Politica & Mulher
OPINIÃO - Violência de gênero: quando nem o choque ensina
B9210c5b13e2b1b3

[*] Nayara Arêdes

O dia foi 22 de julho de 2018. A advogada Tatiane Spitzner, de 29 anos, morre após ser espancada, esganada e arremessada do quarto andar de seu apartamento em Guarapuava, no Paraná.

Agora, o dia é 18 de outubro de 2018. Em Aracaju, Sergipe, a cabeleireira Laysa Fortuna, de 25 anos, é internada após ser atingida com uma facada no tórax, falecendo no dia seguinte.

É janeiro de 2019 e o dia é 21. Em Campinas, São Paulo, a garçonete Quelly da Silva, de 36 anos, é assassinada e tem seu coração arrancado.

Em 11 de fevereiro de 2019, em Camaçari, na Bahia, o Ministério Público recebe a denúncia da estudante Eva Luana Batista, de 21 anos, que relata ter sido estuprada e agredida física e psicologicamente ao longo de 12 anos junto com sua mãe e irmã, em sua própria casa.

São 17 de fevereiro de 2019. A paisagista Elaine Caparroz, de 55 anos, é espancada durante quatro horas em seu apartamento no Rio de Janeiro, capital.

A lista é extensa, e os inúmeros casos se somam a essa cronologia, antes e depois. As semelhanças entre esses crimes não se restringem ao gênero das vítimas nem à crueldade a elas imposta: em todos os casos, a autoria é atribuída a homens.

Em alguns, inclusive, o vínculo entre criminosos e vítimas é o mais estreito possível. São companheiros românticos e figuras paternas que se tornaram as piores ameaças àquelas a quem deveriam oferecer cuidado ou, no mínimo, respeito.

Mais uma semelhança há que ser destacada. É o fato de que nenhuma dessas histórias têm o poder de produzir um impacto real e permanente. São casos com vida útil cada vez mais curta, que se dissolvem na memória da opinião pública após três ou quatro manchetes.

São corpos esquecíveis. São vidas negligenciadas e ignoradas. Tantos os crimes e tão sórdidos os detalhes, mas que não tocam a ponto de despertar alguma autocrítica.

Há muito que o choque deixou de ser suficiente para nos tirar da inércia. E se o choque não é capaz de instruir, o punitivismo puro e simples tampouco é capaz de solucionar o problema.

Não há grades e penas suficientes para conter uma questão estrutural de poder. Não há algema nos pulsos do agressor de hoje que controle a construção de uma masculinidade tóxica desde que o homem era menino.

Ao pendurar apenas na conta das forças de segurança a responsabilidade pela resolução, perdemos a perspectiva da causa para concentrar todos os esforços no efeito. Como se a violência estivesse sempre fora de nós, na esfera do longe e do outro.

Como se as relações, os hábitos, os valores e as crenças que formamos, legitimamos e reafirmamos todos os dias não nos fizessem corresponsáveis.

Creditamos à doença ou à bestialidade o caráter violento do criminoso, como se loucos ou bichos fossem aqueles que praticam as agressões. Não. São homens. Filhos, pais, tios, amigos, vizinhos, colegas.

Os mesmos que foram levados desde pequenos a reprimir qualquer traço de sensibilidade, a não cultivar qualquer relação com mulheres sem interesse sexual e/ou servil, a destilar sem pudor piadas e comentários que evidenciem sua superioridade.

Os mesmos homens que elogiam, sorriem, trabalham, acariciam, presenteiam e rezam são os que discriminam, silenciam, batem, humilham, estupram e matam. Porque a cultura e a educação lhes levou a crer que o homem é o padrão e a medida do mundo.

O resultado são números que se enfileiram em arquivos, relatórios e sistemas, mas que por si sós não sustentam qualquer mudança. Dados como os da pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e publicados em fevereiro último, que apontam que mais de 16 milhões de mulheres sofreram algum tipo de violência no Brasil em 2018.

Foram 177 espancamentos a cada hora. Dados, também, como os da Secretaria de Segurança Pública de Sergipe, que dão conta de que mais de 43% dos homicídios dolosos praticados contra mulheres no ano passado foram tipificados como feminicídio.

Nesse ritmo, mais um 8 de março se aproxima. Uma data que perde qualquer teor de celebração na medida em que outras datas são inscritas nas lápides de Tatianes, Laysas, Quellys, Evas, Elaines e tantas vítimas da violência de gênero. Não há espaço para buquês de rosas vermelhas quando vermelho é o sangue das mulheres que morrem diariamente sob a nossa anuência.               

[*] É jornalista, mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Sergipe e pesquisadora sobre gênero e representação feminina.