Politica & Mulher
Senso comum prejudica absorção do feminismo pela sociedade
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Lavínia: machismo foi passado socialmente, hereditariamente, ao longo da história

Os conceitos de machismo e feminismo, na prática, são usados de forma distorcida e encarados como a mesma coisa, só que para gêneros opostos. E esse senso comum de entender o feminismo como “machismo inverso” prejudica a absorção dele pela sociedade.

Para a socióloga Lavínia Cruz, mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Sergipe, isso não se dá simplesmente por falta de acesso à informação – o que é também um impeditivo –, mas também por decisões políticas. “Mais presentemente ao ataque e extinção de políticas estatais de promoção à igualdade. O triunfo eleitoral de uma mentalidade conservadora e machista nos dá todas as conotações políticas e intencionais da promoção e propagação do discurso de que o feminismo é exato oposto do machismo e não uma reivindicação justa por igualdade”, avalia.

Embora sejam confundidos, o feminismo, como se constitui hoje, é um movimento relativamente novo. Já o machismo impera desde o início dos tempos. De uma forma ou de outra, pode-se dizer que esses dois conceitos marcaram a história. “O machismo, como ethos fundante da nossa sociedade, relegou historicamente a mulheres incríveis, revolucionárias, heroínas, papel secundário ou sequer digno de registro histórico”, afirma.

Como socióloga, ela esclarece que, em sociedade, quando se fala de crenças, valores, ideias, ideologia política, tudo é “adquirido”. Ou seja, não é que o machismo é inerente ao homem e o feminismo à mulher. São comportamentos adquiridos. “Tudo é criação do homem, é resultado da socialização, processo que se inicia desde o momento em que nascemos. A genética apenas define o órgão sexual com o qual o indivíduo nascerá”, argumenta.

Significa que tudo o mais é construto da sociedade, associado, obviamente, a aspectos individuais da psique de cada indivíduo, que é também, segundo ela, única, individual, intransferível. “Não existe um impulso, um gene, uma característica biológica que defina, a priori, que os homens se comportarão de maneira machista ou que uma mulher será, necessariamente, feminista. Tudo é resultado de aprendizado”, reitera.

Nesse caso, porque o machismo é tão mais forte ainda hoje? “O machismo é mais forte porque, como disse anteriormente, os homens vêm sendo beneficiados por sucessivas gerações em que eles, exclusivamente, ocuparam espaços de poder e perpetuaram tal padrão ao longo tempo. Isso foi passado socialmente, hereditariamente ao longo da história da nossa civilização”, comenta.

Ou seja, construiu-se toda uma estrutura social que privilegia o patriarcado e cujas ameaças a essa hegemonia são recentes historicamente. “Ainda há muita luta ser travada para que de fato a mulher ocupe uma posição de igualdade na sociedade”, constata. Sim, há muita luta e, pelo visto, as mulheres não fugirão a ela.