YoutubeFacebookTwitterInstagram
Politica & Mulher
Author fbd5d65740160840
Tanuza Oliveira

Jornalista desde 2010, com formação pela Unit e atuação em veículos impressos e em assessorias de comunicação em Sergipe. É repórter Especial do JLPolítica desde 2017.

A conta é óbvia: mais armas, mais feminicídios
CompartilharWhatsapp internalFacebook internalTwitter internal
3b6b5c5105eee8f2

Feminicídios já são frequentes com restrições a armas, imagine com decreto que amplia acesso

É claro, o decreto de ampliação do acesso às armas do Governo Bolsonaro ainda não produziu efeitos. E, dar a ele responsabilidade pelos já altos números de feminicídios praticados no país seria pura ilação. Pura e injusta.

Mas, partindo da premissa de que “quanto mais armas, mais violência”, ele poderá sim ter relação direta com o número de feminicídios no país, que, é preciso lembrar, já alarmante – são três por dia, segundo relatório da Organização das Nações Unidas.

“Numa agressão onde o criminoso não possui arma de fogo, pode até ocorrer o feminicídio. Todavia, possuindo a possibilidade de morte aumentará”, analisa Luís Fernando Silveira de Almeida, coronel da reserva da Polícia Militar de Sergipe e secretário municipal da Defesa Social e da Cidadania de Aracaju.

Para Luís Fernando, armar a população é uma “temeridade sem precedentes”, que, obviamente, não pode ser justificada com o argumento raso de que “a mulher também poderá ter uma arma para se defender da agressão”. 

“Vamos estabelecer o faroeste caseiro?”, questiona. Não. Certamente, não. Essa Coluna, pelo menos, não o faz. E concorda com o complemento do argumento do coronel da reserva.

“O que uma sociedade evoluída quer é civilidade nas relações. Respeito, e não disputa de poder. Para uma criança, ter a mãe morta e o pai preso, ou vice-versa, é uma tragédia de igual tamanho”, diz ele.

Além disso, o agravante desse cenário é que não houve debate sobre a ampliação do decreto com relação ao feminicídio. Aliás, sobre aspecto algum. “Se é algo que vai atingir a população como um todo, deveria haver debate exaustivo e consulta popular”, ressalta Luís Fernando.

O coronel reforça: “queremos paz, não medição de forças”. De fato, não se trata de quem poderá atirar primeiro, se o homem ou a mulher. E sim de que mais homens terão acesso à arma que mais mata mulheres – dados do Instituto Sou da Paz mostram que 40% das vítimas mortas em domicílio foram executadas por uma arma de fogo.

A relação é tão real que, na última semana, o Distrito Federal decidiu que agentes das forças de segurança pública que estiverem sendo investigados em processos relacionados à Lei Maria da Penha terão suas armas de fogo recolhidas.

O recolhimento da arma se estenderá a servidores dos quadros da Polícia Civil, Polícia Militar, do Corpo de Bombeiros Militar e do Sistema Penitenciário e será determinado nos casos em que tiver sido imposta ao agente de segurança uma medida protetiva judicial embasada na Lei Maria da Penha.

De acordo com o texto, a devolução da arma de fogo será autorizada somente quando houver conclusão do inquérito policial, que apura se a violência imputada ao agente realmente ocorreu. Não reconhecer que o decreto de liberação das armas coloca a vida de mais mulheres em risco é fechar os olhos para o feminicídio – como, aliás, muitos entes da sociedade ainda fazem.