Politica & Mulher
Com a palavra, um homem que se percebeu machista
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Michel de Oliveira durante o lançamento do livro em Porto Alegre

“No princípio, houve o fim. O animal rebelou-se contra a natureza e fez-se consciente da própria existência. Chamou-se humano: aquilo que é criação de si próprio, artificial por essência. O homem criou o homem. Este, ao dar-se conta da incapacidade de crescer e multiplicar, subjugou a mulher. Impôs a ela o castigo de parir muitos homens, que perpetuam-se como vírus: parasitas obrigatórios. Viu o homem que tudo o que criou lhe favorecia e pensou ser grande. Tornou-se Diabo de si”.

É assim que o escritor sergipano Michel de Oliveira abre o “Sagrado Coração do Homem”, segundo livro dele - o primeiro foi “Cólicas, cãimbras e outras dores”. Dessa vez, como o título já anuncia, a temática é masculina e tem um quê de pessoal, já que, segundo Michel, a ideia surgiu exatamente de um processo de auto-observação.

“Depois do término de um relacionamento, quando parei de ficar me justificando para mim mesmo, desencadeou o processo que começou com “será que fui machista?”, passando por “acho que fui machista”, até assumir “sou machista”. Foi um momento de crise, me deparei com minha própria farsa. Na minha cabeça, machista era quem batia, abusava ou cometia qualquer tipo de violência contra mulheres”, admite Michel.

E ele, definitivamente, não se via assim. “Eu era um garotinho educado, de modos delicados, jamais podia ser machista, e isso era suficiente para achar que estava isento. Dessa crise entendi que o machismo constitui nossa estrutura social e que sou mais um dos homens beneficiados por isso. A partir daí, comecei a puxar os fios e tecer as histórias que compõem o livro”, diz o escritor.

Ele reconhece que há, entre os homens, uma espécie de pacto secreto, que leva a certa camaradagem hipócrita e condescendente. Então, decidiu desnudar esse personagem que nos livros figura sempre como interessante, irresistível, inteligente, forte e sagaz. “Escrevi expondo as estruturas, apresentando a extrema vulnerabilidade do macho. Então, diria que “O sagrado coração do homem” é uma traição”, resume Michel.   

Michel é graduado em Jornalismo pela UFS, doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS e acredita que é possível repensar o modelo de sociedade - machista - que existe hoje. “Tento ter esperança que sim, por mais difícil e cansativo que isso seja. Se inventamos a sociedade em que estamos, em tese é possível repensá-la. No entanto, sei que as mudanças são muito mais lentas que a ansiedade contemporânea”, pondera.

Nesse contexto, ele vê a masculinidade figurar como tema de discussão como algo positivo. “Sempre a mulher, sua vivência e as opressões que sofre eram motivo de pesquisa, estudos e debates. Agora, de forma ainda inicial, os sujeitos masculinos passam a ser questionados por suas atitudes e são chamados à responsabilidade para ajudar a repensar a sociedade. Esse movimento está acontecendo e espero que ganhe cada vez mais força”, ressalta.

O problema, segundo ele, é que em vez de colaborar e fazer uma autorreflexão, os homens agem como bons meninos mimados: “não, eu não sou machista, pare de me agredir”. “As mulheres avançaram muito e os homens, em vez de correr para estar lado a lado, agem para atrapalhar. Meu dever como homem que se mete a escritor é ajudar a questionar os homens ao redor: parem de fazer essas cenas patéticas, o personagem do homem está chato e desgastado, será que não podemos ser um pouco melhores que isso?”, questiona.

A solução, para Michel, passa por essa autocrítica. “Diria que se assumir machista e aprender a escutar é papel do homem moderno. Todo homem é machista, em suas diversas manifestações. Fomos adestrados para isso. O primeiro passo é parar de ficar negando o machismo, assumir responsabilidades e mudar de atitudes. O segundo passo é aprender a ouvir. Estamos muito acostumados a falar, argumentar, gritar e rebater, pouco nos preocupamos com as vivências dos outros e em refletir sobre nosso estar no mundo”, reitera.

Sendo homem e escrevendo tão francamente sobre o homem, Michel afirma que eles têm uma leitura distanciada, até cínica, de “O Sagrado Coração do Homem”, como se não fizessem parte daquilo. “O machismo é sempre um problema do outro. Talvez ver o homem desnudo não seja confortável para eles, mas era justamente essa a intenção”, destaca. Quem sabe assim, desnudos e desconfortáveis, possam perceber o desconforto que causam às mulheres....