente correto que se sente obrigado a concordar com tudo para evitar deixar um ou outro “magoadinho”. Estamos vivendo um tempo em que tentam a todo custo criminalizar opinião, mas eu me recuso a entrar nesta onda e não me absterei de emitir o meu ponto de vista. O crime mesmo seria silenciar a tamanhas fanfarrices.

A Câmara não é lugar de presepada, mas os vereadores da esquerda não estão acostumados ao contraponto. Vão ter que se acostumar. Vamos aos fatos: como pode uma ala político-ideológica vir falar de ódio, sendo que esta mesma ala está acostumada a expulsar de forma violenta das suas manifestações todos que pensam diferente?

A mesma turminha “paz e amor” que matou com um morteiro um jornalista no exercício de sua profissão, e ainda comemorou o fato. O mesmo grupo que cuspiu no rosto de um parlamentar em plena votação no plenário do Congresso Nacional. Que venera atores que cospem em mulheres nos restaurantes. A mesma facção que tentou esfaquear um iminente presidente da República. E que lamentou (e lamenta até hoje) por ele não ter morrido.

O mesmo agrupamento que “com muito carinho” pichou o comitê eleitoral de seu adversário político nas últimas eleições municipais de Aracaju. O mesmo time que “aplaude de pé” a um frei que xingou de jegues, jumentos e gados a quem pensa diferente. Qual a moral que esta tropa tem para vir falar em ódio? Qual o lugar de fala desta turma?

Mas nos atenhamos ao título de cidadania: a ministra de Estado Damares Alves viveu parte de sua vida em Sergipe, atuou em ações sociais voluntárias por aqui e foi a primeira pessoa a dar a oportunidade de um sergipano compor o time do Governo Federal em Brasília.

Mesmo com todas estas credenciais, eu vi esta sergipana de coração ter seus títulos de cidadã sergipana e aracajuana questionados e contestados, e também vi a cerimônia de outorga a ela ter sido transformada numa balbúrdia, no mais completo ato de afronta e desrespeito a uma representante de Governo que já presenciei em toda a minha vida. Isto, sim, foi literalmente odioso e deselegante

Sem muita pirotecnia ou esquizofrenia, o pedido de revogação não passa de um simples convite ao debate como ele realmente deveria ter sido feito. Nada mais que isto. Especialmente pelo modo atabalhoado como foram feitas a leitura e votação deste projeto. O vídeo deste episódio circula nas redes sociais e mostra como a maioria dos vereadores não entendeu o que estava sendo pautado e aprovado.

Alguns vereadores inclusive chegaram a contestar assim que se deram conta do que ocorrera. O tema sequer fazia parte da pauta do dia. Com uma nova discussão, saberemos de fato quais vereadores apoiarão este ato e quais se oporão, dando uma maior transparência aos trabalhos da Câmara que significará um maior respeito aos cidadãos aracajuanos. É um direito do eleitor.

Além do modo equivocado desta votação, as justificativas do título são também passíveis de questionamentos. Qual o motivo da homenagem a Haddad? Ter sido ministro da Educação faz merecer título de cidadania em Aracaju? E em todas as demais cidades do país também?

Teríamos que dar o título igualmente a todos os ex-ministros? O atual ministro da Educação também receberá? Se a justificativa é a UFS, eu pergunto: ele fundou a Universidade Federal de Sergipe? O que ele fez pela instituição foi algo além das atribuições inerentes ao cargo de ministro? Ele o fez de forma voluntária ou foi remunerado para tal? Se fez tanto assim pela UFS, não seria de bom tom que o título fosse outorgado pela Câmara de São Cristóvão, tendo em vista que a universidade é sediada por lá?

Os fatos mostram para quem quiser ver que o vínculo do senhor Fernando Haddad com a cidade de Aracaju é meramente eleitoral. E isto é comprovado pelas raríssimas vezes que ele esteve nesta cidade: basicamente em época de campanha. Ele é tão merecedor do título quanto o Galvão Bueno, outro nome que fora contestado no passado.

E parece que os aracajuanos perceberam isto pelas manifestações de apoio que eu e o vereador Fábio Meireles temos recebido. Nos próprios comentários do artigo que nos critica, podemos ver que a população repudia esta homenagem puramente ideológica. Não há nenhum mal no convite à discussão. Não há nada de ódio ou deselegante nisto. Mal há mesmo é na omissão e na agressão. Haddad, cidadão aracajuano? Ele, não!

[*] É coordenador do Movimento Brasil200 em Sergipe. É empresário, formado em Comunicação Social com Habilitação em Publicidade & Propaganda e pós-graduação em Marketing.