Aparte
OPINIÃO - Namoradores e almoços gratuitos
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[*] Paulo Roberto Dantas Brandão

No primeiro governo de João Alves Filho um cidadão teria procurado o governador e, aflito, disse que o filho havia engravidado a namorada, e que precisava arranjar com urgência um cargo público para ele. O governador teria respondido: “bonito, seu filho come a filha dos outros e nós temos que pagar a conta?”

Não sei se o fato foi verdade, posto que há uma versão que quem fez a indagação foi um secretário, e outra que nem o secretário foi. Por via das dúvidas, e para a felicidade geral de todos os envolvidos, o emprego foi conseguido, e o namorador foi empregado. Até porque naquela época o governo foi pródigo em trens da alegria.

O economista Milton Friedman, patrono da Escola de Chicago, em suma o Departamento de Economia da Universidade de Chicago, cultor e templo do monetarismo e do ultraliberalismo, disse certa vez uma frase singela: “Não há almoço grátis. Se você está comendo de graça, alguém está pagando a conta”.

Esse é um resumo de que na economia nada é de graça. Não há Governo grátis. Tudo gera uma conta, de onde vem a cobrança, mais cedo ou mais tarde. Unindo lé com cré, o namorador empregado gerou uma conta para o contribuinte. Em tempo: Paulo Guedes veio da Escola de Economia de Chicago.

Sergipe é um Estado pequeno, em que todo mundo se conhece, como gosta de dizer Albano Franco. Todas as famílias, todas as pessoas ditas importantes, todo mundo que conhece todo mundo tem alguém pendurado no Estado. Quando não é o próprio importante que tem uma posição na máquina estatal.

Só como exemplo, disse no meu último artigo que a Assembleia Legislativa de Sergipe tem 1.544 servidores. No ano passado tinha mais de 2.000. Tudo está lá no Portal da Transparência. Se colocar todo mundo no prédio da Assembleia, simplesmente não caberia.

O Tribunal de Contas tem mais de 500 servidores. As Secretarias de Estado tem um monte de gente. Aliás, tem Secretaria que tem mais sinecura do que atribuição de fato. Mas todo mundo que ocupa um cargo desses é um jabuti numa árvore. Como jabuti não sobe em árvore, e está lá, é porque alguém colocou.

Quando se diz que é um escândalo o número de servidores públicos no Estado, seja em que “poder” for, todo mundo, de modo geral, aplaude. Mas, com honrosas exceções, todos querem que a situação permaneça como está. Como disse um amigo meu após ler um dos meus artigos: “Você tem toda razão, mas tenho filhos para empregar”.

O problema é que vem a conta do almoço. E a conta está aí a ser apresentada. O governo não tem dinheiro para pagar os servidores em dia.  O pagamento da folha está sendo feito no dia 12 do mês seguinte. E a tendência é que piore. O governo necessita, com urgência urgentíssima, investir em infraestrutura, condição sine qua non para uma retomada do desenvolvimento.

Mas investimento se faz com poupança pública. Como não há dinheiro nem para o custeio, nem pensar em investimentos. O governo precisa propiciar serviços públicos minimamente eficientes, o que não tem conseguido, seja em educação, saúde, segurança ou no que mais queira. E não consegue, principalmente por faltar recursos (além de vontade política).

No frigir dos ovos nos (eu, você, e quem mais vive por aqui) pagamos a conta dos namoradores da vida que conseguem bons empregos no serviço público. Não só a conta direta, como a indireta da falta de desenvolvimento e de serviços públicos eficazes.

[*] É economista, advogado e atuou muito tempo como jornalista e diretor de Redação da então Gazeta de Sergipe.