Politica & Mulher
Não importa quando conheceu o agressor, a culpa não é da vítima
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Agressões repetidas e culpabilização da vítima: eis a receita dos feminicídios

A empresária e paisagista Elaine Perez Caparroz estava em seu primeiro encontro com Vinicius Batista Serra quando foi vítima de uma tentativa de feminicídio. O apartamento ensanguentado e o rosto inchado da vítima causaram indignação e reavivaram a discussão sobre o combate à violência contra a mulher.

A comoção não foi suficiente, porém, para evitar que ela fosse julgada, taxada de culpada. Muito desse julgamento veio erroneamente do fato de ela ter recebido um homem em sua casa para um primeiro encontro. Erroneamente, porque, ao contrário do que ocorreu com a empresária, a maioria das vítimas de feminicídio não estava em seu primeiro encontro, mas morava ou já morou com os assassinos. 

O último Dossiê Mulher, divulgado pelo Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, onde mora a vítima, mostra que 65,8% dos assassinos nos casos de feminicídio registrados em 2017 eram os companheiros ou ex-companheiros das vítimas.

O documento também aponta que 75,9% das tentativas de feminicídio registradas em 2017 ocorreram nas residências das vítimas. Já entre os feminicídios consumados, os que foram cometidos nas casas das vítimas somam 57,4% do total.

Para a socióloga Jacqueline Pitanguy, diretora-executiva da ONG Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação – Cepia –, ouvida pela Agencia Brasil, os casos de feminicídio muitas vezes são o ponto final de uma história de violências repetidas.

"A violência doméstica é uma violência de repetição. Ela nunca é um tapa só, um empurrão só. Ela tem intervalos e até gestos amorosos entre um tapa e outro", disse a pesquisadora. Jaqueline trabalha com a conscientização de jovens sobre o tema e considera que a educação é um fator chave para mudar essa realidade.

"É importante uma educação infantil que valorize a mulher como indivíduo com direitos e que eduque o homem para que construa sua masculinidade encontrando nele mesmo seu valor, não se sentindo valorizado somente quando domina e desrespeita uma mulher", argumentou. Nesse caso, também cabe à mulher policiar seu julgamento e praticar o que ela quer que pratiquem com ela: a empatia.

Foto: Elza Fiuza/Agência Brasil