Aparte
Opinião - O livro do Ciro Gomes, uma promessa de grandeza, um projeto racional para o Brasil
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[*] Eduardo Alves Neto

Ciro Gomes não é do tipo político aventureiro, apresenta-se como um político intelectual que tem a base teórica em sua experiência, tanto no universo acadêmico quanto no político. Com formação em direito pela Universidade Federal do Ceará, local onde se inicia na vida política, foi prefeito de Fortaleza e governador do Ceará.

Ao longo da sua trajetória foi ministro da Fazenda no Governo de Itamar Franco em 1994, ministro da Integração Nacional no Governo Lula em 2002, elegeu-se deputado federal em 2006 e candidatou-se em eleições presidenciais em 1998, 2002 e 2018.

Escreveu obras sobre a política econômica do Brasil, tais como “O próximo passo: uma alternativa prática ao neoliberalismo” em 1994, “No país dos conflitos”, em 1994, e “Um desafio chamado Brasil” em 2002.

Nesta resenha, apresenta-se a obra publicada em maio deste ano, intitulada de “Projeto Nacional: O Dever da Esperança”, São Paulo: LeYa, 2020, que bateu recorde de vendas na pré-estreia no Amazon. Sem dúvidas, o livro do Ciro é um convite à reflexão de um Brasil grande e com relevância geopolítica internacional.

Inicialmente, Ciro Gomes faz um esforço sócio histórico sobre a economia brasileira, desde seus sucessos em ciclos de crescimento e riqueza até a origem da crise que, segundo o autor, foi provocada pela falta de uma política racional que fosse capaz de se impor frente às pressões da geopolítica internacional e financeira.

Seria um equívoco, na perspectiva de Ciro, uma política cambial baseada em empréstimos e rentismo para o país em detrimento de uma política de acumulação de reservas nacionais e de desenvolvimentismo nacional. É nesse sentido que o autor mantém o principal foco do livro, no qual apresenta o “Projeto Nacional de Desenvolvimento” proposto por cinco passos fundamentais para o futuro do sucesso civilizatório brasileiro.

No primeiro passo, Ciro apresenta a necessidade da recuperação do Estado. Tal momento seria caracterizado pela cultura fiscal racional e saudável da dívida pública, redução dos juros altos que promovem a inércia econômica do país, bem como o enfrentamento das maiores despesas públicas, na qual dar-se-á por meio de uma reforma previdenciária mais justa em paralelo a uma política de austeridade nas contas da administração pública.

A partir da aplicação do primeiro passo, partiríamos para um segundo momento que, conforme o autor, seria uma reforma tributária, pois esta é compreendida por Ciro Gomes como necessidade para a garantia digna de vida na velhice dos brasileiros, e isso tudo por meio da reestruturação do sistema previdenciário.

O objetivo é a redução das desigualdades com o corte de privilégios e injustiças no sistema atual. Nesse caso, seria um poderoso meio de formação de capital para uma poupança interna capaz de ampliar a capacidade de investimentos que atendam o interesse nacional, dando condições para que o país jogue em posição de igualdade no sistema financeiro internacional. Para Ciro, nenhum país do mundo é capaz de se desenvolver sem reserva nacional própria.

O terceiro passo que ele propõe é o de se deter ao processo de reindustrialização, tendo em vista a importância que o setor industrial apresenta e apresentou para os países desenvolvidos. Esta proposta se daria através no incentivo à atividade industrial em setores estratégicos, como energia, defesa, construção civil, saúde e agroindústria.

Para esse modelo, cabe ao Estado coordenar e regular a cooperação entre interesses privados e públicos. Um exemplo disso seria o investimento em pesquisas técnicas e científicas por empresas e institutos brasileiros. 

No quarto passo, propõe-se a revolução educacional. Nesse âmbito, Ciro Gomes explica que é possível elevar a qualidade do ensino através de princípios que vão desde um projeto de permanência do estudante na escola básica, até a remuneração eficiente dos professores e federalização da gestão do ensino.

O quinto se dá a partir da agregação de valor ao produtor rural, tendo esse aspecto do projeto nacional como uma vocação brasileira de ser o maior produtor de alimentos do mundo. Para isso, ele apresenta no projeto ideia de otimização da infraestrutura técnica e científica, de escoamento da produção, subsídios, crédito fácil e com juros baixos aos produtores rurais de agricultura familiar, introdução de novas tecnologias, uma reforma agrária justa e pacífica coordenada e mediada pelo Estado.

Por fim, o Projeto Nacional de Desenvolvimento lançado por Ciro Gomes nesta obra é, sem dúvida alguma, uma promessa inteligível de grandeza e de desenvolvimentismo para o Brasil, e uma lembrança aos leitores do potencial nacional e de sua gente. Nesse sentido, é válida a leitura atenciosa.

[*] É professor, mestre em Ciências Sociais e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal de Sergipe - alvesneto.eduardo@gmail.com