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Politica & Mulher
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Tanuza Oliveira

Jornalista desde 2010, com formação pela Unit e atuação em veículos impressos e em assessorias de comunicação em Sergipe. É repórter Especial do JLPolítica desde 2017.

O mundo precisa ouvir o Papa: relação entre os gêneros deve ser de reciprocidade e respeito
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Papa Francisco defende a preservação dos direitos das mulheres

A primeira mensagem do Papa Francisco, durante a celebração do dia 1º de janeiro, em homenagem à Virgem Maria, foi em defesa da preservação dos direitos das mulheres. Ele reforçou a importância delas e criticou a exploração do corpo feminino pela sociedade moderna.

O Papa ainda abordou o assunto da imigração, dizendo que as mulheres que se mudaram para o exterior para sustentar os filhos deveriam ser honradas e não desprezadas. Para o padre João Cláudio da Conceição, da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, professor de Filosofia do Direito, o discurso do Papa deixa claro que a Igreja não está omissa às várias questões de violência e desigualdade que envolvem a mulher.

Mais do que isso: segundo João Cláudio, ao dedicar o tema à primeira homilia do ano, o Papa está dizendo ao mundo que a Igreja não está alheia a todas essas formas de violência. “Ele diz que cada agressão contra a mulher fere a harmonia e cria esse desequilíbrio em várias esferas, como na sociedade e na família”, explica o padre.

Segundo o sacerdote, no discurso do papa, também está incutida uma questão importante, que remete à criação. “Quando a Bíblia diz que Deus criou a mulher das costelas do homem, ou seja, do lado dele, o papa faz compreender que não se trata de um gesto solto, mas que desde o início há o intuito divino de que entre homem e mulher não haja relação de domínio, de subserviência”, esclarece.

Para o padre, a relação que deve existir entre os gêneros é reciprocidade, de respeito. “Que um esteja em prol do outro, em benefício do outro, visando o bem-estar e a felicidade do outro”, ressalta. De acordo com o padre, isso está claro na mensagem e na missão de Jesus Cristo.

“Ele já demonstrava esta necessidade de ir contra essa corrente, contra a cultura machista. Isso porque, historicamente, embora Jesus esteja situado numa cultura machista, que subestimava o papel da mulher, no Evangelho de Lucas, fica claro que no grupo de jesus havia mulheres, discípulas, e não apenas homens. Já é um sinal de resgate a essa reciprocidade”, explica.

“Na mensagem de Cristo, não há espaço para que o machismo subestime o papel central da mulher”, completa. Por que, então, tanta gente utiliza essa mensagem para fazer isso? “É um risco de uma interpretação unilateral, até porque, ainda no discurso do papa, a gente observa a atenção ao fato de que o Cristo nos vem, chega a nós, através do sim de uma mulher”, reitera.

5cfe4d05582dc11bPadre João Cláudio: “Na mensagem de Cristo, não há espaço para que o machismo subestime o papel central da mulher”

O padre João Cláudio também destaca que o Papa diz que é preciso somar esforços em defesa da mulher, pois ainda existem correntes contemporâneas que agridem e aprisionam a mulher. Uma dessas correntes é a que consiste no erotismo, quando se enxerga a mulher apenas como mero objeto de desejo.

Ao lado dessa corrente, há outra, que é a que consiste no consumismo, quando a mulher é apresentada para objeto de atração de consumo de produtos. “E, junto a essas, tem a que consiste nas várias formas e faces de violência, sobretudo a violência psicológica, moral e física. Então, foi bacana demais o Papa ter feito esse apelo, pois em meio a tantas conquistas e progressos, ainda temos essas correntes que machucam e ferem a mulher”, ressalta.

Para além dessa análise mais teológica, o padre também chama a atenção para dados que comprovam a necessidade do apelo do Papa: em 2019, no Brasil, estima-se que 13 mulheres foram mortas a cada dia do ano, totalizando  

“É um absurdo. Essa sensibilidade do papa em chamar a atenção para a importância de encarar a questão é a própria sensibilidade de Deus, que, lá no início da bíblia, quando lemos o relato do assassinato de Abel, diz “o sangue dele clama por mim”. Ainda hoje o sangue dessas mulheres clama por Deus. Por paz, por justiça”, afirma.

E a Igreja não pode tapar os ouvidos e deixar de ouvir esse clamor. “Do contrário, nós estaríamos contradizendo o próprio apelo do Cristo. A igreja não pode ficar de braços cruzado, com os ouvidos tapados para não ouvir o clamor de cada mulher que ainda hoje, no Século XXI, é vítima de quaisquer formas de violência”. Esse clamor também deve ser ouvido por toda a sociedade, inclusive por aqueles que usam a religião para aprisionar mulheres sob o discurso mal interpretado de que “a mulher sábia edifica o seu lar”.